a dignidade da diferença
28 de Setembro de 2010

Todas as manifestações da vida intelectual do homem podem ser concebidas como uma espécie de linguagem, e esta concepção, segundo um método verdadeiro, perspectiva em geral outras questões. Pode falar-se de uma linguagem da música, da plástica, da justiça que, de uma forma imediata, não é idêntica à linguagem em que as sentenças judiciais são redigidas, sejam elas em alemão ou em inglês; pode falar-se de uma linguagem da técnica que não é idêntica à dos técnicos. Neste contexto, linguagem significa o princípio orientado para a comunicação de conteúdos intelectuais, nos referidos domínios: na técnica, na arte, na justiça ou na religião. Numa palavra: toda e qualquer comunicação de conteúdos é linguagem, sendo a comunicação através da palavra apenas um caso particular, subjacente a conteúdos humanos ou que nele se baseiam (justiça, poesia, etc.). Mas a existência da linguagem não se estende apenas por todos os domínios de manifestação espiritual do homem que, em qualquer sentido, contêm sempre língua, mas acaba por estender-se, pura e simplesmente, a tudo. Não há acontecimento ou coisa, seja na natureza animada seja na inanimada que, de certa forma, não participe na linguagem, porque a todos é essencial a comunicação do seu conteúdo espiritual. Mas a palavra “linguagem” assim entendida não é de modo algum uma metáfora. De facto, é uma evidência plena de conteúdo a afirmação de que nada podemos imaginar que não comunique a sua essência espiritual, manifestando-a através da expressão; o maior ou menor grau de consciência que tal processo de comunicação está ligado aparentemente (ou realmente) em nada altera o facto de sermos incapazes de imaginar a total ausência da linguagem, no que quer que seja. Uma existência que não tivesse relação com a linguagem é uma ideia; mas esta não frutifica, mesmo no domínio das ideias cujo âmbito é assinalado pela ideia de Deus.

 

Benjamin, Walter, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Relógio D’ Água, 1992, Lisboa, Tradução de Moita, Maria Luz, Cruz, Maria Amélia, e Alberto, Manuel. 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:28 link do post
26 de Setembro de 2010

Taraf de Haidouks: Honourable Brigands, Magic Horses and Evil Eye (1994)

 

 

Bem sei que os ciganos são, grosso modo, desconfiados, não gostam de mandar os filhos à escola nem de se misturar com outras gentes; são, em suma, gente de coabitação (muito) difícil. Mas essa circunstância não pode determinar este tempo que se vive; hoje em dia, qualquer cigano é comparado a um ladrão, a um trapaceiro ou a um contrabandista, e poucos são aqueles que não menosprezam a sua história de mil e quinhentos anos na Europa. Uma história feita de perseguições, resistência, intolerância e desconfiança mútua e transformada, muitas vezes, numa lição de vida.

Se são lembrados quase sempre por más razões, hoje merecem que os recorde por bons motivos. Um deles é a música, sobretudo este espantoso «Honourable Brigands, Magic Horses and Evil Eye», assinado, em 1994, pelos Taraf de Haidouks. Uma coexistência “pacífica” entre o velho e o novo, o savoir-faire transmitido de pais para filhos, o virtuosismo impressionante que prefere ser o eco da substância musical afastando-se, sabiamente, da mera demonstração de pirotecnia; todos estes elementos contribuem para consolidar estas sublimes fantasia e improvisação musicais – onde o violino assume o papel principal -, verdadeiro espelho de um inesquecível catálogo de danças e canções de casamento, de prisão, de camponeses, de lamentos ou romances, que sobreviveram a três gerações de músicos e hão-de perdurar também entre nós.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:43 link do post
23 de Setembro de 2010

 

Com o começo das aulas do 2.º ano na Faculdade de Direito da Universidade Lusíada de Lisboa, pouco tempo me vai sobrar para além do estudo aprofundado das cadeiras de Direito da Actividade Administrativa, Organização Judiciária, Teoria Geral do Negócio Jurídico, Direitos Fundamentais (uma coisa que anda muito esquecida por aí…) e Direito Internacional Público. O blog irá, evidentemente, sofrer com essa situação. Daqui em diante, pouco mais farei do que pequenas citações de matérias que julgue importantes ou, no mínimo, interessantes, e, eventualmente, duas ou três chamadas de atenção para obras das mais diversas formas de expressão artística de que goste muito. 

 

Por conseguinte, deixo-vos, para finalizar, duas belas sugestões; o celebrado «A Segunda Guerra Mundial», obra colossal de Martin Gilbert, historiador inglês de dimensão superior, portador de uma escrita hábil, fluente e de grande fôlego narrativo, e «If You Leave It Alone», assinado em 2009, obra dos novíssimos - para mim, que acabei de os conhecer – e simultaneamente velhinhos (com dez anos de existência) The Wave Pictures, a mais conseguida tradução do espírito inicial dos Violent Femmes e da estética artesanal dos Cake, assente em rarefeitas mas cativantes melodias que uma subtil secção de metais transporta para uma dimensão superior, as quais actuam como pano de fundo para uma genuína, incisiva e talentosa escrita pop.

