a dignidade da diferença
31 de Julho de 2008

 

The Mandé Variations

 

 

 

Se associamos imediatamente o título do disco «The Mandé Variations» às Variações Goldberg interpretadas por Glenn Gould, principalmente pela destreza técnica e pelo virtuosismo ímpar e primoroso, comparáveis às vertiginosas mudanças de ritmo e de andamento do genial músico canadiano, ao escutarmos o belíssimo som da Kora, não é bem disso que apetece falar.

Apetece falar, isso sim, das extraordinárias e silenciosas paisagens sonoras que emanam deste álbum, da intensidade que se sente ao ouvir o músico em diálogo constante com o seu intrumento, ou da incrível abstracção e improvisação sonoras exploradas até ao seu mais ínfimo detalhe.

Apetece, tantas e tantas vezes, exaltar a comovente homenagem ao mestre Ali Farka Touré, a inventividade da cultura africana e, acima de tudo, a impossível pureza e peso de um continente que julgávamos não ser possível ouvir nos dias de hoje. Graças ao génio e às mãos de um homem só e à sonoridade imaculada de um instrumento sublime.

Afinal, ainda é possível ver o tempo a passar devagar. Directamente para a lista do que 2008 nos ofereceu de memorável, naturalmente.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:40 link do post
30 de Julho de 2008

Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust

 

 

Agora que estou quase a terminar o segundo volume de «O homem sem qualidades» do escritor austríaco Robert Musil, um dos nomes do quarteto revolucionário na prosa do início do século XX (servindo-me das palavras de João Barrento) – formado por Marcel Proust, James Joyce, Franz Kafka e, obviamente, Musil -, chegou o momento de recordar neste espaço aquele que considero o mais extraordinário romance escrito durante o século passado: os sete volumes que dão origem a «Em busca do tempo perdido», esse fresco monumental da sociedade daquela época.

Narrado por Marcel (nome que nos é divulgado, quase se poderia dizer, de forma acintosa apenas por duas vezes em toda a narrativa), «Em busca do tempo perdido» descreve as histórias do amor obsessivo de Charles Swann por Odette, com quem acaba por casar, da filha Gilberte (a primeira paixão de Marcel) por Saint-Loup, amigo do narrador, e, finalmente, da inadjectivável Albertine, que mantém com Marcel uma longa, tormentosa e complexa relação que acaba em fuga e morte dela. 

Tudo, mas mesmo tudo, é prodigioso neste romance, desde a forma intensa como autor revela o seu talento no traço impressionista e nas tonalidades que imprime ao sofrimento e aos ciúmes que caracterizam os vários protagonistas, atingindo o seu esplendor descritivo na composição da relação irónica, trágica e obsessiva que Marcel vive com a amada Albertine. Nunca uma personagem passou por tanta dor, ciúme, erotismo e traição em busca daquilo que considera o tempo perdido de Albertine.

 

Proust constrói a história com um dos mais ricos e variados punhados de personagens de que há memória: cómicos, irónicos, extremamente vivos, ciumentos, obsessivos e evasivos que são o espelho fiel da sociedade francesa de então – desde finais do século XIX até aos anos vinte do século seguinte.

Os recursos utilizados pelo célebre escritor brilham intensamente através da perfeita composição e do destino «certo» dado às personalidades que fazem parte da história e que são tratados com tanta humanidade , sem esquecer os grandes temas que atravessam todo o romance. Nele se fala da amizade, da estética e da beleza, do anti-semitismo, do mar, do tempo, da memória e do ciúme (estes três são, sem dúvida, os mais importantes), da literatura, da mentira, do talento do narrrador como romancista, do desejo, da homossexualidade, do sado-masoquismo e dos bordéis. Ter-me-ei esquecido de algum? Todos eles o escritor vai interligando de forma sublime, absolutamente profunda, viciante, inventiva e genial, atingindo a sua expressão máxima no modo como, tantas vezes, nos «diverte» a atormentar e a ferir os seus protagonistas - como  se subentende, por exemplo, na quase maníaca investigação que Marcel faz das paixões lésbicas de Albertine, após a sua morte -, e, ao mesmo tempo, as trata de maneira tão divina.

Mas são apenas exemplos, nada mais do que isso, de um universo criado com uma atitude tão ousada e perturbadora que significa, para mim, o mais perfeito e extremo relato das possibilidades que existem numa relação vivida entre seres humanos e o paradigma do romance clássico. E não me estou a esquecer, como poderão pensar, de «Ulysses» de James Joyce. Mas desse outro romance que revolucionou a escrita do século XX, falarei numa próxima oportunidade.

