a dignidade da diferença
30 de Outubro de 2010

 

Claude Lorrain, Porto de Mar com Embarque da Raínha de Sabá, 1648

 

«Das associações de Turner, a mais profunda parece ter sido com Claude. Legou o seu quadro Dido Construindo Cartago à National Gallery, fundada havia pouco tempo, na condição de o colocarem ao lado do Embarque da Rainha do Sabá de Lorrain – como hoje se pode ver. Já se falou na maneira como a profundidade do estilo de Lorrain o emocionara, e também na sua suspeita de que nunca seria capaz de fazer nada de equiparável. Mas, aquele primeiro encontro com essa pintura deve ter estimulado algo em si, cuja predisposição já existia, algo que buscava, que lhe abriu os olhos para o que mais ia retratar.»

 

Michael Bockemühl, tradução de Paula Reis.

 

J. M. W. Turner, Dido Construindo Cartago, 1815

 

publicado por adignidadedadiferenca às 13:21 link do post
26 de Outubro de 2010

 

 

O confronto ideológico não resolve actualmente muitos problemas, sobretudo porque assenta em meias verdades e cada uma das partes se contenta em criticar os pontos de vista da outra, prejudicando a muito mais necessária procura de uma solução. Mas será que não serve para absolutamente nada? Talvez não. Vejamos pois o caso destes dois cronistas do semanário Expresso e o teor das suas crónicas do passado fim-de-semana.

Daniel Oliveira escreve «Agora sim, vamos poder ver as maravilhas do Estado Mínimo que nos andam a vender há anos. Quando faltarem polícias na rua, não resmungue. Quando não houver meios para combater os fogos, não se indigne. Quando as escolas e creches fecharem, as universidades se transformarem em depósitos ainda mais inúteis e não houver gente qualificada para trabalhar em lado nenhum, sorria. Quando fecharem os centros de saúde e comprar medicamentos para ficar vivo for um luxo, não se apoquente. Morra sabendo que o Estado sempre foi o culpado de todos os nossos males. E maravilhe-se com a sua elegância depois de uma boa dieta. O que me espanta, o que sempre me espantou, é haver tantos, entre os que devem à maternidade pública o seu nascimento seguro, à escola pública quase tudo o que sabem, à universidade pública a sua ascensão social e cultural, ao Estado a sua segurança e ao hospital público a sua sobrevivência, a pedirem o seu emagrecimento. Uns são apenas egoístas: garantida que está a sua condição, os outros que façam pela vida. Outros são só parvos. Esses vão ver agora como elas mordem.»

Daniel Oliveira parece estar cheio de razão. Contudo, limitou-se a focar os aspectos positivos do Estado social. Esquece-se de explicar como é que chegámos onde chegámos, onde é que se arranja dinheiro para os gastos excessivos da Administração Pública, quando estamos à beira da bancarrota. E já nem falo dos contratos ruinosos para o Estado que os nossos governantes têm celebrado, nem a péssima gestão nas parcerias público-privadas. Não será melhor repensarmos o Estado social para não perdermos tudo o que de bom conquistámos? Será que Daniel Oliveira não compreende que a falência do Estado-providência não só é financeira, como ainda está em causa o próprio paradigma de intervenção social, nomeadamente após a derrocada dos modelos conhecidos?

 

 

Marcado por uma fortíssima tendência liberal, Henrique Raposo sublinha «Sim, os cortes na função pública serão injustos para muita gente. Sim, muitos funcionários públicos, do polícia ao médico, não mereciam esta sorte. Mas este corte cego apareceu no horizonte, porque nunca houve coragem para separar o trigo do joio. Ou seja, os ministérios nunca separaram os “indispensáveis” dos “dispensáveis”. E este é o acto político que está por realizar: para protegermos os funcionários públicos indispensáveis e os serviços nucleares, nós temos de dispensar os funcionários-que-estão-a-mais e fechar os serviços-que-não-passam-de-tachos. Em 2011, o polícia, o enfermeiro, o médico e o funcionário dos impostos serão injustamente penalizados, porque os políticos não tiveram coragem para dispensar os milhares de funcionários-que-estão-a-mais. (…) Se esta reestruturação política do Estado não for feita, seguir-se-ão novos cortes cegos, e os justos pagarão pelos pecadores. (…) Num Estado mais seco, o trigo não é confundido com o joio e, por isso, é mais protegido e mais acarinhado financeiramente. Em segundo lugar, a requalificação do Estado é a melhor forma de protegermos a tal justiça social.»

