a dignidade da diferença
29 de Novembro de 2010

 

 

Com a aplicação dos novos métodos de revista a passageiros – através de um scanner corporal de raios x ou de exame manual -, os Estados Unidos, invocando razões de segurança, foram longe de mais nos seus intentos e violaram inacreditavelmente os mais básicos princípios da dignidade humana, os quais, se bem se recordam, são apanágio dos Estados de direito assentes na democracia liberal. Como é que um país fundado nos mais elementares princípios do liberalismo político abdica deles por razões de segurança? É certo que existe hoje um conflito entre dignidade e segurança, mas haverá legitimidade para as autoridades de um Estado fazerem detenções ou buscas, sem haver qualquer suspeita ou outro fundamento razoável? Será que já vale tudo e, para manter a sua segurança, os cidadãos terão que se sujeitar a situações como as vividas por uma sobrevivente de cancro, que se sujeitou à exibição da sua prótese mamária, ou pelo homem que teve um tumor na bexiga e ficou encharcado quando um segurança o apalpou furando o saco urinário? Para completar a polémica, embora a Autoridade para a Segurança nos Transportes (TSA) garanta que as imagens de raio x são eliminadas, já surgiram milhares delas na Net.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:37 link do post
28 de Novembro de 2010

 

 

Finalmente encontra-se disponível em DVD (edição nacional) a obra-prima inclassificável de Luís Buñuel O Anjo Exterminador (1962), que o genial espanhol realizou a seguir a Viridiana (outra obra-prima). Raras vezes, como neste filme, um cineasta fez uma tão magnífica recapitulação de toda a sua obra, um tão prodigioso desfile de situações, relações e personagens por si anteriormente criados. Buñuel consegue, recorrendo à figura da repetição, fornecer um catálogo imenso de pistas para a compreensão do filme e do insólito que se vai apoderando da história. O Anjo Exterminador é uma devastadora crítica a um certo tipo de burguesia aí retratada, uma seminal paródia que se desdobra em diálogos aparentemente ridículos, no excesso, nos limites da normalidade, na alucinação, na inanidade, no horror ou na magia. Os personagens amam-se, ferem-se, culpam-se, aprisionam-se e morrem, levando-nos a questionar sobre a verdadeira natureza da nossa condição humana e as motivações para o chamamento de Deus quando nos confrontamos com o irracional. Uma obra admirável, prodigiosamente livre, expressiva e surrealista, um dos marcos fundamentais da cultura do século XX.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 15:07 link do post
25 de Novembro de 2010

 

Poesia sónica, electricidade, energia pura e vital, negativo da América profunda em cinemascope, eram assim, líricos e incendiários, o Bruce Springsteen e a E Street Band em 1978, ano em que saiu o extraordinário Darkness On The Edge Of Town. Deixamos aqui três exemplos da sua prestação ao vivo: Candy's Room, Streets of Fire e Darkness on the Edge of Town; pura dinamite! Em suma: rock’ n’ roll essencial.

 

 
publicado por adignidadedadiferenca às 00:02 link do post
24 de Novembro de 2010

 

 

Excerto do final da entrevista dada por Gomes Canotilho, ilustre constitucionalista português, ao semanário Expresso, em Dezembro de 2003, na sequência do Prémio Pessoa que recebeu pelo seu trabalho. Continua actual e explica de forma incisiva o porquê do estado a que as coisas chegaram no nosso país.

 

«- E o Prémio vai contribuir para a divulgação de uma cultura constitucional? - Espero que sim. Eu admiro-me como é que, no Brasil, tenho dois mil ou três mil alunos, às 8 da tarde, num sábado, e aqui a gente não tem ninguém. Há um fenómeno de deserção. Não está ninguém em nenhum lado. Ninguém parece ter interesse, sabemos tudo, não temos nada a aprender com os outros, e o que é certo é que depois não há uma participação cívica e crítica. E a mim preocupa-me, mas confesso que não sei como é que mudamos isto.» 

publicado por adignidadedadiferenca às 12:05 link do post
21 de Novembro de 2010

 

Antecipando a verdadeira arca do tesouro que é a edição de luxo de The Promise: The Darkness on The Edge of Town Story, de Bruce Springsteen, a qual inclui 3 DVD (com imagens inéditas de estúdio e um documentário) e 3 CD (a gravação original e os 21 temas inéditos), está à venda nas lojas o CD duplo The Promise, The Lost Sessions: Darkness on The Edge of Town, que reúne e confirma a extraordinária riqueza estética do material inédito e o fascinante modelo criativo do músico norte-americano, precisamente na sua fase de maior fulgor, isto é, durante as gravações do emblemático álbum de 1978. O regresso a preto e branco e em cinemascope de Springsteen, retrato crucial da América mítica e profunda da Band e de Bob Dylan, filtrado pela energia sonora, simultaneamente lírica e vital, da banda que o acompanhava na altura.

