a dignidade da diferença
26 de Agosto de 2008

 

Nuno Crato, célebre divulgador científico e matemático, professor de matemática e de estatística no ISEG, pró-reitor da UTL , para além de coordenador científico do centro de investigação Cemapre, foi premiado em 2003 com o primeiro lugar no concurso Public Awareness of Mathematics da Sociedade Europeia de Matemática e, mais recentemente – no último mês de Março – com um European Science Award (uff!). *

Mas o destaque que lhe dou neste espaço é motivado pela publicação pela Gradiva de dois belíssimos livros que assinou em 2007 e 2008, Passeio aleatório e A matemática das coisas, respectivamente.

Numa escrita clara e, ao mesmo tempo, transparente e certeiramente pedagógica, que revela, com marcante nitidez, um dom cada vez mais raro: o da facilidade e clareza de expressão; o autor transporta-nos, em Passeio aleatório, no seu jeito simples e convincente, para um mundo diferente cheio de referências e curiosidades científicas.

 

No livro A matemática das coisas, conta uma série de histórias matemáticas num tom coloquial e extremamente sedutor. Como se estivesse a participar numa conversa entre amigos sobre as coisas mais triviais que se passam no dia-a-dia. E o resultado pretendido é, claramente, conseguido.

Depois de percorridas todas as páginas dos dois livros, ficamos com a certeza de ter atravessado um dos caminhos mais originais e criativos sobre – atrevo-me a citar o autor - «tópicos tão diversos como os raios laser, os espelhos de Arquimedes, as luzes estranhas das discotecas ou a origem do clipe, as obras de Picasso, as transacções bancárias via internet, o número de portas das casas ou o papel A4».

Dois livros que, versando sobre temas complexos, se devoram com a maior das facilidades.

 

* Os dados sobre o autor foram retirados do livro «A matemática das coisas»

23 de Agosto de 2008

900 - Paolo Conte (1992) 

 

 

Em 1992, Paolo Conte regressa com «900», um álbum onde volta a tomar as rédeas e a assumir a direcção musical em versão panorâmica. Escreve as letras, assina a música, a orquestração e é o responsável pela direcção artística. 

 

Se o melhor Conte andava um pouco desaparecido, ele regressa neste álbum em todo o seu esplendor. Uma voz com sabor a whisky, etilizada e pedrada, inventando um novo conceito para designar o «crooner» perfeito. E depois, para acompanhar a bebida, em vez do gelo, Conte trouxe uma big band de jazz, clássica, cosmopolita, com a alma enterrada ora no inferno, ora nos nossos sonhos mais húmidos e cheios de fantasia. O kitsch de braço dado com a broadway, Nova Iorque em Itália narrada pela visão dos olhos de um poeta que se avista na linha do horizonte de uma praia distante na hora do crepúsculo.

 

 

 

E o resultado é uma música feita de sobressaltos provocados pela solidão de um piano - acentuado, aqui e ali, pelo desespero das notas de um «bandoneon» -, ou da luxúria de uma espantosa coordenação orquestral, onde os instrumentos só aparecem quando se tornam essenciais para sublinhar a importância das palavras. E como são belas as palavras de Paolo Conte neste portento sonoro e lírico. Palavras sussurradas, soletradas, choradas e doridas, num dos maiores exemplos do amor que um homem sente pelas mulheres.

 

Se o disco é, quase todo, da estirpe dos clássicos absolutos, quatro canções estão prontas a ajoelhar o mais incrédulo: «Gong-oh» é a evocação inesperada do brilho majestoso de «In a Persian Market» de Ketèlbey, mas num ritmo muito mais alucinante; «I giardini pensili hanno fatto il loro tempo», reinventa-se construída numa espantosa lentidão que deixa marcas profundas e sombrias à primeira audição; «Chiamami adesso» é tudo isso que estão a pensar. É música de papelão, kitsch, melodramática e convencional, mas é também um exemplo superlativo de uma canção sublime que, aparentemente, tem tudo contra. E, por fim, resta-me falar da absoluta solidão da patética e assombrosa «Do do».

 

Acabei de dizer resta-me falar, mas já não o consigo fazer de forma articulada. Quando Paolo Conte nos magoa, completamente perdido, com o «da da da da da da» à deriva, eu já não estou aqui. E, então, para quê continuar com a crítica? Neste momento, não vos consigo falar nem vocês me conseguem ouvir.

