a dignidade da diferença
18 de Junho de 2009

 

E aproveito, já agora, para divulgar os livros e a música (que vai no leitor de mp3, por ser mais prático) que acompanha a minha mala de viagem.

 

Livros:

 

A Montanha Mágica, Thomas Mann

Pais e Filhos, Ivan Turguéniev

Fome, Knut Hamsun

Dom Casmurro/Esaú e Jacó – Machado de Assis

A Arquitectura da Cidade, Aldo Rossi

A Arte de Argumentar, Anthony Weston

 

Música:

 

Chemical Chords, Stereolab

Meio Disco, Os Quais

Sharon Shannon

My Maudlin Career, Camera Obscura

İSonido Amazonico!, Chicha Libre

Blood From a Stone, Hanne Hukkelberg

Sehnsucht, Schubert/Mathias Goerne/Leonskaja

Tasca Beat, OqueStrada

Present Tense, James Carter

Sunday at The Village Vanguard, Bill Evans Trio

@#%&! Smilers, Aimee Mann

Concerto Italiano, Gesualdo/Alessandrini

A Quiet Eye, June Tabor

 

Actor de St. Vincent não vai porque já não cabe e com Checkmate Savage dos Phantom Band acontece o mesmo. No entanto, deixo-vos uma pequena amostra deste magnífico cocktail de pós-punk,  misturado com guitarras abrasivas à Velvet Underground, harmonias roubadas aos Beach Boys e com a destreza emocional dos Echo and The Bunnymen.

 

The Phantom Band

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:28 link do post
17 de Junho de 2009

 

 

E à terceira tentativa com Blood From a Stone, depois dos sobreexcelentes Little Things e Rykestrasse 68, Hanne Hukkelberg consegue criar, com o aperfeiçoamento de todas as experiências de laboratório usadas nas gravações anteriores, a obra de arte completa. Uma radiografia assombrosa do mundo actual em que vivemos enlaça-nos perigosamente rumo a uma atmosfera de pesadelo, perturbação, estranheza e revelação.

Textos quase telegráficos - mas com substância - resumem emoções (humanas?) escondidas atrás de máscaras, ora invadidas pelo medo ora pela dor ou pela dificuldade de relacionamento, e adivinham os seres vagamente estranhos que somos. Histórias de um mundo misterioso e fascinante como se de pura ficção científica se tratasse.

Mas o que mais nos espanta é o absoluto domínio que Hanne Hukkelberg exerce sobre a matéria musical, criando uma complexa mas francamente acessível teia sonora. Contactos imediatos com os A.R.Kane de Sixty Nine, um baixo ligado à tomada que acompanha, literalmente, a batida do coração, a leitura futurista de Soak de Mimi Goese e dos Hugo Largo, o som metálico aprendido nas audições de Colossal Youth e o espantoso aproveitamento dramático da percussão como já não se (ou)via desde Music For A New Society – entre outras coisas sublimes -, convergem harmonica e ritmicamente para uma paleta sonora impressionista e esteticamente visionária que atravessa todas as fronteiras possíveis - e que só por acaso sabemos situar-se geograficamente no norte da europa.

Midnight Sun Dream é a canção de embalar em ambiente surrealista, Blood From A Stone e Bandy Riddles convocam a Stina Nordenstam de And She Closed Her Eyes para cantar sobre miniaturas de rock falsamente exuberante em banho-maria, Salt Of The Earth junta a tensão dramática de Cale e Bernard Herrmann a uma Diamanda Galas em admirável estado de contrição e é uma das mais inesquecíveis canções de que há memória. E ainda falta recordar a espantosa desconstrução de Crack em devastadora derrocada fatal e a inclassificável (e indecifrável?) Bygd Til By, solução assombrosa que Björk não encontrou para resolver Vespertine.

Quanto ao que fica por dizer, tudo se resume à incredulidade que sentimos quando escutamos o disco: Mas de onde é que isto vem?

Não adivinho competição à altura para lhe tirar o título de gravação do ano, mas, sinceramente, já lhe estou a reservar lugar certo junto de clássicos intemporais da estirpe de Rock Bottom, Highway 61th Revisited, Astral Weeks ou Veedon Fleece, Swordfishtrombones ou Blood Money, Starsailor, Porcupine, I Want To See The Bright Lights Tonight, Motion ou Mettle.