 

 

20 de Novembro de 2010

 

«Pan», é, desde a sua publicação, um dos livros mais apreciados e amados de Knut Hamsun. Uma obra-prima da literatura, onde «a natureza fala na língua subtil e sonhadora de um breve e idílico Verão nórdico». Através dos papéis encontrados depois da sua morte, o tenente Glahn relata-nos a sua trágica paixão pela jovem Edwarda, num crescendo de exaltação que invade e se confunde com a paisagem envolvente, tornando-se difícil distinguir entre natureza e psique.

Da contracapa da edição portuguesa

 

 

A Cavalo de Ferro volta a publicar uma obra do escritor norueguês Knut Hamsun, depois do sublime e visionário «Fome», angustiante narrativa sobre a solitária e alucinada vagabundagem de um jovem escritor que não recua perante momentos de puro e violento delírio, de miséria e fome extrema, o qual, no interior das alucinações que o vão devorando, procura uma identidade própria que, paradoxalmente, o identifica com nada, ou, quanto muito, com o absurdo da vida. Um óptima notícia para quem tem um gosto «requintado»…

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:36 link do post
13 de Novembro de 2010

 

 

A propósito da quarta edição do Estoril Film Festival. A decorrer entre os dias 5 e 14 deste mês, por onde passou o magnífico documentário do romeno Andrei Ujica The Autobiography of Nicolae Ceausescu - retrato cru e realista do regime político do ditador, assente na impressionante força narrativa das imagens -, não posso deixar passar a oportunidade para aconselhar o igualmente magnífico livro de Norman Manea O Regresso do Hooligan, publicado no nosso país pelas Edições ASA, do grupo LEYA, em que o regresso do autor ao seu país natal provoca uma descrição torrencial de um caderno de recordações: a infância interrompida pela deportação para um campo de concentração, o entusiasmo pelo comunismo, do qual se foi distanciando, a vida limitada pela ditadura de Ceausescu, a literatura e as dificuldades vividas no meio intelectual e, por fim, a opção final pelo exílio político. Somos então cúmplices do olhar denso e da escrita admirável do escritor sobre um pesadelo vivido num território de sombras, um retrato profundamente humano e com uma carga emocional assinalável, crítica certeira, filosófica e história, ao totalitarismo e aos imensos males que gerou. Uma obra-prima da literatura, testemunho impressionante de quem procurou ser livre num mundo de asfixia.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 12:35 link do post
12 de Novembro de 2010

 

Debut

 

Post

 

Homogenic

 

Selmasongs

 

Vespertine

 

Medulla

 

Volta

 

publicado por adignidadedadiferenca às 15:32 link do post
12 de Novembro de 2010

 

 

André Téchiné narra, nesta obra belíssima, a história de quatro jovens amigos, Maïté, François, Serge e Henri, que passam a sua juventude numa bela vila situada algures no sudoeste francês, ocupados com muitos assuntos que ultrapassam as suas preocupações com o fim do liceu, como é o caso, entre outros, da política, da metafísica, da solidão, do sabor amargo e doce das paixões e das desilusões amorosas ou do significado profundo da amizade.