A posição de Henrique Raposo é francamente defensável e, confesso, estou disposto a partilhá-la, mas só até certo ponto. Pois não estará o cronista a esquecer-se que a liberdade individual e a concorrência económica não conduziram propriamente ao melhor dos mundos, mas sim a um mundo de tremendas injustiças, designadamente as provocadas por uma descontrolada exploração social que se traduziu numa degradante e revoltante condição humana onde a dignidade de uma relevante massa humana desceu a níveis insuportáveis? 

23 de Outubro de 2010

 

 

Peter Carey inspirou-se em Alexis de Tocqueville para moldar Olivier de Garmont, personagem central de Parrot e Olivier na América, a par de John Larrit, este último conhecido pela sua alcunha Parrot. Olivier é o paradigma do aristocrata que obteve uma educação primorosa, enquanto Parrot é o seu oposto: um proletário inglês jacobino. Juntos visitam a América, o primeiro em busca de inspiração para renovar o sistema prisional francês; o segundo acompanha-o fazendo-se passar por secretário, mas na realidade a sua tarefa é a de espiar o aristocrata francês.

Entre muitas outras coisas de não somenos importância, Carey explora neste magnífico romance - escrito numa linguagem bela, livre e apurada, assente em pequenos e deliciosos pormenores que enriquecem sobremaneira a sua escrita -, o conceito de liberdade como força motriz da democracia ou o papel da cultura na sociedade contemporânea. Fá-lo rebuscando costumes da época que retrata ou, num plano diametralmente oposto, revelando de forma clara e detalhada a América de hoje, questionando, aqui e ali, o futuro da democracia, a qual tanto é motivo de reparo como de esperança.

Muito talento, mais rigor histórico, entusiasmo e humor servidos na dose certa, convidam o leitor a manter-se vivo durante as cerca de 500 páginas do romance que quase deu ao seu autor, pela terceira vez na carreira deste, o Man Booker Prize. E para terminar, fica, a propósito, a sugestão de leitura do clássico Da democracia na América de Tocqueville. 

publicado por adignidadedadiferenca às 13:34 link do post
19 de Outubro de 2010

 

 

Maurizio Pollini, genial pianista (e maestro) italiano começou a ganhar fama por ter ganho o Concurso Chopin de Varsóvia em 1959; e desde essa data tem actuado em inúmeros recitais e concertos por esse mundo fora, designadamente na Europa e nos Estados Unidos, tocando as mais diversificadas obras de um leque imenso de compositores. Desde a obra de Bach, Beethoven (as sonatas) ou Chopin, entre outros, até à dos emblemáticos vanguardistas Boulez, Nono ou Schoenberg, Pollini deixou o seu cunho pessoal na história do instrumento durante o século XX e os anos que já leva o actual – também como maestro, pois dirigiu várias vezes do piano -, não só por força do seu brilhantismo técnico, mas sobretudo pela sua rigorosa capacidade analítica estruturando o som como se ele saísse directamente da cabeça do compositor. Nascido em 1942, Pollini tem a bonita idade de 68 anos. Uma bela altura para o recordar através de uma das suas mais prodigiosas gravações: os Nocturnos de Chopin.

 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:34 link do post
17 de Outubro de 2010

 

 

À Espera No Centeio, publicado pela primeira vez em 1951, é um livro extraordinário que nos faz reflectir profundamente sobre o mundo em que vivemos, a nossa relação com a sociedade e os princípios básicos da condição humana. J. D. Salinger, provocatório e genial, cria um superlativo modelo de anti-herói americano - conflituoso, impulsivo, depressivo - caminhando perigosamente por essa linha muito ténue que separa a sanidade da loucura. Através dele, afunda-nos no desconforto da nossa futilidade, do crescente isolamento e da ausência de finalidade, de um sentido para a vida. Do qual só emergimos graças à grande literatura.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:20 link do post
12 de Outubro de 2010

 

 

Tommy Beecham sugeriu a Michael Powell e Emeric Pressburger que fizessem The Tales of Hoffmann, adaptação da ópera homónima de Offenbach, encarregando-os de realizar um musical, no qual participou a mesma equipa de Red Shoes. O filme, realizado em 1951, ficou pronto ao fim de nove semanas. Recentemente, a Divisa, numa opção feliz, disponibilizou esta obra-prima no mercado do DVD.