Uma obra genial que quero guardar só para mim.

 

Salt of the earth

 

Seventeen

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:41 link do post
15 de Junho de 2009

 Com dedicatória especial a todos aqueles que gostam de se meter na vida dos outros, comentá-la, criticar o que fazem, o que dizem, com quem andam ou deixam de andar. Até parece que  a sua é uma vida cheia de verdades e não têm já problemas suficientes com que se preocupar. Eis a sinopse do sublime conto de Anton Tchékhov que aqui quero recordar: Aniókhin foi eleito juiz de paz honorário e conhece Luganóvitch, vice-presidente do tribunal da comarca. Este, um dia, convida-o para almoçar em sua casa e, apesar da hesitação inicial, o convite foi aceite. Foi aí que Aniókhin teve oportunidade de conhecer Anna Alekséevna, mulher de Luganóvitch. No almoço tudo foi claro para Aniókhin; viu uma mulher jovem, bela, bondosa, uma intelectual, encantadora, uma mulher como nunca encontrara antes. Também reparou que marido e mulher faziam tudo para ele comer e beber; e por alguns pormenores, como preparavam o café juntos, por exemplo, ou por se compreenderem à primeira palavra, concluiu que viviam em harmonia e sem problemas. Os Luganóvitch trataram de fazer amizade com Aniókhin; se ele tardava muito em ir à cidade, para eles já tinha adoecido, já lhe acontecera alguma desgraça. Aniókhin pensava nela e tentava compreender por que razão aquela mulher tinha casado com um homem nada interessante e que já passava dos quarenta. De todas as vezes que ia à cidade, falavam muito, calavam-se muito, mas não confessavam o seu amor. Aniókhin interrogava-se sobre aonde poderia levar aquele amor se não tivessem forças para lhe resistir e parecia-lhe intolerável que aquele amor sereno e triste pudesse quebrar a corrente feliz da vida do marido, dos seus filhos e de toda a casa onde gostavam tanto dele. Também ela raciocinava da mesma maneira. Pensava no marido, nos filhos e na sua mãe, que gostava do genro como de um filho. Passaram os anos e, um dia, chegou a hora da despedida, porque Luganóvitch fora nomeado presidente do tribunal numa das províncias ocidentais. Foi decidido que Anna Alekséevna iria para a Crimeia e um pouco mais tarde Luganóvitch partiria com os filhos. Acompanharam-na à estação dos comboios e, quando ela já se despedira do marido e dos filhos, Aniókhin foi-se despedir dela. Do que aconteceu a seguir, passo a citar: 

«Quando, no compartimento, os nossos olhares se cruzaram, a força de alma abandonou-nos aos dois, abraceia-a, ela apertou o rosto contra o meu peito, as lágrimas corriam-lhe dos olhos; beijando-a no rosto, nos ombros, nas mãos molhadas de lágrimas – oh, que infelizes nós estávamos! – declarei-lhe o meu amor e compreendi, com uma dor pungente no coração, como era inútil, mesquinho e enganador tudo o que nos impedia de amar. Compreendi que, ao amarmos, temos de reflectir sobre o amor numa base mais elevada, mais importante do que a felicidade ou a infelicidade, o pecado ou a virtude no seu sentido corrente, ou então não vale a pena, sequer, reflectir sobre ele. Beijei-a pela última vez, apertei-lhe a mão entre as minhas, e separámo-nos para sempre. O comboio já começava a andar. Sentei-me no compartimento vizinho – estava vazio – e, até à paragem seguinte, deixei-me ficar ali, a chorar. Depois fui para a minha Sófiino a pé...»

 

Sobre o Amor, in Contos de Tchékov, 3.º volume, Relógio D’Água. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

publicado por adignidadedadiferenca às 02:03 link do post
10 de Junho de 2009

 

 

In the late ‘60s, a number of Peruvian musicians came up with a new sound – an Amazonian funk of sorts that came to be known as Chicha. For reasons to do with geopolitics, class, language, power and dumb luck, their music never became the next big thing. This album is dedicated to the great bands of that era: Los Mirlos, Juaneco y su Combo, Los Hijos del Sol, Los Tigres de Tarapoto, Los Destellos and many more. May they be the next big thing in an alternate universe.

