a dignidade da diferença
29 de Agosto de 2009

 

«O jogador da equipa visitada, Micolli, desmandou-se em velocidade tentando desobstruir-se no intuito de desfeitear o guarda-redes  visitante. Um adversário à ilharga procurou desisolá-lo, desacelerando-o com auxílio à utilização indevida dos membros superiores, o que conseguiu. O jogador Micolli procurou destravar-se com recurso a movimentos tendentes à prosecução de uma situação de desaperto mas o adversário não o desagarrava. Quando finalmente atingiu o desimpedimento desenlargando-se, destemperou-se e tentou tirar desforço, amandando-lhe o membro superior direito à zona do externo, felizmente desacertando-lhe. Derivado a esta atitude, demonstrei-lhe a cartolina correspectiva.»

 

Extracto do relatório do árbitro Carlos Xistra relativo à apresentação do cartão amarelo ao jogador Micolli do Benfica.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:41 link do post
26 de Agosto de 2009

 

Inspirado por essa abençoada e magnífica colecção de cartazes da campanha eleitoral intitulada «O PAÍS DOS ZEZÉS», que podemos ver no Provas de Contacto, aproveito para deixar aqui o meu contributo com o cartaz preferido entre todos os que vi até hoje e que merece, na minha opinião, entrar directamente para a imaginária colecção «parolo, mas sincero».

 

E o comboio a vê-los passar...

 

A parolice em ecrã panorâmico.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:10 link do post
24 de Agosto de 2009

 

 

 

Como complemento do post anterior, aproveito para aconselhar a fotobiografia de José Afonso, principlamente pelo óptimo texto de Irene Flunser Pimentel que, por força de um notável rigor biográfico, conta-nos praticamente tudo o que interessa saber sobre o magnífico músico (entre muitas outras coisas) português.

Se de algum pecado se pode acusar a autora é precisamente esse excesso de informação que, por vezes, provoca no leitor algum cansaço, compensado, contudo, pelo imenso prazer que nos provoca o contacto com os inesquecíveis momentos vividos por José Afonso desde os seus tempos de estudante até ao reconhecimento tardio que veio com a sua morte em 1987 - como tantas vezes acontece neste país -,  sem esquecer, inevitavelmente, os momentos em que o músico/poeta/cantor fez história com os seminais Cantigas do Maio, Eu Vou Ser Como a Toupeira, Venham Mais Cinco ou Como Se Fora Seu Filho, ou a sua participação activa como cidadão que, nas palavras certeiras de José Mário Branco, não será tão importante como «o Zeca músico, poeta, criador artístico, pois este representa um valor universal que raramente a cultura de um país pode ter».

Um imensa vida de andarilho de um autor que será, provavelmente - com Amália Rodrigues -, a figura mais consensual da música portuguesa.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:47 link do post
19 de Agosto de 2009

 

José Afonso, Cantigas do Maio (1971)

 

 

O disco que, a par dos extraordinários Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades de José Mário Branco e Os Sobreviventes de Sérgio Godinho, deixou para trás, definitivamente, as «baladas choradeiras» e trouxe a modernidade para o coração da música popular portuguesa.

É nesta gravação fundamental que José Afonso introduz o surrealismo no seu reportório poético-musical (com um poema de António Quadros e outro da sua autoria) e que une, de um modo inovador e plenamente conseguido, a balada tradicional às sonoridades urbanas, contando, para o efeito, com a preciosíssima ajuda de José Mário Branco.

Já tudo se sabe e tudo se disse sobre este clássico absoluto da música portuguesa,  reservando-se a maior fatia de louvores para os prodigiosos arranjos/orquestrações de José Mário Branco que são o fruto natural da sua inesgotável riqueza de ideias para, através do uso minucioso da instrumentação, atingir a máxima expressividade artística em cada canção.

Se todo o álbum é magnífico, existem, pelo menos, duas canções onde o talento intuitivo e melódico de José Afonso e a ousadia arquitectónica de José Mário Branco raiam o sublime: Maio Maduro Maio, que combina na perfeição beleza e lirismo poético com uma notável modernidade musical, sublinhada pelo som do trompete em surdina, e a assombrosa Coro da Primavera, com um notável trabalho de percussão que dramatiza com uma profundidade quase insustentável a estrutura musical e o canto da canção.

Uma das raríssimas obras-primas da música portuguesa, da autoria de um músico que continuou a criar, durante os anos 70, uma obra de grande fulgor claramente acima da média nacional, cujos parâmetros de qualidade musical e ousadia estética só foram acompanhados - enquanto esperávamos pelo espírito aventureiro da música pop dos anos 80 - pelas gravações de Sérgio Godinho, José Mário Branco, Banda do Casaco e muito poucos mais.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:37 link do post
18 de Agosto de 2009

 

 

So What

publicado por adignidadedadiferenca às 22:27 link do post
14 de Agosto de 2009

 

 

Com excepção de «os regionalismos cansativos, o pícaro programático, o virtuosismo exibicionista», que não me parece a melhor forma de descrever um grande escritor, raramente me senti tão próximo da opinião de alguém como é o caso desta que o Pedro Mexia escreveu no seu blogue Estado Civil, e que encontrei no livro que reúne os textos escritos pelo próprio entre Outubro de 2006 e Janeiro de 2009 numa edição da Tinta-da-China:

 

A doença infantil do direitismo é a boutade. Sobretudo no meio cultural. Sendo o «regime» de esquerda, o direitista aprecia acima de tudo as provocações gratuitas. Mesmo que sejam patetas.