 

 

 

 

   

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:26 link do post
22 de Agosto de 2008

 

Nada, de Carmen Laforet (1945)

 

 

 

Com os devidos e merecedores agradecimentos à autora deste blog – simples, mas muito belo -, que (me) revelou este magnífico livro que eu desconhecia, aproveito o pequeno espaço que me pertence para alinhavar meia dúzia de palavras e destacar devidamente o romance de estreia da escritora catalã Carmen Laforet (falecida em 2004), vencedor do Prémio Nadal.

 

 

 

 

Publicado em 1945, durante o franquismo, o livro impressiona sobretudo pela sua linguagem bastante acessível, mas particularmente incisiva, que retrata de forma exemplar e, simultaneamente, poética e cruel, um país esfomeado, sufocante, silencioso e desamparado, onde os sonhos, as esperanças, o orgulho, as desilusões e as transformações que um grupo de adolescentes vai sofrendo na passagem para a idade adulta nos emociona e cativa de forma inabalável, fazendo-nos, tantas vezes estremecer perante a exaltação e o gelo que a autora serve em tom obstinado e definitivo.

Um romance admirável, recentemente editado pela Cavalo de Ferro, com tradução - do castelhano - de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.

publicado por adignidadedadiferenca às 00:12 link do post
19 de Agosto de 2008

 

Pode-se preferir a fase das obras-primas da Capitol (ou da chamada «dor de corno» após a separação de Ava Gardner) - como é o meu caso. Acredito também que haja quem se apaixone mais facilmente por outra obra-prima da bossa nova «Getz/Gilberto» - como volta a acontecer comigo. Mas um dos discos mais extraordinários do século XX é, indiscutivelmente, a gravação da reunião de Frank Sinatra com Jobim em 1967, sob o testemunho, arranjos orquestrais e direcção musical do alemão Claus Ogerman. A síntese perfeita - impossível de imaginar - do diálogo entre o minimalismo de Jobim e a «golden voice» de Sinatra, soberbamente manipulado por Ogerman, que conseguiu transformar aquele confronto num imenso sonho musical.

 

Pois bem, o disco acaba de sair no Público de hoje, na colecção que o jornal diário dedica ao cantor americano. Um deleite para os ouvidos e uma autêntica fantasia para os sentidos.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:50 link do post
18 de Agosto de 2008

Para quê? Vasto e terrível ponto de interrogação, que agarra a crítica pela gola do casaco desde o primeiro passo que pretenda dar no seu primeiro capítulo.

O artista começa por censurar à crítica o facto de nada poder ensinar ao burguês, que não quer pintar nem rimar – nem à arte, já que foi das suas entranhas que a crítica saiu.

E, contudo, quantos artistas deste tempo só a ela devem a sua pobre nomeada! Será talvez essa a verdadeira censura a fazer-lhe.

Vimos como um Gavarni representou um pintor curvado sobre a sua tela e, atrás dele, um cavalheiro, grave, seco, hirto e engravatado de branco, tendo na mão o seu último folhetim. «Se a arte é nobre, a crítica é santa.» - «Quem disse isso?» - «A crítica!» Se ao artista cabe com tanta facilidade o bom papel, é porque o crítico é sem dúvida um crítico como há tantos.

Em matéria de meios e processos – das obras em si mesmas o público e o artista nada têm a aprender. Essas coisas aprendem-se no atelier, e o público só se preocupa com o resultado.

 

Creio sinceramente que a melhor crítica é a crítica divertida e poética; não esta, fria e algébrica que, a pretexto de explicar tudo, não tem ódio nem amor, e que voluntariamente se despoja de qualquer espécie de temperamento; mas sim – uma vez que um belo quadro é a natureza reflectida por um artista – aquela que consistirá nesse quadro reflectido por um espírito inteligente e sensível. Assim, a melhor recensão de um quadro poderá ser um soneto ou uma elegia.

Mas este género de crítica destina-se às colectâneas de poesia e aos leitores poéticos. Quanto à crítica propriamente dita, espero que os filósofos compreendam o que vou dizer: para ser justa, isto é, para ter a sua razão de ser, a crítica deve ser parcial, apaixonada, política, quero dizer, feita de um ponto de vista exclusivo, mas do ponto de vista que abre mais horizontes.

Exaltar a linha em detrimento de cor, ou a cor à custa da linha, é, sem dúvida, um ponto de vista; mas não é amplo nem justo, e denota uma grande ignorância dos destinos individuais.