 

In «¡Sonido Amazonico!» dos Chicha Libre

 

 

Popcorn Andino

 

publicado por adignidadedadiferenca às 18:46 link do post
08 de Junho de 2009

 

 

Icebound Stream

 

Snow Camping

 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:49 link do post
03 de Junho de 2009

 

A gravação já tem dois anos, mas só agora tive oportunidade de escutar a magnífica, assimétrica e lunar poesia musical de Jesca Hoop em Kismet. Após as primeiras audições, parece-me a sequência natural das canções subtilmente experimentais do notável Carbon Glacier de Laura Veirs, ligeiramente modificadas pelo tubo de ensaio de Hanna Hukkelberg. Ou seja, mais um belíssimo conjunto de histórias contadas por quem acha que este não é, definitivamente, o melhor lugar para se viver, dominadas por uma visão musical preciosamente ecléctica – soul, folk-rock, duas ou três ideias de pop-meets-quarteto de cordas, jazz, country servido em cubos de gelo, um ou dois esgares eléctricos e pedaços do Tom Waits boémio (haverá outro?) -  alimentada por pequenas doses de melodias sinuosas e semi-abstractas, mas de contágio imediato. Um grande e solitário disco.

 

Com o álbum de estreia de David Ackles foi amor à primeira vista. Tudo o que tinha lido sobre o compositor norte-americano confirma-se nesta fulgurante montra de ourivesaria musical. O retrato sublime e cinemático da América profunda, que arrastou consigo óbvios e notáveis irmãos gémeos; desde as alucinações de Tim Buckley, passando pela solidão e poesia de Cohen ou pela amargura de Sail Away de Randy Newman, sem esquecer esse paradigma do cantor-contador de histórias que é Nighthawks At The Diner do genial Tom Waits (outra vez este gajo?), ou gerando os mais recentes – e devotos – Tindersticks, Elvis Costello e Divine Comedy.

Se American Gothic  tem a mais-valia dos sublimes arranjos orquestrais, escutar uma e outra vez The Road to Cairo, When Love is Gone, Sonny Come Home, Lotus Man ou Be My Friend, vai-me deixar francamente indeciso na altura em que quiser eleger o Ackles vintage.

Directamente para a lista dos melhores de sempre.

 

David Ackles, The Road to Cairo

 

Jesca Hoop, Money

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:14 link do post
02 de Junho de 2009

 

Confesso que nunca tinha ouvido falar do cineasta polaco Jerzy Skolimowski. Embora tenha sentido alguma curiosidade em assistir ao seu último filme – sempre se tratava de um regresso após dezassete anos sem filmar -, por um desses acasos do destino acabei mesmo por fallar a sua exibição nas salas de cinema, quando esteve por cá em cartaz.

Em boa hora decidi ver Quatro Noites com Anna em DVD. Porque raras vezes me senti na presença de um cinema tão obssessivo, belo e comovente, e em que tão pouca luz – usada de modo tão rarefeito - assume uma importância primordial na narrativa.

Um filme denso que nos faz regressar às origens do cinema, onde os gestos assumem um significado muito maior do que as palavras, com um protagonista vítima da sua própria inocência e do seu desejo prematuramente eliminado.

 

Uma história muito simples contada com um rigor e economia de meios que desde o início nos assombra pela ousadia estética e firmeza de ideias. Há muito tempo que um personagem não me magoava tanto como Okrasa o faz neste filme. Não sei se foi pelo amor oblíquo que o empregado do crematório do hospital sente pela enfermeira Anna ou se foi pela forma como Okrasa aceita sempre as contrariedades da vida – como é assombrosa a sequência em que o seu olhar quase pede desculpa ao chefe por este o ter despedido.

O que sei, e disso tenho a certeza, é que nunca vi como neste filme um adulto amar tanto outra pessoa através dos olhos de uma criança – como esquecer os sublimes planos em que Okrasa vê a sua amada iluminada pelo luar? -, influenciando a vida de Anna com pequenos gestos do quotidiano (durante a noite, ou melhor, as quatro noites), mas sendo incapaz de impor a sua presença.

Depois do magnífico A Man From London de Béla Tarr, chega às minhas mãos mais um exemplo sublime do cinema de autor com origem no leste da Europa. Claro que tenho a perfeita consciência de que o efeito produzido por esta assombração será prodigiosamente ampliado na escuridão, solidão e dimensão de uma sala de cinema.

Da Polónia, com devoção.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:07 link do post
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