a dignidade da diferença
31 de Março de 2009

 

Sim, é verdade que dois mil e nove já nos deu, pelo menos, o óptimo disco de Andrew Bird, uma gravação muito boa (pronto, consegui libertar-me dos preconceitos) dos Animal Collective e a estupenda interpretação «live» de Van Morrison no regresso ao miraculoso Astral Weeks.

No entanto, a avaliar pelo que escutámos até hoje, a marca que sobressai deste primeiro trimestre do ano é a magnífica colecção de canções assinadas por Neko Case, Alela Diane e da nossa bem portuguesa (enfim, um pouco de patriotismo cai sempre bem) Cristina Branco. E já nem me refiro à sublime gravação da mezzo-soprano Elina Garanča, o sobreexcelente Bel Canto.

Com Kronos, Cristina Branco deixa novamente sem grandes argumentos todos aqueles que continuam a questionar se o que ela canta é fado. Se a tristeza sentida interiormente quando escutamos as suas imensas e cristalinas interpretações convive, inevitavelmente, com o «espírito do fado», a verdade é que o seu ecletismo consegue transformar as canções que interpreta em muito mais do que simples fado. O aviso já vinha de trás. Fora assim em Sensus, em Ulisses ou quando cantou Amália e, mais recentemente, José Afonso.

 

Cristina Branco, Bomba Relógio

 

 

Música popular portuguesa assimilada pelos olhos de José Mário Branco e Sérgio Godinho, pedaços de tango ou um doce e suave aroma brasileiro, convivem muito naturalmente com o esqueleto do fado ou com a sensibilidade outonal da música de câmara. Uma intérprete notável que consegue fazer da música e das palavras dos outros coisa sua.

Não fará mais sentido, por tudo isto, chamá-la autora?

Neko Case regressou com Middle Cyclone e com ele continua a seguir o mesmo trilho sonoro «dirty» e incendiário que já pisámos de Blacklisted a Fox Confessor Brings The Flood. Uma alma vagabunda precursora do country-noir (como já lhe chamaram) em diálogo directo com o mundo habitado pela voz de Patsy Cline ou pelas melodias singulares e oblíquas de Jolie Holland e Cat Power. E, uma vez mais, magnificamente acompanhada pelos cúmplices do costume.

 

Neko Case, This Tornado Loves You

 

Acrescentem-lhe o universo devastador e desamparado de Karen Dalton, a solidão de Sandy Denny, a delicadeza sonora do último álbum a solo de PJ Harvey ou a alma fúnebre e agreste de Nina Nastasia (Maria McKee ou Laura Veirs também podiam reclamar a sua presença) e, posso dizê-lo, acabaram de ouvir To Be Still, o segundo e assombroso testemunho musical da mais recente revelação da música popular: Alela Diane.

 

Alela Diane, White As Diamonds

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:57 link do post
31 de Março de 2009

 

Mary Poppins, Feed the birds (Tuppence a bag)

 

Breakfast at Tiffany's, Moon river

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:01 link do post
29 de Março de 2009

 

 

Eis uma excepcional gravação de Elina Garanča, a famosa (e lindíssima) mezzo-soprano da Letónia que, como demonstra neste magnífico registo, vive em autêntico «estado de graça».

Com uma extensão vocal invulgar aliada a um timbre belíssimo, colorido e harmonioso, Elina Garanča traduz todos esses elementos num canto nobre e expressivo, acrescido por uma mais-valia essencial: uma espessura dramática avassaladora capaz de emocionar o coração mais empedernido.

Neste disco, canta-se um conjunto de árias (e algumas cenas completas) de óperas menos divulgadas de Donizetti, Bellini e Rossini. Num registo vocal simultaneamente doce e dramático, Elina liberta-se das amarras tradicionais e, num gesto criativo de majestosa liberdade, atravessa, literalmente, a atmosfera num vôo picado estonteante, como se de um falcão de tratasse.

A mezzo-soprano é acompanhada pela orquestra do Teatro Comunale de Bolonha que, sob a magnífica orientação de Roberto Abbado, consegue oferecer-nos uma demonstração veemente do total domínio que exerce sobre esta forma de expressão artística, numa interpretação enriquecida com pequenos mas preciosos detalhes sonoros.

