a dignidade da diferença
31 de Outubro de 2008

 

Amedeo Modigliani

 

«Quanto mais não fosse pela sua técnica, mas também pela composição, os seus nus denunciam uma clara influência dos mestres do Renascimento italiano, de Sandro Botticelli, Ticiano e Giorgione. (...) Modigliani, que nunca frequentou uma academia de arte estatal tratava a representação pictórica do corpo nu com um olhar mais educado pela história de arte do que por uma percepção do nu de modulação académica.» Doris KrystofEis alguns exemplos eloquentes do talento do pintor italiano, assim como da sua influência pictórica.

 

 

Sandro Botticelli

 

Rapariga ruiva em camisa (1915)

  

Nu com colar (1917)

 

Ticiano

publicado por adignidadedadiferenca às 20:22 link do post
26 de Outubro de 2008

 

São, para mim, as duas melhores publicações escritas por críticos de música portugueses que se debruçam sobre a matéria pop. Mais apaixonado e, por isso, sujeito ao erro – se é que tal coisa existe num conjunto de textos naturalmente subjectivo – e a mudanças repentinas de opinião o livro do Miguel Esteves Cardoso, mais profundo e fundamentado o Provas de Contacto de João Lisboa. Ambos magnificamente enriquecidos por uma visão musical com um forte pendor literário, que conseguem tratar os discos que (muito) amam como se fossem personagens de um livro ou de um filme.

É certo que a minha preferência vai para o Provas de Contacto por muitas e boas razões. Por incluir algumas das mais extraordinárias entrevistas jamais feitas a muitos dos meus músicos preferidos, conseguindo o autor com uma dúzia de perguntas certeiras transmitir de forma concisa e preciosa o essencial do universo musical (e não só) do entrevistado. Por lá passam tantos dos meus “heróis”: John Cale, Lou Reed, Tom Waits, Caetano Veloso, Robert Wyatt, Suzanne Vega, Björk, Sonic Youth, Rickie Lee Jones, Nick Cave, David Byrne, Leonard Cohen, Marianne Faithfull, Lloyd Cole, P. J. Harvey entre outros. E se já não bastasse, João Lisboa acrescenta, ainda, numa “segunda parte” um punhado de portentosos textos críticos repletos com a imensa ironia, cultura, enquadramento estético da obra a que já nos habituou mais aquela felina tendência para agrupar um conjunto de frases de que mais ninguém se lembraria para descrever na perfeição aquilo que acabámos de escutar. Experimentem ler os explêndidos «Sim, pode-se» sobre os Velvet Underground e «Em louvor da perna de pau».

Um reparo apenas: que falta fazem (fizeram?) alguns textos e entrevistas com e sobre músicos portugueses! Estou-me a lembrar, por exemplo, daquela prosa que João Lisboa dedicou (nos anos 90) à edição em suporte digital da obra da Banda do Casaco – suponho que o No jardim da Celeste e o Também eu -, onde, com apenas dois ou três parágrafos, destruiu o mito que começaram a fazer da pré-história da música pop/rock feita em Portugal reduzindo-a àquilo que ela teve de significativo. Ou seja, nada.

 

 

Se Escrítica pop, na minha opinião, não é tão meritório, não deixa de ser magnífico e único no panorama musical português. Textos e opiniões direccionados para um contexto temporal muito restrito – entre 1980 e 1982 – acerca de uma série de bandas em que o jornalista confessa já ter mudado o seu juízo sobre algumas delas, ficam na memória essencialmente pela intensa paixão que MEC colocou no que escreveu, de uma forma extremamente cativante e original. Claro que não resisto à curiosidade de (re)avaliar as estrelas com que classifica os discos mais marcantes da época e de reparar como, mesmo sabendo que todos os discos estão sujeitos às oscilações críticas que acompanham a máquina do tempo, consigo detectar algumas falhas importantes. Como pode o Miguel Esteves Cardoso não ter reparado, já naquela altura, nos excelentes Comsat Angels, The Sound, Magazine, XTC ou Elvis Costello? Mas, na realidade, a excelência de muitos dos seus textos apaga alguns pormenores negativos mas, notoriamente, insignificantes.