Quanto a vós, estimados leitores, regulares ou de ocasião, fiquem bem e sobrevivam neste país em crise…

 

19 de Setembro de 2010

 

A Gradiva acaba de lançar dois belíssimos livros que nos ajudam a compreender melhor a origem do universo, assim como o caminho percorrido pelos nossos antepassados até hoje. Trata-se, primeiro, de Breve História da Humanidade, de Cyril Aydon, autor, entre outros, de Scientific Curiosities e de uma biografia de Charles Darwin. Neste livro, Cyril Aydon, além de partilhar o seu conhecimento sobre a forma como os nossos antepassados, nas suas mais diversificadas culturas, sobreviveram até ao nosso tempo, reflecte sobre o caminho que a humanidade deverá seguir para não se deixar vencer pelas alterações climáticas e as suas nefastas consequências.

 

 

O segundo exemplo, Big Bang, de Simon Singh, doutorado em física de partículas e autor de várias obras de divulgação matemática e científica, explica aos leitores de uma forma clara, rigorosa e fascinante - como deve ser um bom livro de divulgação científica – a origem do universo. Se continuamos sem saber para onde vai o universo, aprendemos, pelos menos, de onde veio. Ficamos com dois óptimos exemplos de divulgação histórica e científica junto do público em geral que configuram mais uma batalha contra a ignorância.

 

19 de Setembro de 2010

 

Ainda há músicos que merecem a nossa admiração para o resto da vida. Lou Reed é, sem dúvida, um deles. Ora vejam a notícia que saiu na Revista Única do semanário Expresso: uma pequena delícia!

 

«O cantor e compositor Lou Reed proibiu a cantora Susan Boyle de cantar um tema seu no programa “America’s Got Talent”, a versão nos EUA do concurso que a escocesa Boyle ganhou no Reino Unido. Boyle preparava-se para cantar “Perfect Day”, quando Lou Reed lhe negou a autorização, alegando não gostar da cantora. Susan teve um ataque de choro e não participou no programa.»

 

A versão é, obviamente, uma choradeira pegada fruto da visão pateta de quem não tem o mínimo sentido estético e se limita a oferecer uma cantilena que parece um xaile de rezas de um grupo de escuteiros. Oh, tão celestial!

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:24 link do post
16 de Setembro de 2010

 

Son House: Father of the Delta Blues: the complete 1965 sessions

 

 

Son House nasceu numa plantação próxima de Clarksdale e a sua história, a par, por exemplo, da de Charlie Patton ou da filiação musical de Muddy Waters, confunde-se com a terra e as águas do Mississippi. A sua música, sagrada e profana, escreve uma parte essencial da história da América. O canto de Son House, conhecido como o pregador de blues, traduz superiormente a sua vivência dilacerada e de prolongado combate entre o amor a Deus ou a fraqueza pelas mulheres.

«Father of the Delta Blues: the complete 1965 sessions», gravado numa fase de ressurgimento da sua carreira, será, provavelmente, a obra mais marcante do reportório de Son House. A urgência do seu canto e o som áspero, rugoso e ferido da sua guitarra, sublinham uma vivência de sacrifício e penitência, ciclicamente cicatrizada e transpirada. A música emocional de Son House acerta-nos directamente no coração, arranha-nos e arrepia-nos por dentro, em cirúrgicas e autênticas convulsões espirituais.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:13 link do post
12 de Setembro de 2010

 

Diz um velho provérbio extraído do mundo exterior e visível: «só ganha o seu pão quem trabalha». É bastante estranho que este ditado não se enquadre no mundo ao qual de origem pertence; pois o mundo exterior está sujeito à lei da imperfeição e cada vez mais se repete por aí que aquele que não trabalha também ganha o seu pão, e aquele que dorme ganha-o com maior abastança do que aquele que trabalha. No mundo exterior tudo pertence ao portador que é escravo da lei da indiferença, e o espírito do anel obedece a quem tem o anel, seja ele Noureddin ou Aladdin, e quem possui os tesouros do mundo fica com eles, seja qual for o modo como os obteve. No mundo do espírito passa-se de outra maneira. Reina uma eterna ordem divina no mundo do espírito, onde não chove sobre os justos como sobre os injustos, onde o Sol não nasce para os bons como para os maus, onde ficou estabelecido que só ganha o seu pão quem trabalha, onde só encontra descanso quem experimentou a angústia, onde só salva a amada quem desce ao outro mundo, onde só recebe Isaac quem puxa a faca. Aquele que não quiser trabalhar não ganha o seu pão, antes é enganado, como os deuses enganaram Orfeu com uma figura etérea no lugar da amada; enganaram-no porque era cobarde, não era corajoso, enganaram-no porque era citarista, não era homem. No mundo do espírito de nada serve ter Abraão como pai ou ter dezassete gerações de antepassados; a quem não quiser trabalhar, assenta bem o que está escrito sobre as virgens de Israel – dá à luz o vento, mas aquele que quiser trabalhar dá à luz o próprio pai.