Uma obra memorável que vai ser, quase de certeza, um dos grandes discos do ano.

 

Dopo l'oscuro nembo (Adelson e Salvini, de Bellini)

 

publicado por adignidadedadiferenca às 02:05 link do post
24 de Março de 2009

 

Tem havido por aí muita (e justa) indignação pelas palavras ditas por Sua Santidade, o Papa Bento XVI, sobre a utilização do preservativo.

Concordo absolutamente com a indignação e sou favorável, naturalmente, a que a mesma se traduza em textos críticos que sirvam para alertar os mais incautos. Agora, não me tentem convencer que as afirmações de Ratzinger são uma surpresa.

É óbvio que considerar que «o uso do preservativo não resolve o problema da Sida, antes pelo contrário» só tem cabimento na mente de um anormal ou irresponsável, mas não era isso, mais palavra menos palavra, que o anterior Papa – o também hipócrita João Paulo II – dizia há 19 anos na Tanzânia? Talvez as pessoas já se tenham esquecido, mas não deviam. Foi naquele país (que, na altura, iniciara uma campanha pelo uso do preservativo como forma de prevenção da SIDA) que João Paulo II condenou oficialmente o uso daquele método contraceptivo a favor de uma «sexualidade consciente».

 

Atitude semelhante aconteceu com o caso do aborto da menina brasileira de 9 anos, quando Bento XVI defendeu e confirmou a excomunhão contra a mãe e os médicos que  procederam ao aborto da menina engravidada e violada pelo padrasto – claro que, para a Santa Sé, pessoas como o padrasto têm sempre o seu lugar reservado nas orações e no seio da Igreja Católica.

Mas não era João Paulo II que, em plena guerra dos balcãs, defendia que as mulheres vítimas das maiores atrocidades, e que foram repetidamente violadas e engravidadas por soldados criminosos e irracionais, deviam dar à luz os frutos concebidos naquelas atrocidades e amá-los infinitamente? Isto só pode ser imaginável e aceitável na cabeça de outro anormal, claro.

 

A história repetiu-se e há-de repetir-se num futuro próximo ou longínquo, porque quem manda na Igreja – salvo as cada vez mais raras e honrosas excepções - é uma casta de gente hipócrita, criminosa, perversa e indecente que se «fecha» num retiro de vergonhoso fausto e riqueza e não se preocupa, nem um pouco, com aqueles que sofrem e vivem na maior pobreza, e que o Deus em que eles, obviamente, não acreditam, ensinou a ajudar.

Felizmente, os melhores exemplos vêm de dentro e, entre os católicos, muito poucos serão aqueles que ainda seguem a «doutrina» do Papa e dos seus acólitos.

Pela indignação, sempre! Surpreendido? Não. Mas, como já dizia Adriano Moreira (num momento de notável lucidez): os portugueses surpreendem-se sempre com aquilo que já estão à espera...

 

publicado por adignidadedadiferenca às 13:24 link do post
22 de Março de 2009

 

Com o objectivo de ir reinventando o meu blog, vou iniciar hoje uma série a que vou chamar «O cancioneiro popular americano». Se havia algumas dúvidas sobre quem iniciar a divulgação, tinha, no entanto, uma certeza: seria uma tremenda injustiça não começar pelos mestres do blues. E assim cheguei até Huddie Ledbetter, que ficou conhecido, para a história da música popular, como Leadbelly.

Autor essencial e uma das lendas musicais do princípio do século XX, Leadbelly cantou e tocou de tudo um pouco: danças populares, blues, baladas, canções espirituais, canções do trabalho e canções de prisão.

Fê-lo com uma notável expressividade artística servindo-se de uma voz poderosa e agressiva, mas profunda, e do dedilhar irrepreensivel e emocional da sua guitarra de 12 cordas.

 

Viveu e cantou uma época de conflitos sociais e raciais, combinou exemplarmente o sagrado com o profano, apoiou e pôs o seu talento ao serviço de causas sociais, criando imensas canções onde não se esqueceu dos problemas políticos e, sobretudo, dos raciais.

É, sem dúvida, um dos mitos da música popular e daquilo a que já nos habituámos a chamar de «blues rural», enriquecendo-o de forma preciosa e imaculada, tomando Blind Lemon Jefferson como sua grande fonte inspiradora e criando uma enorme e notável descendência (e devoção).