Ignora-se em que dose a natureza misturou em cada espírito o gosto pela linha e o gosto pela cor, e através de que misteriosos processos ela opera tal fusão, cujo resultado é o quadro.

Assim, um ponto de vista mais amplo será o individualismo bem entendido: determinar ao artista a ingenuidade e a expressão sincera do seu temperamento, auxiliada por todos os meios que lhe são concedidos pelo seu ofício. Quem não tem temperamento não é digno de fazer quadros, e – como estamos cansados dos imitadores, e sobretudo dos eclécticos – deve entrar como operário ao serviço de um pintor com temperamento. É o que demonstrarei num dos últimos capítulos.

 

Agora munido de um critério seguro, critério esse colhido na natureza, o crítico deve cumprir com paixão o seu dever; porque, por ser crítico, nem por isso é menos homem, e a paixão aproxima os temperamentos similares e ergue a razão a novas alturas.

Disse algures Stendhal: «O pintor não é mais que moral construída!» Quer se entenda esta palavra moral num sentido mais ou menos liberal, pode dizer-se o mesmo de todas as artes. Como elas são sempre o belo expresso pelo sentimento, pela paixão e pela fantasia de cada um, isto é, a variedade na unidade, ou as faces diversas do absoluto – a cada instante a crítica atinge a metafísica.

Visto que cada século, cada povo teve a expressão da sua beleza e da sua moral, e se quisermos entender por romantismo a expressão mais recente e mais moderna da beleza, para o crítico sensato e apaixonado o grande artista será, por conseguinte, aquele que juntar à condição acima exigida a ingenuidade – tanto romantismo quanto possível.

 

Charles Baudelaire, in «A Invenção Da Modernidade (Sobre Arte, Literatura e Música)». Tradução de Pedro Tamen, Colecção Clássicos Relógio D’Água.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:53 link do post
17 de Agosto de 2008

 

Poème électronique - Edgard Varèse (1958)

 

E como este é, essencialmente, um blog sobre música, aqui fica um pequeno documentário sobre a colaboração de Le Corbusier com o compositor Edgard Varèse, o célebre «Poème électronique» que Varèse apresentou no Pavilhão Phillips - concebido pelo arquitecto - na Exposição Mundial de Bruxelas em 1958.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:40 link do post
17 de Agosto de 2008

 

 

A propósito da exposição que o Museu Colecção Berardo trouxe de 19 de Maio a 17 de Agosto (foi hoje, portanto, o último dia) sobre Le Corbusier, por muitos considerado um dos mais importantes arquitectos do século XX, deixo aqui uma pequena recordação de obras da sua autoria.

Le Corbusier (de seu verdadeiro nome Charles-Édouard Jeanneret-Gris) nasceu em 1887 em La Chaux-de-Fonds, na Suíça, vindo a naturalizar-se, mais tarde, francês.Foi arquitecto, pintor, designer, escritor urbanista e coleccionador. Muito resumidamente, merecem destaque duas ou três coisas: Estuda arte aplicada em La Chaux-de-Fonds, onde constrói as suas primeiras obras, completando a sua formação viajando pela Europa.

 

Entusiasma-se com as construções e as paisagens mediterrâneas, funda, no ano de 1918, em Paris, o «purismo» com Amédée Ozefant – onde desaprova o cubismo e opta pelo rigoroso desenho do objecto. As suas ideias sobre arquitectura e urbanismo modernos são divulgadas na revista «L’Esprit Nouveau». Faz imensos estudos urbanísticos pelos quatro cantos do mundo (desde Moscovo até à América do Sul, não esquecendo o norte de África e a Índia) e é, ainda, participante activo nos Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna. Faleceu em 1965.

 

A exposição que se viu no Centro Cultural de Belém é do Vitra Design Museum, em colaboração com o Royal Institute of British Architects e o Netherlands Architecture Institute. Intitulada «Arte da Arquitectura», a exposição dividiu-se em três módulos autónomos: «Contextos», «Privacidade e publicidade» e «Arte construída» - testemunhando, como complemento, o encontro do fotógrafo Lucien Hervé com Le Corbusier -, que, de forma extremamente feliz, sintetizam as várias caras desta extraordinária personalidade.