 

Kierkegaard, Søren, Frygt og Bœven (Temor e Tremor), Relógio D’ Água, 2009, Tradução de Elisabete M. de Sousa.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:44 link do post
11 de Setembro de 2010

 

 

O republicano Tomás da Fonseca defende que as aparições de Fátima foram um embuste onde a Igreja mais do que testemunha é acusada de cumplicidade e empenho activo. O autor apoia-se em documentos da época para validar a sua tese a que procura dar um cunho científico, comparando as aparições da Cova de Iria com outras anteriores. Tomás da Fonseca, polémico e anticlerical, denuncia e responsabiliza altos dignitários da Igreja pelo logro, o qual resulta, segundo o próprio, do cínico aproveitamento ideológico e religioso para moldar o pensamento dos incautos.

A audácia e a notável liberdade de raciocínio, o carácter provocatório da escrita e o espírito subversivo do escritor contribuíram, a meu ver injustamente, para o esquecimento desta obra singular e merecedora de muito mais atenção. Pela minha parte, luto contra a perda de memória. A Antígona, muito antes, pensou o mesmo e reeditou recentemente «Na Cova dos Leões», com prefácio do historiador Luís Reis Torgal. A foto que junto refere-se, contudo, à capa da edição de 1958 por ser esta a que possuo. Termino por recomendar, a propósito, a obra «Fátima Nunca Existiu» do Padre Mário de Oliveira, um homem de fé cristã católica.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:09 link do post
07 de Setembro de 2010

 

 Que a justiça não seja cega...

 

Quem quiser consultar o resumo (comunicado de imprensa) do Acórdão do Colectivo de Juizes do Processo Casa Pia, pode fazê-lo através do link abaixo. Um pequeno contributo que, espero, sirva para ajudar a cimentar a opinião de cada um. Sinceramente, espero que se tenha feito justiça. Pelos miúdos, sobretudo.

 

http://tsf.sapo.pt/storage/ng1337836.pdf

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:39 link do post
05 de Setembro de 2010

 

Muitos de nós temos, sem que algum fundamento racional o explique, um músico, escritor, cineasta ou pintor preferido. Talvez afinidades culturais, estéticas, questões de gosto o expliquem, não sei. Comigo também acontece. Sei a participação e influência que Vincent Van Gogh teve na criação da da pintura moderna. Foi, sem dúvida, uma figura central.

Do lugar cimeiro que ocupa nas minhas preferências já não sei explicar. Nem compreender. Para mim, é apenas o melhor. Luz intensa como a dos quadros de Van Gogh nunca vi em mais pintor algum. Porque é muita a admiração, fica aqui uma pequena recordação.

 

O quarto de Van Gogh em Arles 

 

«Desta vez é muito simplesmente o meu quarto, aqui tem de ser só a cor a fazer tudo; dando através da simplificação um maior estilo às coisas, deverá sugerir a ideia de calma ou muito naturalmente de sono. Em resumo, a presença do quadro deve acalmar a cabeça, ou melhor, a fantasia.»

 

Barcos de Saintes-Maries

 

«Passei uma semana em Saintes-Maries... Na praia de areia, muito plana, pequenos barcos verdes, encarnados, azuis, tão bonitos na forma e cor que faziam pensar em flores. Um homem só navega neles. Estas barcas mal vão ao mar-alto. Elas partem quando não há vento e voltam a terra logo que ele sopre forte.»

 

O café de noite na Place Lamartine

 

«No meu quadro do Café de noite, tentei expressar que o Café é um lugar onde alguém se pode arruinar, enlouquecer ou cometer um crime. Pelos contrastes das tonalidades de um rosa delicado e vermelho-sangue e vermelho-escuro, de um verde suave Luís XV e verde veronês contra um amarelo-esverdeado e azul-esverdeado forte - tudo isto numa atmosfera do rubro de fogo infernal e um amarelo baço de enxofre - quis exprimir o poder tenebroso duma taberna.»

 

As citações de Van Gogh tirei-as de: Walter, Ingo F., Vincent Van Gogh, Visão e Realidade, 1990, Taschen.

publicado por adignidadedadiferenca às 20:06 link do post
02 de Setembro de 2010

 

 

Ezra Pound é – com todas as honras – o maior poeta pagão neste mundo «cristão e ocidental». Mas não se trata apenas disso. Ele é também o maior poeta «participante» dentro deste mesmo mundo «cristão e ocidental» - o maior poeta anticapitalista. E, nisso, durante diversas partes dos Cantos, sabe contrapor a naturalidade do comportamento, do estar pagão, à hipocrisia da civilização cristã. Dizia que seria legítimo substituir o Velho Testamento, como texto sagrado, pelas Metamorfoses, de Ovídio. Enfim, em matéria de criar, do fazer, constitui a sua obra um dos lances mais elevados da poesia no século actual.”

 

José Lino Grünewald (tradução e introdução) in Os Cantos, de Ezra Pound, Assírio & Alvim.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:57 link do post
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