Para a mitologia muito contribuíram canções excepcionais como «New York City», «John Hardy», «Death Letter Nlues Pt.1», ou «Irene Goodnight».

Nascido em 1885, Leadbelly viria a falecer em 1949, já como autor consagrado e admirado.

Discografia essencial: Irene Goodnight.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 02:13 link do post
19 de Março de 2009

 

Pronto, já me lixaram novamente! O meu amigo Manuel pôs-me a corrente e não sei como me livrar dela. Se percebi bem a coisa, parece que, desta vez, devo escolher uma «pérola» que tenha ficado na minha memória mais profunda (fiquei a saber que tenho uma memória profunda). Uma pérola poética, entenda-se (palavras do Manuel).

Entre tanta poesia que me marcou profundamente, hoje (noutro dia a minha escolha seria, provavelmente, muito diferente) decidi-me a escolher três poemas: um escrito, outro visual e, por fim, um musical.

 

Poema escrito: (isto parece um ditado...)

 

Celebro-me e canto-me,

E aquilo que assumo tu deves assumir,

Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também.

 

Vagueio e convido a minha alma,

À vontade vagueio e inclino-me a observar a erva do Verão.

A minha língua, cada átomo do meu sangue, composto deste solo, deste ar,

Aqui nascido de pais aqui nascidos de outros pais aqui nascidos, e dos seus

            pais também,

Eu, aos trinta e sete anos, de perfeita saúde começo,

Esperando que só a morte me faça parar.

 

Suspensos os credos e as escolas,

Retiro-me por certo tempo, deles saturado mas não esquecido,

Sou o porto do bem e do mal, e seja como for falo,

Natureza sem obstáculos com a sua energia original.

 

Walt Whitman, in Song Of Myself, tradução: José Agostinho Baptista, assírio & alvim

 

Um dos mais belos poemas visuais:

 

 

O suicídio de Anju em “Sansho Dayu” de Kenji Mizoguchi.

 

Um assombroso poema musical:

 

 

“God only knows” dos Beach Boys.

 

Não passo a ninguém, não vá isto acabar no José Luís Peixoto.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:41 link do post
18 de Março de 2009

 

Martin Amis, depois das suas excelentes memórias, já publicadas pela Teorema – Experiência, 2002 -, volta a surpreender os seus leitores com Koba o Terrível. Trata-se de uma obra extremamente política, embora com uma visão muito pessoal. Amis procura aqui entender uma das lacunas centrais do pensamento do século XX: a indulgência demonstrada pelos intelectuais ocidentais perante o fenómeno do comunismo real. Entre o início e o fim do livro, muito pessoais, o autor dá-nos uma centena de páginas que são provavelmente as melhores jamais escritas sobre Stalin: Koba o Terrível, Iosif o Temível.

 

O pai de Martin, Kingsley Amis, embora mais tarde se tenha tornado tendencialmente reaccionário, foi um «lacaio do Comintern», entre 1941 e 1950. Um dos seus melhores amigos, Robert Conquest, sem dúvida um dos maiores especialistas em questões da União Soviética, foi o autor de The Great Terror (1968), um dos primeiros textos realmente demolidores sobre a U.R.S.S. A notável memória de Martin Amis não deixa de explorar essas ligações.

Stalin dizia que a morte de uma pessoa era trágica, mas a morte de um milhão não passava de mera «estatística». Koba o Terrível, ao longo de cuja escrita o autor teve que enfrentar uma morte familiar, é a refutação cabal desse aforismo de Stalin. 

 

Texto incluído na capa do livro Koba o Terrível, traduzido por Telma Costa e editado pela Teorema, em 2003.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:48 link do post
16 de Março de 2009

 

Que o Manuel me passou.

 

Trata-se de assinalar a quinta linha da página 161 de um livro que se esteja a ler (alguém me explica p’ra que é qu’isto serve?).

 

Neste momento ando a ler três livros. Optei por citar os três.

 

A dita linha da dita página de Se isto é um homem de Primo Levi reza assim:

«Viam-se ao longe os feixes de luz dos holofotes.»