 

 

28 de Julho de 2008

 

Era para falar deste disco sublime (a thousand shark's teeth) mais tarde, mas chegou a hora. E devo já dizer-vos que começa a posicionar-se, muito seriamente, como o mais sério candidato a álbum do ano. É o género de música que enquanto se escuta, desejamos não ser incomodados por mais ninguém.

Um encontro deslumbrante entre a fé inicial de PJ Harvey no rock, com os mais puríssimos Hugo Largo - posso estar a fantasiar, mas juro que a voz de Mimi Goese passa interminavelmente por aqui -, a angústia e a explosão em pequenos cataclismos do melhor Jeff Buckley e uma mini(?)-orquestra que tanto parece desintegrar-se em estilhaços como, quase em simultâneo, volta a reunir as notas (aparentemente) dispersas e compõe as mais memoráveis melodias que nos calharam em sorte nestes últimos meses.

 

 

Shara Worden confirma ao segundo passo a magnífica estreia e assina, muito provavelmente (se novo milagre não estiver para acontecer), o mais avassalador, pessoalíssimo e poético álbum de 2008. Quando ouço, principalmente, "Inside a boy", "Ice & the storm" e "From the top of the world", completamente viciado e a sentir o seu sangue a correr-me nas veias, já nem sei o que fazer com estas canções.

Experimentem tirar-me este disco, se forem capazes.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:49 link do post
27 de Julho de 2008

 

O assunto não é vital para as nossas vidas nem precisamos dele como do pão para a boca, mas depois da triste figura que a revista Visão fez na entrevista com Lou Reed, agora é a vez do semanário Expresso dar um pontapé na música portuguesa.

Na página 16 do primeiro caderno do jornal, no espaço dedicado ao Exame Prévio, surge uma pequena coluna intitulada «De alto a baixo» e que vou transcrever na íntegra:

 

 

Um álbum de Sérgio Godinho

“Um disco verdadeiramente indispensável para ouvir em tempo de férias (ou não)”.Pedro Pyrrait escrevia sobre o segundo álbum de Sérgio Godinho, ‘Os sobreviventes’. (!!!) O primeiro ‘Pré-histórias’, (!!!) “foi retirado da venda pública”. O crítico chamava “a maior atenção para as três mais belas composições deste álbum: “Barnabé”, “Pode alguém ser quem não é” e “A noite passada”, onde a pungente interpretação vocal e a viola dolente transportam as palavras de Sérgio do Douro ao Tejo (‘a noite passada acordei com o teu beijo, descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo’)”. (a isto só posso chamar crítica musical embalsamada!) Nada saiu.

 

 

E ainda bem. Até hoje é consensual dizer-se que Cantigas do Maio de José Afonso, Mudam-se os tempos mudam-se as vontades de José Mário Branco e Os sobreviventes de Sérgio Godinho (todos gravados em 1971, embora o último só tenha saído no ano seguinte) foram os álbuns fundadores de uma nova e exigente forma de abordar a música popular portuguesa, dando tanta importância à qualidade dos textos como à substância musical. Há, até, quem, ainda hoje, persista no equívoco de lhes querer juntar o disco de Adriano Correia de Oliveira Gente de aqui e de agora, mas esse só com muito boa vontade ficará registado no que a música portuguesa nos ofereceu de memorável.

Ficámos agora a saber que, afinal, nos andaram a trocar as voltas todas. Afinal SG já se tinha adiantado aos colegas e assinado, nos seus antípodas, Pré-histórias (em que ano, já agora, terá sido editado?) revelando, mais tarde, uma estranha e bizarra opção pela reedição do disco quase imediatamente a seguir a Os sobreviventes.

Ainda por cima o jornal está cheio de gente competente na área da crítica musical. O que eles devem ter gozado...

De repente, não sei porquê, apeteceu-me ouvir o Barnabé.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:59 link do post
26 de Julho de 2008

«Quando desaparece um artista é como se o arco-íris perdesse de repente uma cor. Quando a voz de um cantor desaparece, é como se faltasse de repente um instrumento com um papel importante num concerto. A voz quente, rouca e desesperada de Jacques Brel era inseparável das canções tristes, brutais, provocantes em que tomava o corpo. Voz que também sabia ser suave e meiga quando fazia emergir a corrente de uma ternura, profundamente oculta, tal como um rio volta à superfície depois de ter andado pelas entranhas da terra.

Brel amava com demasiado amor e amizade, o amor, as mulheres e os homens, e muito cedo se sentiu desiludido e ferido ao ver o que as mulheres e os homens (e ele mesmo) eram capazes de fazer da amizade e do amor. A sua irreprimível necessidade de solidão não era senão uma imensa ternura recalcada em virtude de tanta desilusão, um ímpeto de um coração imenso refreado pela experiência e pela razão. Vale mais rir e, até, troçar, para não chorar. (...) Quem se ficava pelas aparências julgava que Brel cantava a infelicidade de ser belga, ou que os seus alvos eram as beatas, as flamengas, os burgueses.

