a dignidade da diferença
30 de Julho de 2009

A Love of Shared Disasters dos Crippled Black Phoenix é uma belíssima e nada inacessivel colecção de baladas nocturnas tricotadas em magnífica mise-en-scène cinematográfica, fixadas em planos lentíssimos onde, ocasionalmente, são introduzidos pequenos e superlativos elementos de perturbação sonora que contribuem para uma música de contornos sombrios mas majestosos.

Uma espécie de Portishead em versão acústica, suavemente dissonante, e a gravar para o catálogo da 4AD.

 

 

Benni Hemm Hemm inventa, em Kajak, singulares canções pop islandesas, inspiradas em transparentes melodias folk euforicamente desarrumadas por flutuantes orquestrações «assinadas» por Brian Wilson, sofrendo pequenos esticões de feição punk rock-meets-wall of sound e onde, quase sempre, os veementes crescendos da sua «big band» de sopros lhes transmite uma dimensão musical superior. Notável.

 

 

The Ascension de Glenn Branca é uma voraz e fabulosa vaga sonora estruturalmente enriquecida por avassaladores padrões ritmicos, insistentes repetições melódicas, blocos eléctricos incendiários e dissonantes, ou por arrebatadores e assombrosos crescendos sonoros de «mil e uma» guitarras eléctricas sob a batida cardíaca do baixo e uma bateria descontrolada. De momento, não lhe sei chamar outra coisa que não seja pré-Sonic Youth ou pós-Velvet em versão instrumental.

Uma sinfonia eléctrica perfeita que, rapidamente, se tornou um clássico de culto.

 

 

 

Crippled Black Phoenix, "Really, How'd it get this way?"

 

Benni Hemm Hemm, "Brekkan"

 

Glenn Branca, "The Ascension"

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:03 link do post
26 de Julho de 2009

 

É bem patente a intenção de psicologizar e dramatizar as fronteiras entre os espaços interior e exterior. Esta ideia é continuada e acentuada em Quartos para Turistas, de 1945. Neste quadro, o tratamento das fronteiras é fundamentalmente ambivalente; trata-se, presumivelmente, da ilustração da descoberta de Freud de que os domínios do oculto e do alienante podem bem transitar um para o outro, visto que têm a mesma origem. A casa com os quartos de hóspedes ergue-se na noite, como um local acolhedor; as suas divisões iluminadas no rés-do-chão e a placa publicitária iluminada pela luz ao pé da vedação de sebe do lado da rua prometem segurança. Mas este local de conforto e acolhedor comporta ao mesmo tempo algo alienante, pois atrás das suas janelas iluminadas não se vêem pessoas e a luz que sai das janelas do rés-do-chão é de tal maneira forte que dir-se-ia a casa ser iluminada por uma única fonte de luz, no seu centro, dando-lhe uma claridade estranha. Este quadro transcende, assim, os seus contornos realistas: faz lembrar uma certa casa iluminada de maneira estranha por dentro, representada por Edvard Munch em A Tempestade (1893).

 

A casa dos quartos de hóspedes é, no quadro de Hopper, a única coisa bem iluminada também por fora, por uma luz cuja origem é desconhecida. Na sua fachada principal, encontram-se as luzes exterior e interior, a casa está revestida pelos tais efeitos de luz alienadores, que também caracterizam O Império da Luzes II (1950), de René Magritte.

 

Rolf G. Renner, in «Edward Hopper, Transformações do Real», Taschen 2001

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:56 link do post
22 de Julho de 2009

 

E não há ninguém neste país que escreva sobre isto?

 

Hanne Hukkelberg "Bygd Til By"

 

Hanne Hukkelberg "Salt Of the Earth"

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:59 link do post
22 de Julho de 2009

 

 

Laughing With

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:39 link do post
20 de Julho de 2009

 

Acontece-me, muitas vezes, comprar um livro e deixá-lo ficar por aí à espera que um dia mais tarde me chegue a vontade e, finalmente, lhe volte a pegar e me decida pela sua leitura. Foi o que se passou com Balada para Sérgio Varella Cid assinado por Joel Costa e publicado pela Casa das Letras.

O livro, não sendo particularmente brilhante, é escrito, contudo, numa linguagem bastante eficaz e escorreita que me conseguiu prender a atenção até ao seu final.

Trata-se da biografia do magnífico pianista português – um dos mais brilhantes do seu tempo – cuja riqueza e originalidade não se centra particularmente na sua carreira como pianista - aí seguiu o mesmo caminho de tantos outros; preenchido por dúvidas, receios, recitais e aclamações.