 

Em Onde está a sabedoria? de Harold Bloom, pode ler-se isto:

«Subestimar Goethe é sempre um erro, a sua vingança é assombrar-nos.»

 

Quatro fotografias ocupam a página 161 de Koba o Terrível de Martin Amis. Cada uma delas tem uma legenda. Ei-las:

«Lenine disfarçado (Julho de 1917), Krupskaia, Koba entre prisões e Trotski».

 

E, desta vez, não passo a ninguém, não vá a corrente parar a O Código Da Vinci ou outra treta do género...

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:21 link do post
15 de Março de 2009

 

Hoje estou aqui para celebrar o verdadeiro acontecimento que é a edição nacional em DVD de dois dos mais extraordinários e importantes filmes do cinema mudo (quero dizer: de todo o cinema). Falo de «Os Nibelungos» (1924) - dividido em duas partes: «A morte de Siegrfried» e «A vingança de Kriemhild» - do genial Fritz Lang e de «Fausto» (1926) do não menos genial F. W. Murnau.

Em «Os Nibelungos» assistimos à oposição entre o mundo masculino de «A morte de Siegfried» e o mundo feminino de «A vingança de Kriemhild», e apercebemo-nos do extraordinário jogo de contrastes entre luz e sombra: a luminosidade da 1.ª parte «contra» o mundo sombrio e interior de «A vingança de Kriemhild».

 

Muito haverá para dizer sobre esta saga sumptuosa e deslumbrante. Fritz Lang, com uma majestade arquitectónica, começa por nos contar a história épica de um herói mítico e conclui, na 2.ª parte, com um retrato abissal e dramático de uma vida organizada sob o espectro da vingança, do conflito, da morte e das paixões extremadas.

Todo o peso da mitologia está presente neste filme, o qual não deixa, apesar disso ou por essa razão, de ser profundamente humano e de nos tocar de forma tão intensa. E mais não conto porque o essencial mesmo é ver o(s) filme(s).

O mito de Fausto está, por sua vez, presente naquele que é o último filme alemão de Murnau (uma superprodução da época) – autor, entre outros filmes memoráveis, das obras-primas «Nosferatu», «Sunrise» e «Tabu» -, o qual se serve, essencialmente, das adaptações de Goethe e Christopher Marlowe, para completar esta magnífica obra.

 

Se outras e boas razões não houvesse, só o facto de termos, finalmente, acesso a este filme - tantas vezes inacessível aos olhos que o quiseram ver – merece esta pequena celebração.

Claro que este texto só faz sentido para quem tem memória (e se serve dela) e sabe que o cinema já fez mais de 100 anos. Para os outros, espero que um feliz acaso os faça mudar a sua opinião e se dedicam a algo mais do que ver, apenas, os filmes realizados nos últimos quatro ou cinco anos (mais do que isso já será, para eles, um filme «antigo»).

 

publicado por adignidadedadiferenca às 17:33 link do post
10 de Março de 2009

 

Díptico

 Giant Steps - John Coltrane /Giant Steps - The Boo Radleys

 

 

 

 

Uma excelente ideia que o autor deste óptimo blog costuma utilizar e que - uma vez sem exemplo - me apetece roubar.

Duas obras que não se enquadram no mesmo género, mas ambas são, na minha opinião, autênticas e portentosas alucinações musicais que, no fundo, se completam mais do que à primeira vista parece.

 

 

Giant Steps/John Coltrane

 

Upon 9th And Fairchild/The Boo Radleys

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:47 link do post
08 de Março de 2009

 

Eis mais um magnífico livro que se debruça sobre as preocupações ambientais, cujo autor, Edward O. Wilson, é um dos mais reputados biólogos contemporâneos.

E. O. Wilson defende que a solução para alguns dos maiores problemas do planeta virá da união entre ciência e religião. Embora entendam o mundo de forma diferente e tenham uma visão contrária acerca do nascimento e da evolução das espécies, o autor apela para a junção destas duas forças em busca de um objectivo que deve ser de todos: viver em harmonia com a natureza, pondo de parte as suas diferenças, pouco relevantes face ao perigo que espreita o mundo real.

Numa linguagem fascinante e clara que se transforma, para os seus leitores, num autêntico farol, o biólogo descreve-nos uma cativante visita guiada por alguém que é um profundo conhecedor dos temas, rumo a uma melhor compreensão do mundo e dos seres vivos, e da relação que existe entre eles, alertando-nos para o perigo que ameaça o futuro do planeta.