 

 

15 de Agosto de 2008

 

Faun Fables

 

Rectas e semi-rectas de folk contemporânea, arestas limadas por teatro pagão, música tribal, dramática e transparente. Tangentes à música do leste da europa aquecida pela etnia cigana e trespassada pela loucura visionária de uns quantos aventureiros das décadas de sessenta e setenta. Pelo menos, Tom Waits, Zappa e Beefheart (será, ou já estarei a ouvir vozes?). O regresso dos Hugo Largo e dos Jefferson Airplane devidamente triturados pela música erudita e de cabaret. Adições, subtrações. multiplicações e divisões feitas, o que resta?

 

Música inclassificável, diferente de tudo o que se ouve hoje em dia - e nem cheguei a falar da mise-en-scène espectral de Nico, nem do gelo trazido de «I want to see the bright lights tonight» - e, para a história, duas obras-primas e, para já, uma canção inadjectivável: Taki Pejzaz

 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:26 link do post
15 de Agosto de 2008

 

Based on a true story - Fat Freddys Drop (2005)

 

 

 

A globalização sob o ponto de vista musical no que ela tem de mais positivo. A proximidade territorial entre os vários continentes. No caso em apreço, por força da visão que uma banda de jazz de Wellington tem do reggae, assistimos à irmandade entre a Jamaica e a Nova Zelãndia. No fundo, breves descrições de um conceito musical que merece ficar registado por isto: Bob Marley, Burning Spear, Ras Michael e outros nomes clássicos do reggae brilham de novo, revistos pela luz do século XXI, graças a um septeto que aborda uma música historicamente simples de uma forma magistral através da leitura contemporânea de uma língua morta, servindo-se de um supremo arrojo formal e orquestral que acompanha, com rigor e de forma ensaiada ou em estilo de «jam session», o canto livre de uma voz premiada com uma estupenda espessura dramática, temperada aqui e ali por pedaços de música electrónica.

Um disco fabuloso, moderno e possuído por uma dinâmica instrumental que, de tão desenvolta e carregada de fantasia, sacia os nossos sentidos com um prazer sublime feito de diversidade, virtuosismo e colectivismo.

Um verdadeiro banquete e aquilo a que já podemos chamar um clássico recente.

 

 

Roady

Wandering eye

12 de Agosto de 2008

 

Complete Billie Holiday-Lester Young, 1937-1946 (editado em 1999 sob a responsabilidade de Alain Gerber)

 

«Os cerca de 90 minutos que Billie e Lester deixaram gravados são um marco da música ocidental, de Bach a Mozart e Ornette»

 

Will Friedwald in «Jazz Singing»

 

 

Billie Holiday e Lester Young, falecidos, respectivamente, a 17 de Julho de 1959 e a 15 de Março do mesmo ano, encontraram-se pela primeira vez em estúdio a 25 de Janeiro de 1937.

Esta caixa de 3 cds reúne o mais apetecível das gravações que os juntaram nas décadas de 30 e 40 do século passado. Billie e Lester acompanharam-se um ao outro numa vida de excessos, não conseguindo evitar um destino previsivelmente trágico. Aquilo a que se vulgarizou chamar um caso típico de criadores geniais sobrevivendo numa situação de miséria que, de resto, estava em perfeita sintonia com as condições sociais em que a maioria dos músicos de jazz daquela época nasceram e cresceram.

Se a caixa é toda recomendável, a matriz essencial do namoro musical entre a voz de Billie Holiday e o saxofone tenor de Lester Young concentra-se no intervalo compreendido entre os anos de 1937 e de 1942.

É este período que vê nascer a grande maioria das canções de antologia e as que provocaram as paixões mais arrebatadoras. Um momento de plenitude musical raramente atingido por outros (grandes) músicos de jazz!

Como esquecer a marca indelével da individualidade de cada um ou a comunhão corporal e espiritual que fazia dos intérpretes dois irmãos/amantes artísticamente inseparáveis?

De tudo o que a dupla assinou, apetece-me recordar a riqueza da substância musical e interpretativa devidamente comprovada pelas mudanças de tempo, pequenas variações melódicas ou recriações do fraseado musical conseguidas no espaço limitado de uma canção, condicionado pelas restrições técnicas da época. Apetece-me falar de um conjunto fulgurante de canções, por onde corre um brilho intenso, narrando relações sofridas e amores doridos que se deseja guardar num estojo pessoal para, mais tarde, transmitir secretamente apenas a mais um dois dos pobres mortais de adoramos intimamente. E não é tudo.