Se quase tudo é sublime neste filme, como esquecer a espessura dos diálogos torrenciais, as vibrações das paixões políticas e das paixões amorosas, a dor e a solidão magnificamente retratadas, o olhar avassaladoramente nostálgico e crepuscular do cineasta, o brilho e o cheiro dos juncos silvestres, ou a inesquecível fantasia de uma amizade cheia de cumplicidades entre Maïté e François; contributos essenciais para a génese desta esplêndida aventura em que participam os quatro amigos, notavelmente interpretados por quatro jovens actores. Pois bem, um dos filmes da minha vida teve recentemente edição nacional em DVD.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 02:14 link do post
11 de Novembro de 2010

 

 

Em tempo de crise, tomem lá um dos poucos motivos para festejar este ruinoso ano de 2010 em louca cavalgada para o abismo; Lloyd Cole regressou com o novo e excelente álbum Broken Record, gravação que acumula no seu eixo, pelo menos, quatro ou cinco clássicos instantâneos e obrigatórios, inspirados na nobre linhagem dos Commotions, inesquecíveis acompanhantes dos obrigatórios Rattlesnakes e Mainstream. Trata-se de mais um belo compêndio do músico que um dia venerou Raymond Carver e Norman Mailer, obra que vai buscar as suas fontes musicais à country, à pop e à folk criativa e corporeamente desarrumadas, fornecendo elementos suficientes para incentivar um estimulante e permanente diálogo com os habituais textos assentes numa estupenda concisão literária.

Uma obra que não surpreende nem provoca rupturas estéticas com o passado mais recente, que aposta na continuidade, mas que representa um significativo gesto artístico de um autor que ainda não se acomodou e encontra na sua escrita razões para se ir renovando subtilmente e para manter viva a chama criativa. Um trabalho francamente recomendável com nomeação garantida para a lista dos melhores, quando se fizer o balanço musical do ano corrente.

 

"Man Overboard"

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:29 link do post
06 de Novembro de 2010

 

Não posso deixar de referir neste blog a recente e muito elucidativa entrevista dada pelo histórico do PS, Henrique Neto, ao Jornal Económico. Reparem bem com que gente é que andamos metidos e porque motivo o nosso país caminha a passos largos e seguros para o precipício. Sem prejuízo do efeito nefasto que o capitalismo internacional, diabólico, selvagem e devorador, provoca em muitos Estados modernos europeus. Ora são os mercados que um dia confiam no país, no outro já não, ora é o FMI que diz e se contradiz, ora são as agências de rating completamente «maradas», ou os juros que descem, sobem, tornam a descer e voltam a subir enquanto nada acontece que o justifique em tão curto espaço de tempo. Mas voltemos ao nosso primeiro-ministro e aos excertos da entrevista.

 

 

«Sócrates é um vendedor de automóveis que está no topo da pirâmide dos que dão cabo disto». Henrique Neto recorda que da primeira vez que viu Sócrates discursar pensou: «Este gajo não percebe nada disto. Mas ele falava com aquela propriedade com que ainda hoje fala sobre aquilo que não sabe». Adianta e recorda-se de pensar a seguir: «Este gajo é um aldrabão. É um vendedor de automóveis». «Sempre achei que o PS entregue a um tipo como Sócrates só podia dar asneira. Tem três qualidades, ou defeitos: autoridade, poder, ignorância. E fala mentira». Henrique Neto descreve a forma como decorreu a última comissão política do PS, no dia em Sócrates apresentou as medidas de austeridade. Conta que o secretário-geral do PS convocou a reunião de última hora, «para ninguém ir preparado», e organizou os trabalhos para que «o grupo dos seus fiéis fizesse intervenções umas a seguir às outras». «A ideia dele era que o partido apoiasse as medidas», afirma. «Aquilo é uma máfia que ganhou experiência na maçonaria. Sócrates entrou por essa via e os outros todos também. Até o Procurador-Geral da República. Usa técnicas de maçonaria para controlar a verdade. Não tenho nada contra José Sócrates. Se ele se limitasse a ser um vendedor de automóveis. Mas ele é primeiro-ministro e está a dar cabo do meu país. Não é o único, mas é o mais importante de todos» Ver aqui e também aqui.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 12:11 link do post
01 de Novembro de 2010

 

E aqui começo uma nova rubrica intitulada “pequenas ficções musicais” dedicada, nesta primeira vez, à música sublime das Unthanks - todas as canções convocadas são do último e magnífico disco "Here's the Tender Coming" -, novo paradigma para a música folk britânica, da estirpe de gente ilustre como June Tabor ou Richard Thompson. Cumpre-se, essencialmente, duas funções: a de dar mais espaço à música que aprecio particularmente, assim como a de manter acesa a chama do blog, especialmente nestes momentos em que se torna tão difícil a gestão do tempo.

 

 

Sad February

 

Lucky Gilchrist

 

Annachie Gordon

 

Here's the Tender Coming

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:23 link do post
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