A poluição, o aquecimento global ou o declínio da diversidade biológica devem ser preocupações comuns, que só o respeito mútuo poderá ultrapassar.

A obra chama-se The Creation: An Appeal to Save Life on Earth e foi publicada pela Gradiva – na colecção Ciência Aberta - em Novembro de 2007, com o título A Criação, Um Apelo para Salvar a Vida na Terra. A tradução é de Maria Adelaide Ferreira.

Para terminar, deixo-vos com um pequeno excerto do primeiro capítulo, onde o autor mostra, de forma brilhante, ao que vem.

 

 

Carta a um pastor baptista sulista: saudação

 

Caro pastor: Nunca nos encontrámos e no entanto sinto que o conheço suficientemente bem para lhe chamar amigo. Antes de mais, crescemos na mesma fé. Quando rapaz, também eu respondi ao apelo do altar; fui imerso na água baptismal. Embora já não pertença a essa fé, estou certo de que, se nos encontrássemos e falássemos em privado sobre as nossas crenças mais profundas, o faríamos num espírito de respeito mútuo e de boa vontade. Sei que partilhamos muitos dos preceitos da conduta moral. Talvez também importe o facto de sermos ambos americanos e, na medida em que tal possa ainda afectar a civilidade e as boas maneiras, sermos ambos sulistas.

Escrevo-lhe agora para lhe pedir conselho e ajuda. Claro que, ao fazê-lo, não vejo forma de evitar as diferenças fundamentais nas nossas respectivas visões do mundo. O pastor é um intérprete literal da Escritura Sagrada cristã. Rejeita a conclusão alcançada pela ciência de que a humanidade evoluiu a partir de formas inferiores de vida. Acredita que a alma de cada pessoa é imortal, fazendo deste planeta uma plataforma de transição para uma segunda vida, eterna. A salvação está assegurada para aqueles que se redimem em Cristo.

Eu sou um humanista secular. Penso que a existência é aquilo que dela fazemos enquanto indivíduos. Não existe qualquer garantia de uma vida depois da morte e o Céu e o Inferno são aquilo que criamos para nós próprios, neste planeta. Não existe nenhum outro lar. A humanidade teve origem aqui, por evolução a partir de formas inferiores de vida, ao longo de milhões de anos. E sim, vou dizê-lo claramente, os nossos antepassados eram animais parecidos com macacos. A espécie humana adaptou-se, física e mentalmente, à vida na Terra e a nenhum outro lugar. A ética é o código de conduta que partilhamos com base na razão, na lei, na honra e num sentido inato de decência, mesmo que alguns o atribuam à vontade de Deus.

 

Para si, a glória de uma divindade invisível; para mim, a glória de um universo finalmente revelado. Para si, a crença num Deus transformado em carne para salvar a humanidade; para mim, a crença no fogo de Prometeu, roubado para libertar os homens. O pastor encontrou a sua verdade absoluta; eu continuo à procura. Eu posso estar enganado, o pastor pode estar enganado. Podemos ambos estar parcialmente certos.

Será que esta diferença entre as nossas visões do mundo nos separa em todos os aspectos? Não. O pastor e eu e qualquer outro ser humano lutamos pelos mesmos imperativos de segurança, liberdade de escolha, dignidade pessoal e por uma causa em que acreditar que seja maior do que nós próprios.

Vejamos então se podemos, e se o pastor está disposto a isso, encontrar-nos no lado próximo da metafísica, de forma a lidarmos com o mundo real que partilhamos. Expresso-me assim porque o pastor tem o poder de ajudar a resolver um enorme problema, que é uma grande preocupação para mim. Espero que tenha a mesma preocupação. Sugiro que ponhamos de lado as nossas divergências de forma a salvarmos a criação. A defesa da natureza viva é um valor universal. Não resulta de nenhum dogma religioso ou ideológico, nem o promove. Ao invés, serve, sem discriminação, os interesses de toda a humanidade.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:34 link do post
07 de Março de 2009

 

Para a Ana Salomé

 

 

Once I Was (Live 1968)

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:34 link do post
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