É claro que todos precisamos de dar corpo aos nossos ódios, mas o que Brel denunciou era, no fundo, a infelicidade de ser homem, a hipocrisia, a estupidez e a própria vida que faz de nós aquilo que nunca acreditámos que podíamos vir a ser, aquilo que jurámos a nós próprios que nunca seríamos: gordos, feios, carecas, cobardes – e velhos. »

 

Dominique Jamet (L’Aurore), de Jacques Brel, antologia poética. Assírio & Alvim

 

 

Brel foi crescendo, com o tempo, na arte da composição e interpretação, criando um universo musical (e teatral) de uma complexidade e riqueza cada vez maior e atingindo, na minha opinião, com «Ces Gens-Là», ou seja por volta de 1966, o domínio absoluto da sua linguagem em termos formais e de substância musical, numa empatia mais do que perfeita com François Rauber e com a exuberância e o requinte da sua esplêndida orquestra.

Numa frase: universal e intemporal, para ouvir vezes sem conta e o género de música que deve funcionar sempre como terapia para os momentos mais difíceis.

 ces gens-là

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25 de Julho de 2008

 

Calma! (Cool it) - Bjorn Lomborg

 

 

 

Bjorn Lomborg é professor na Copenhagen Business School e publicou vários artigos em diversos orgãos da comunicação social prestigiados: The New York Times, The Wall Street Journal e The Economist, entre outros.

Acaba de sair no nossos país, em edição de «A Estrela Polar» o seu último e provocador livro intitulado «Cool it», Calma!. Se a razão principal para justificar tanta publicidade está directamente ligada ao desafio que faz a muitos dos alarmismos que Al Gore levanta sobre o aquecimento global, julgo que o livro merece uma leitura atenta e uma reflexão muito mais profunda. Porque, num momento tão importante das nossas vidas em que está em jogo uma série de atitudes e de resoluções que podem causar danos irreparáveis ao futuro da humanidade,  é essencial conhecer as mais diversificadas opiniões sobre o que deve ser prioritário para a resolução dos problemas que se colocam à actual política ambiental e como fazê-lo.

Se o autor nos vem dizer que o caminho passa por adoptar a necessária dose de realismo e senso comum, não vejo motivo para passar ao lado deste livro e fugir ao debate.

Deixo-vos com o prefácio assinado pelo próprio autor.

 

«Nos últimos tempos o aquecimento global tem sido retratado como sendo a maior crise da história da civilização. À data em que escrevo este livro, as reportagens sobre este tema ocupam as primeiras págimas da Time e da Newsweek e são exibidas com destaque num número incontável de meios de comunicação social por todo o mundo. Perante este nível de desespero absoluto, talvez seja surpreendente – e muita gente considerará inapropriado – escrever um livro que é basicamente optimista relativamente ao futuro da humanidade.

É indiscutível que nos últimos séculos, a humanidade provocou um aumento substancial dos níveis de dióxido de carbono na atmosfera, contribuindo assim para o aquecimento global. O que é, porém, discutível é se a histeria e os gastos precipitados em programas extravagantes de redução de CO2, por um preço sem precedentes, é a única reacção possível. Este rumo é especialmente questionável num mundo onde biliões de pessoas vivem na pobreza, onde milhões morrem de doenças curáveis e onde estas vidas podiam ser salvas, as sociedades podiam ser fortalecidas e os ambientes melhorados por uma fracção deste custo.

O aquecimento global é um tema complexo. Ninguém – nem Al Gore, nem os melhores cientistas do mundo e, sobretudo, nem eu próprio – pode alegar ter todo o conhecimento e todas as soluções. Mas temos de agir com base na melhor informação que está disponível tanto nas ciências naturais como nas ciências sociais. O título deste livro tem dois significados: o primeiro, e mais óbvio, é que temos de direccionar a nossa atenção e os nossos recursos para a forma mais eficaz de enfrentar o aquecimento global a longo prazo. Já o segundo refere-se à actual natureza do debate. Actualmente, qualquer pessoa que não apoie as soluções mais radicais contra o aquecimento global é considerada um proscrito, é chamada de irresponsável e é vista como sendo, possivelmente, um fantoche corrupto do lóbi do petróleo. O meu argumento é que esta não é a melhor forma de enquadrar um debate sobre um assunto tão crucial. Acredito que as intenções da maior parte dos participantes neste debate são boas e honestas – queremos todos trabalhar para um mundo melhor. Mas, para fazer isso, precisamos de controlar a retórica, permitindo uma discussão moderada acerca das melhores formas de avançar. Sermos inteligentes relativamente ao nosso futuro foi o que nos levou a ser bem sucessidos no passado. Não devíamos abandonar a nossa inteligência agora.