Não saio daqui sem testemunhar que Billie e Lester Young foram gémeos tanto na originalidade da arte que ousaram criar como nos problemas que enfrentaram durante o seu ciclo de vida. Problemas que provocaram, como seria inevitável, um final de carreira menos merecedor de elogios.

Se há quem prefira esquecer os últimos anos de actividade musical do duo, a verdade é que mesmo aí, para mim, é difícil ficar indiferente à emoção que emana de cada uma das suas composições, mesmo que o brilho se desvaneça ou o fulgor pareça ausente.

E antes que a luz se apague, volto ao período de oiro para vincar que é impossível ficar sereno perante a audição de prodígios como «All of me», «Back in your own backyard», «I can’t get started», «Let´s do it», «The man I love» e tantas, tantas outras cuja referência integral se tornaria num verdadeiro calvário.

Um dos marcos indiscutíveis da música do século XX, onde um punhado de canções absolutamente viciantes e inquietantes atiçam e ferem os nossos orgãos vitais de forma inabalável durante breves mas longos momentos, porque nunca mais nos largam, onde o que mais impressiona é aquela sensação de querermos ser cúmplices de dois músicos que parecem tocar apenas para si.

 

 

 

I can't get started

publicado por adignidadedadiferenca às 00:02 link do post
11 de Agosto de 2008

 

Grande interior W11 (segundo Watteau) de Lucian Freud, 1983 e Pierrot Content de Jean Antoine Watteau, 1712

 

 

 

Entre 1981 e 1983, Freud trabalhou nesta obra baseando-se na pintura mais antiga de Watteau, intitulada Pierrot Content.

Enquanto o quadro de Watteau nos mostra um Pierrot sentado entre duas mulheres, com um ar satisfeito, o trabalho de Lucian Freud , numa demonstração inequívoca de originalidade e personalidade, liberta-se da composição original e do conceito que dela se retira. No lugar da graciosidade e da delicadeza que Watteau emprestou às suas figuras, o genial pintor nascido em Berlim desmonta o drama convencional – a cena de sedução e de ciúme - e rejeita qualquer partícula de romantismo existente na obra onde se inspirou, caracterizando as suas personagens num tom desprovido de graça, sem qualquer elegância, tornando-nos espectadores desconfortáveis perante esta aparente desarticulação.

Contudo, tudo está no sítio certo. A forma desajeitada como os modelos de Freud procuram manter uma pose combina na perfeição com a rudeza do cenário – um quarto exíguo que explica a sensação de aperto que nos transmitem aquelas personagens sentadas na cama de ferro.

Um exemplo formidável do realismo de Freud. Se ambas as pinturas «falam» sobre teatro, a de Watteau mostra a sua crença enquanto a de Freud revela toda a sua desconfiança, ou, dito de outro modo, este último liberta, de forma expressiva, os seus modelos dos estereótipos ligeiramente fantasiados do pintor oitocentista.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:28 link do post
10 de Agosto de 2008

 

Dói um bocado assistir ao estado razoavelmente abandonado em que se encontra o Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, célebre jardim científico que foi projectado em meados do século XIX e, segunda reza a história, começado a plantar em 1873 - por iniciativa dos professores Conde de Ficalho e Andrade Corvo -, vindo a ser inaugurado durante o ano de 1878.

 

Se é verdade que mantém uma enorme diversidade de plantas oriundas dos quatro cantos do mundo - basta consultar o pequeno folheto que é fornecido aos visitantes para se ficar a saber da notável variedade de palmeiras de todos os continentes, da preservação das cicadáceas, da riqueza em espécies tropicais originárias da Austrália, Nova Zelândia, China, Japão e América do Sul, sem esquecer as particularidades dos microclimas criados neste Jardim -, o desmazelo provocado pela falta de condições financeiras para a sua manutenção regular, cria um certo desconforto em quem por lá passa, embora deva reconhecer que, apesar de tudo isso, não deixamos de passar uma tarde (como foi o meu caso) agradável e de sentir algum fascínio pelo tom declaradamente romântico de finais do século XIX que se vive naquele espaço.

 

Resta aguardar pela aprovação de novos projectos para a sua recuperação, porque, evidentemente, seria uma pena perder-se um espaço tão significativo e um dos ex-libris da capital.

Vale a pena também visitar, dentro do jardim, o Lagartagis, a estufa aberta ao público e destinada à criação de borboletas comuns da fauna europeia nas diversas fases do seu ciclo de vida.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:00 link do post
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