Do que me vou recordar sempre é do uso que MEC faz de uma escrita pessoal e ficcionada para deslumbrar os seus habituais leitores, nomeadamente quando fala de forma sublime dos Joy Division e do inclassificável Heaven up here dos lendários Echo and The Bunnymen.

 

Echo and the Bunnymen "All my colours"

 

Joy Division "Decades"

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:52 link do post
23 de Outubro de 2008

 

 

Mais para preencher um pouco de espaço no meu blog do que por uma razão muito especial, apeteceu-me regressar ao extraordinário álbum de estreia de 2004 da nórdica Hanne Hukkelberg. Se calhar nem será bem assim, porque tenho dedicado algum do meu tempo a escutar o recente «Grass Is Singing» dos óptimos Lonely Drifter Karen e a voz da cantora Tanja Frinta lembra-me imenso a de Hukkelberg.

Tendo influenciado muito ou pouco a minha decisão, o facto é que Little things voltou a ocupar o meu imaginário.

Como, obviamente, já esperava, não dei o meu tempo por perdido. Magníficas canções construídas num laboratório pop privado, com a mistura certa de silêncio, experimentação e instinto melódico, combinada com arranjos invulgares próprios de quem possui ousadia estética, imenso talento e originalidade – o que começa a tornar-se um belíssimo hábito da música vinda do norte da Europa –, prontas a serem consumidas por um clube muito restrito e privado de admiradores. E é tão bom que assim seja.

 

 

 

 

Como aquela que nos foi oferecida pelos Mazzy Star, Hugo Largo, Cowboy Junkies iniciais ou por Tim Buckley e tantos outros, o género de música que não apetece partilhar com mais ninguém. Tivesse o disco sido assinado pela autora um par de anos mais cedo e entraria, certamente, no grupo dos «Discos que nunca mais se esquecem».

E agora resta-me ouvir o posterior e também excelente «Rykestrasse 68».

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:08 link do post
20 de Outubro de 2008

 

Dois irmãos com múltiplas personalidades só poderiam fazer música assim. Espíritos mordazes e inquietos traçados a régua e esquadro por melodias de desenho animado electrocutadas constantemente por descargas brutais de electricidade, ampliadas por uma teimosia rítmica de braço dado com harmonias de brinquedo explodindo inevitavelmente num caos sonoro com tanto de mágico como de alucinante.

Pedaços psicadélicos dos Beatles da fase “Strawberry fields forever/Penny lane” de mãos dadas com o rock típico dos anos setenta, com acento tónico nos Led Zeppelin, derrapam e desaceleram simultaneamente com a ajuda de micro-organismos minimalistas, lunáticos ou futuristas que, apoiados numa bela voz de celofane que também sabe ser neutra e possessa quando o momento assim o exige, formam um dos mais fascinantes e surpreendentes manifestos artísticos dos últimos anos.

 

 

Numa espécie de Atlântida afundada nas entranhas da Terra, ergue-se uma visão singular e soberba que reflecte para o universo musical aquilo que esperamos encontrar após o choque brutal de um cometa com o planeta: canções fragmentadas e explosivas, intercaladas com momentos de aparente tranquilidade, visitadas por sinfonias em crescendo espezinhadas por rugidos aterradores vindos do espaço. Dito de outra maneira, o céu e o inferno juntos na mesma canção, nunca sozinhos e separados.

Claro que muitas outras influências se sentem neste disco, desde a produção de estúdio à Brian Eno, passando pelos restos que Moondog deixou dos seus discos, ou, finalmente, pelo som incendiário dos Sonic Youth ou dos My Bloody Valentine. Mas, podem acreditar, o que nos oferecem os Fiery Furnaces, depois de muito bem digerido, é algo de completamente novo e personalizado que, como pode comprovar quem já os conhece de obras anteriores, vem sendo persistentemente construído desde a sua estreia.