Nesta matéria, interessa muito mais a vida do que a carreira do intérpetre, e não se consegue separar uma da outra. Ou seja, como se afirma no livro, a sua vida não se conta em capítulos do género «uma coisa é o homem e outra coisa é o artista».

 

Citando a pequena introdução que faz parte do livro «É arriscado dizer que Varella Cid foi o maior pianista português. Pode ter sido o mais romântico de todos. Pode ter sido a personalidade mais fascinante. Pode mesmo ter sido o mais genial. Foi, seguramente, o mais controverso. Romântico, fascinante, problemático e genial na música como nos dilemas de uma existência curta e vertiginosamente vivida entre a luz e a sombra, entre a sala de concertos e o casino, entre o teclado e o pano verde. Personagem brilhante e imperfeita, idolatrado ou menosprezado, correu o mundo a perseguir a apolínea perfeição artística sem deixar de se deslumbrar pela aventura de uma vida que foi para ele, por vezes, demasiado real».

Claro que esta história teria, obviamente, um final trágico e controverso e, quanto a nós, só nos resta a oportunidade de ouvir as suas excelentes interpretações através da muito reduzida oferta discográfica. Segundo julgo saber, só se encontram, actualmente, disponíveis as suas leituras das sonatas para piano n.º 17, 23 e 31 de Beethoven e do Concerto n.º 2 para piano e orquestra de Brahms. Escutem-nas.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:46 link do post
16 de Julho de 2009

 

Com uma comunhão quase perfeita entre fado, música cigana, dance music e o doce aroma do cantinho brasileiro, acrescida por uma agilidade notável no domínio das diversas línguas com que enriquecem os seus textos, os OqueStrada conseguiram, com a autoridade e a maturidade que os sete anos de estrada lhes oferecem, focar um magnífico retrato do país real, usando e abusando das músicas do mundo, transformando-se em verdadeiros saltimbancos do ritmo e da melodia, sublinhando, com humor, uma admirável visão sem fronteiras e pequenos delírios instrumentais, a mais inventiva e aguardada gravação musical do ano.

Esqueçam, por instantes, o que vai sendo publicado pela irmandade Amor Fúria/Flor Caveira – que de memorável só nos trouxe Tiago Guillul e alguns momentos de B Fachada * – e esse patético equívoco pseudomusical que alimenta os populares Deolinda, porque Tasca Beat O Sonho Português dos OqueStrada é, sem qualquer dúvida, a grande música portuguesa do momento.

 

Oxalá Te veja

 

* E o  Meio Disco de Os Quais, evidentemente. 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:05 link do post
15 de Julho de 2009

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:34 link do post
12 de Julho de 2009

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:29 link do post
07 de Julho de 2009

 

Acabaram-se as férias e com o regresso ao trabalho aproveito para dar o merecido destaque a um romance espantoso e fascinante da autoria de um escritor marroquino praticamente desconhecido, cuja originalidade assenta, essencialmente, no facto de ser escrito numa linguagem simultaneamente crua e poética, com uma pujança e agilidade assinaláveis, do qual só tomei conhecimento através da leitura de um texto notável acerca do livro, assinado pela Ana Cristina Leonardo. O autor mostra-nos o ambiente de trabalho vivido por prostitutas e proxenetas num bordel de Casablanca, e sobre os (imensos) méritos do romance, em vez de perder o meu tempo com redundâncias, limito-me a recomendar a leitura da referida crítica no blog Meditação da Pastelaria e a citar um pequeno excerto de Salim Jay no Dicionário dos Escritores Marroquinos, por se afigurarem, a meu ver, opiniões quase definitivas sobre esta obra fortemente musical e expressiva.

Fiquem, então, com a poesia, com o lirismo e com a luta pela sobrevivência de Rosa, Almíscar da Noite, Yasmin, Pequena Amêndoa, Nectarina, Spartacus e Zapata.

 

 

«Com as Meninas da Numídia, Mohamed Leftah assina um romance que merece ser considerado uma obra-prima. Se dissermos que este livro foi escrito numa linguagem esplêndida, não estaremos a elogiar suficientemente a sua originalidade e a sua justeza. Leftah envolve-nos num escantamento transbordante, enquanto narra, com a mestria estilística de um Apollinaire ou de um Pierre Louÿs, uma noite de um bordel de Casablanca.

Não se conhece nenhum outro autor marroquino de expressão francesa que tenha demonstrado uma  originalidade tão fulgurante, tão corrosiva, combinando a ternura mais pungente com a descrição mais chocante.»

 

Salim Jay, Dicionário dos Escritores Marroquinos

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:16 link do post
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