a dignidade da diferença
19 de Julho de 2008

 

 

 

 

 

Tive esta semana a possibilidade de, por motivos inesperados, passar uma vista de olhos pela revista Visão. Ao ser chamado à atenção pela capa da revista para o exclusivo «Enfrentámos o mau feitio de Lou Reed» (bela campanha publicitária, sem dúvida) aproveitei, naturalmente,  para ler a dita.

Queixa-se, então, o jornalista (que mais parece um estagiário) do mau feitio do músico nova-iorquino. Conta, com alguma graça, o conhecimento que já tinha das dificuldades que o músico costuma criar aos jornalistas e as peripécias que teve de ultrapassar para conseguir falar com ele. Até aqui nada a apontar. O pior veio a seguir.

O jornalista da Visão começa por perguntar «Quando está em palco, a tocar as canções de Berlin, sente-se transportado sempre para um certo estado de espírito, ligado ao ambiente do disco (...) e ao momento em que o gravou?» Reed responde telegraficamente e a resposta não satisfaz o entrevistador. Insiste nos mesmo tema e obtém uma resposta um pouco mais desenvolvida que continua a não satisfazer. Faz a 3.ª pergunta (não vão acreditar, mas é uma variante das duas primeiras) e recebe o primeiro KO: «Está a fazer-me a mesma pergunta dez vezes! Ok? Acho que já chega. Não vai conseguir outra resposta que signifique alguma coisa para si. (...)»

Só o pobre coitado é que ainda não tinha percebido que já estava arrumado. Após mais uma série de perguntas banalíssimas – então aquela do «(...) actualmente sente-se mais um homem do rock’n’roll ou da escrita, da literatura?» o Lou Reed já deve ter ouvido um milhão de vezes, pelo menos – onde teve o azar de informar que o Leonard Cohen ia tocar na mesma noite, o que irritou ainda mais o entrevistado, Pedro Dias de Almeida (nome do jornalista) entra directamente para o anedotário nacional deste ano com a pergunta mais idiota que já fizeram ao autor de Berlin. «Aos 66 anos, como é um dia perfeito (sim, é isso, a velha canção “Just a perfect day...”), para si?» – a canção nem se chama exactamente assim, mas eu também já não esperava melhor -. E Lou Reed aproveita (quem não o faria?) para desfazer o jornalista em cacos, humilhando-o sem apelo nem agravo. «Oh, por favor...  Não me faça perguntas dessas. (...) De certeza que consegue fazer melhor... Mas se quiser desperdiçar o seu tempo, esteja à vontade...» KO absoluto antes de terminar o 1.º round e o jornalista vai-se arrastando, lamentavelmente, por perguntas intragáveis do género «tem referências da música portuguesa e da literatura? Blá, blá, blá» e outras mais ou menos aceitáveis mas totalmente desgarradas e sem qualquer tipo de ligação aparente.

No final, Pedro Dias de Almeida desabafa: «Pensamento positivo, e uma certeza: em palco ele é muito melhor do que no meu telemóvel.

Lou Reed deve ter pensado qualquer coisa do género: Espero que o público presente no meu concerto seja bem melhor do que este tipo que me apareceu hoje.

E depois queixam-se do seu mau feitio!

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:01 link do post
19 de Julho de 2008

 

 

 

A propósito do que um dia escrevi aqui, e que passo a transcrever em relação ao que disse sobre esta canção:

 

«E depois há Betty Caine. Sim, Deus parece existir. Pelo menos durante aqueles três minutos e meio. «Betty Caine» é a mais espantosa, dilacerante, sedutora e ultra-romântica das canções. Explode no nosso coração entre dois versos e, por mais de uma vez, quase nos faz tocar o céu.

Abandona-nos, sem rede, nas teclas solitárias de um piano rumo a uma estratos-férica secção de cordas para, literalmente, nos deixar comover por não estarmos preparados para aceitar o deslumbramento da (des)harmonia quase sobrenatural

que esta música nos oferece.»

publicado por adignidadedadiferenca às 00:51 link do post
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