Muito, muito bom. Venha o próximo.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:25 link do post
12 de Outubro de 2008

Esta minha preocupação recente com a Teoria da Evolução de Charles Darwin tem que ver com a publicação de um óptimo artigo na edição de ontem do semanário Expresso sobre a superficialidade com que os programas do ensino básico e do secundário  estão a tratar a teoria evolucionista e que está a ser alvo de críticas condundentes por parte de um grupo de biólogos do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa.

Reagindo, pertinentemente, contra «a ameaça que se pressente pairar sobre o ensino do evolucionismo nas escolas portuguesas, ou seja, a pretensão dos criacionistas de introduzir nas aulas de ciências o ensino da criação a par da evolução».

Uma das investigadoras do CFCUL critica, como se pode ler nas páginas do jornal, a recomendação «para evitar o estudo pormenorizado das teorias evolucionistas» e admira-se com a ausência de capítulos essenciais para compreender a história da vida terrestre nos actuais programas de ensino, com são «a origem da vida e a evolução do Homem», quando, anteriormente, «estavam contemplados e eram abordados com alguma profundidade».

Sendo um notório disparate a pretensão de ensinar o criacionismo nos mesmos termos e condições do evolucionismo, uma vez que aquele pertence ao domínio da religião e não da ciência, a verdade é que, lentamente, a ameaça pode tornar-se real mesmo que num futuro longínquo - apesar do destaque que lhe tem sido dado ultimamente pela candidadata do partido republicano a vice-presidente. Sarah Palin é uma cristã evangélica adepta do ensino do criacionismo nas escolas em vez da Teoria da Evolução (mas aqui, segundo julgo perceber, já se trata de um caso evidente de demência).

Uma curiosidade que me ocorre: O que terão os amigos do projecto «Magalhães» a dizer sobre isto?

 

Curiosa e francamente interessante é a opinião do padre jesuíta e cientista Luís Archer. Considerando que «o criacionismo é uma tolice de todo o tamanho. Os criacionistas defendem que a vida na Terra e as espécies foram criadas por Deus, tal como é relatado na Bíblia, e não que evoluíram em resultado de um processo natural. (...) É um disparate as pessoas pensarem que a Bíblia é um livro de ciência. Deus não é necessário para explicar a origem da vida e do Homem».

Para que a situação não piore, termino com uma pequena sugestão. A magnífica introdução que Janet Browne, professora de História da Ciência na Universidadede Harvard, faz à obra e ao pensamento de Charles Darwin no livro – que acaba de ser publicado no nosso país pela Gradiva - «A Origem das Espécies de Charles Darwin».

 

Esta gravura foi acrescentada hoje, 2008-10-13, porque não a consegui colocar na devida altura.

publicado por adignidadedadiferenca às 21:24 link do post
05 de Outubro de 2008

 

Para afugentar de vez a rainha do soft-jazz como música de fundo para acompanhar um cocktail ou, se quiserem, dito de outra forma, a criadora do género musical «beijinhos e abraços»: Diana Krall.

Já nem falo das cantoras de bar de hotel, porque essas não merecem figurar aqui.

 

 

 

Black Orpheus

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:54 link do post
02 de Outubro de 2008

 

 

A nota não fui eu que a criei, naturalmente.

publicado por adignidadedadiferenca às 01:20 link do post
01 de Outubro de 2008

 

A propósito do post sobre Robbie Robertson, aqui fica o contacto directo com o mito.

 

THE BASEMENT TAPES

 

 

 

 

Please Mrs. Henry

 

You ain't goin' nowhere

 

 

MUSIC FROM BIG PINK

 

 

The weight

 

Long black veil

 

The weight, «The last waltz» de Martin Scorsese

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:47 link do post
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