Sou um assumido admirador de Vasco Pulido Valente; mas dizer, como ele disse, que Aquillino é um escritor «medíocre» não passa de uma boutade.

É normal que não se aprecie o estilo de Aquilino, os regionalismos cansativos, o pícaro programático, o virtuosismo exibicionista. Mas há que ter sentido das proporções e das palavras.

Dizer que Aquilino é um escritor «medíocre» é uma bojarda. Sobretudo vindo de quem já elogiou Clara Pinto Correia.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:32 link do post
12 de Agosto de 2009

 

Decidi-me hoje, para variar um pouco os temas que vou apresentando no blog, a inaugurar uma nova rubrica: pequenos grandes momentos da música portuguesa (dos mais variados estilos).

Uma ideia singela que merece um post igualmente simples; apenas a recordação de uma canção ou peça musical de um álbum de que goste imenso ou que, em determinado momento da minha vida, me tenha deixado marcas profundas.

Feita a apresentação, passo à estreia com a magnífica Coquelhada Marralheira do notável Posta Restante (2007) dos Chuchurumel. No dia 08 de Janeiro de 2008, coube-me sintetizá-la numa curta frase: A pacatez de trás-os-montes esventrada literalmente por um abrasador bandolim eléctrico.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:48 link do post
09 de Agosto de 2009

 

Virginia Mayo

 

 

Uma pequena recordação de uma das actrizes clássicas de Hollywood e que trago para aqui depois de ter (re)visto o genial White Heat de Raoul Walsh, film noir que conta a história excessiva - num clima de permanente tensão e num ritmo endiabrado - e mostra o retrato assombroso e implacável do psicopata Cody Jarret – numa interpretação explosiva de James Cagney -, onde Virginia Mayo faz o papel da sedutora e manipuladora esposa de Cody.

Esta foi a razão principal para a sua chamada, mas também poderia ter ido buscá-la a muitos outros filmes. Virginia Mayo tinha um rosto esplendoroso e um magnetismo intenso que foram aproveitados de forma magnífica por Raoul Walsh – sobretudo no sublime Colorado Territory –, Jacques Tourneur ou Budd Boetticher em filmes com Along the Great Divine ou Captain Horatio Hornblower de Walsh, The Flame and the Arrow ou Great Day in the Morning de Tourneur e, por fim, Westbound de Boetticher.

 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:45 link do post
06 de Agosto de 2009

 

 

O jornal Público iniciou há cerca de quatro semanas mais uma nova colecção sobre música, vendida com a edição de sábado – mas que pode ser adquirida separadamente por  apenas € 6,90 -, dedicada à bossa nova.

O conjunto de 12 volumes dedicados a esse magnífico movimento estético com raízes brasileiras e uma visão musical que atravessa – e de que maneira! – as suas fronteiras, tem uma apresentação bastante cuidada do género livro + CD (com a nostálgica mas agradável imitição do vinil), que, aliás, tem sido o (bom) hábito da casa.

Se a colecção deve ser, naturalmente, aconselhada pela prova de «bom gosto» demonstrada e pela qualidade global das gravações – eu próprio não dispensarei a aquisição dos números dedicados aos meus autores preferidos -, merece, contudo, um bem significativo reparo.

Sim, é verdade que estão lá os grandes nomes do movimento: Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Nara Leão, Marcos Valle ou Baden Powell; mas alguém me consegue explicar como é que se foram esquecer do genial João Gilberto, fundador e criador essencial da gramática que deu o sentido à bossa nova?

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:39 link do post
02 de Agosto de 2009

 

 

O homem vulgar, antes dirigido, resolveu governar o mundo. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele automaticamente assim que amadureceu o novo tipo de homem que ele representa. Se, atendendo aos efeitos de vida pública, se estuda a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa, encontra-se o seguinte: primeiro, uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil, sobrada, sem limitações trágicas; portanto, cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que, segundo, o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é, a dar por bom e completo o seu haver moral e intelectual. Este contentamento consigo próprio leva-o a fechar-se a qualquer instância exterior, a não ouvir, a não pôr em causa as suas opiniões e a não contar com os outros. A sua sensação íntima do domínio incentiva-o constantemente a exercer predomínio. Actuará, pois, como se no mundo só existissem ele e os seus congéneres, portanto, terceiro, intervirá em tudo impondo a sua opinião vulgar, sem consideração, contemplação, trâmites ou reservas, quer dizer, segundo um regime de «acção directa».

 

Ortega y Gasset, «A Rebelião das Massas»; Tradução de Artur Guerra para a Relógio D’Água

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:59 link do post
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