O resultado visível é um deslumbrante preciosismo de estilo envolto num sumptuoso technicolor em puríssimo estado de graça. Mas não só, a dupla, responsável pelo melhor que o cinema britânico nos trouxe até hoje, constrói um espectáculo esplêndido, assente na ópera, no teatro, no ballet e no cinema, filtrados por um apurado sentido estético (ou plástico) e influenciado pela sua visão moderna (à época) das mais variadas expressões artísticas. Filme de sonhos, filme de fantasia, The Tales of Hoffmann transmite-nos ainda, o que não é pouco, uma cornucópia de sentimentos e emoções que transcende o mero deleite visual.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:15 link do post
09 de Outubro de 2010

 

 

Eric Dolphy foi um dos maiores e mais originais músicos de jazz surgidos nos anos 60 do século XX. Autor de uma música nova, imaginativa, profunda e intensamente livre, Dolphy marcou a cena jazz em gravações históricas com Charles Mingus e John Coltrane, entre outros, ficando na nossa memória sobretudo o genial e inclassificável Out of Lunch, disco de ruptura e paradigma de um lirismo radical, imprevisível e exuberante.

O quarteto Empirical decidiu homenagear Dolphy com a gravação de Out ‘n‘ In, magnífico na forma como os músicos interiorizaram a visão furiosamente livre e autêntica das composições de Dolphy, fugindo sabiamente à habitual tendência para o mimetismo estético, colocando todo o savoir-faire instrumental ao serviço das ideias e da substância musical - o que só acontece, regra geral, com os grande músicos. Directamente para a lista dos melhores do ano.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 13:36 link do post
05 de Outubro de 2010

 

 

Uma boa notícia para os apreciadores de cinema: foi finalmente publicado em DVD, com edição nacional, um magnífico filme da época clássica de Hollywood, trata-se de Laura, do cineasta austro-húngaro Otto Preminger. Oportunidade então para rever o clima obsessivo e apreensivo que se vive em Laura, com a belíssima e sofisticada Gene Tierney, acompanhada por Dana Andrews, no papel do detective McPherson, cuja paixão pela protagonista assume contornos doentios. Preminger, servindo-se da luz com um talento e rigor superlativos, ajudado pela tremenda e inquietante música de David Raskin, ganha uma aposta difícil e oferece-nos uma fascinante mise-en-scène nesta obra misteriosa e envolvente, pico do melodrama e do filme negro, só mais tarde ultrapassado pelo próprio cineasta em Where the Sidewalk Ends.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:51 link do post
03 de Outubro de 2010

 

 

De acordo, o Estado não podia continuar a gastar como o fazia; não podíamos continuar eternamente a viver acima das nossas possibilidades. Não sei como quase ninguém via isto. Suponho que a forma mais imediata de o Estado reduzir o despesismo é o corte na massa salarial. Se concluíram que ganhava acima das possibilidades de quem me pagava, não me queixo. Contudo, ainda assim, proponho uma reflexão: Com o aumento do IVA e a redução das deduções em sede de IRS entramos em puro clima de recessão. Empobrece o país sem estar prevista uma recuperação nos tempos menos longínquos.

Um país que deixou de produzir para receber os subsídios comunitários não vai conseguir subir o poço onde caiu. Não será altura de recuperarmos os velhos sectores da economia e apostar, de uma vez por todas, na produção nacional, sob pena de, num futuro próximo, a solução contra a despesa pública voltar a assentar nos cortes salariais? Os líderes do PCP e do CDS já o afirmaram e parece-me que têm a razão do seu lado.

E, para terminar, deixo aqui uma questão: incidindo os cortes nos salários, não estará este Governo a autorizar a manutenção dos subsídios indiscriminados, dos “jobs for the boys” e dos institutos públicos perfeitamente inúteis que contaminam as contas públicas e são, a meu ver, os principais responsáveis pelo despesismo da Administração Pública? 

publicado por adignidadedadiferenca às 14:02 link do post
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