Se nos conseguirmos acalmar, é provável que deixemos o século XXI com sociedades muito mais fortes, sem níveis extremos de morte, de sofrimento e de perda e com nações muito mais ricas, com oportunidades inimagináveis, num ambiente mais limpo e saudável.»

 

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20 de Julho de 2008

Já vai com umas horas de atraso, mas o Leonard Cohen também merece o devido destaque pela sua (raríssima) presença num palco nacional.

Não sou grande admirador dos últimos discos deste extraordinário escritor de canções (se é verdade que a escrita continua superlativa, Cohen, no entanto, baixou consideravelmente a qualidade do suporte musical)  - I'm your man terá sido o seu último grande trabalho -, mas para quem ainda o aprecia, espero que tenha ido ao Passeio Marítimo de Algés. Por duas razões, pelo menos: Porque provavelmente será o seu último concerto em Portugal (aos 73 anos) e porque a sua sublime contribuição passada para a história da música popular o merece. E, vale sempre a pena recordá-lo, «Famous blue raincoat» será uma das 4 ou 5 mais extraordinárias canções de todos os tempos.

Como parece que o músico canadiano não pretendia tocar uma única canção da obra-prima absoluta «Songs of love and hate» - e se isso na realidade aconteceu, será que os fãs lhe perdoaram? - deixo aqui Joan of Arc (Famous blue raincoat já entrou no blog há uns meses, por isso não vou repetir).

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:40 link do post
19 de Julho de 2008

 

 

 

 

 

Tive esta semana a possibilidade de, por motivos inesperados, passar uma vista de olhos pela revista Visão. Ao ser chamado à atenção pela capa da revista para o exclusivo «Enfrentámos o mau feitio de Lou Reed» (bela campanha publicitária, sem dúvida) aproveitei, naturalmente,  para ler a dita.

Queixa-se, então, o jornalista (que mais parece um estagiário) do mau feitio do músico nova-iorquino. Conta, com alguma graça, o conhecimento que já tinha das dificuldades que o músico costuma criar aos jornalistas e as peripécias que teve de ultrapassar para conseguir falar com ele. Até aqui nada a apontar. O pior veio a seguir.

O jornalista da Visão começa por perguntar «Quando está em palco, a tocar as canções de Berlin, sente-se transportado sempre para um certo estado de espírito, ligado ao ambiente do disco (...) e ao momento em que o gravou?» Reed responde telegraficamente e a resposta não satisfaz o entrevistador. Insiste nos mesmo tema e obtém uma resposta um pouco mais desenvolvida que continua a não satisfazer. Faz a 3.ª pergunta (não vão acreditar, mas é uma variante das duas primeiras) e recebe o primeiro KO: «Está a fazer-me a mesma pergunta dez vezes! Ok? Acho que já chega. Não vai conseguir outra resposta que signifique alguma coisa para si. (...)»

Só o pobre coitado é que ainda não tinha percebido que já estava arrumado. Após mais uma série de perguntas banalíssimas – então aquela do «(...) actualmente sente-se mais um homem do rock’n’roll ou da escrita, da literatura?» o Lou Reed já deve ter ouvido um milhão de vezes, pelo menos – onde teve o azar de informar que o Leonard Cohen ia tocar na mesma noite, o que irritou ainda mais o entrevistado, Pedro Dias de Almeida (nome do jornalista) entra directamente para o anedotário nacional deste ano com a pergunta mais idiota que já fizeram ao autor de Berlin. «Aos 66 anos, como é um dia perfeito (sim, é isso, a velha canção “Just a perfect day...”), para si?» – a canção nem se chama exactamente assim, mas eu também já não esperava melhor -. E Lou Reed aproveita (quem não o faria?) para desfazer o jornalista em cacos, humilhando-o sem apelo nem agravo. «Oh, por favor...  Não me faça perguntas dessas. (...) De certeza que consegue fazer melhor... Mas se quiser desperdiçar o seu tempo, esteja à vontade...» KO absoluto antes de terminar o 1.º round e o jornalista vai-se arrastando, lamentavelmente, por perguntas intragáveis do género «tem referências da música portuguesa e da literatura? Blá, blá, blá» e outras mais ou menos aceitáveis mas totalmente desgarradas e sem qualquer tipo de ligação aparente.

No final, Pedro Dias de Almeida desabafa: «Pensamento positivo, e uma certeza: em palco ele é muito melhor do que no meu telemóvel.

Lou Reed deve ter pensado qualquer coisa do género: Espero que o público presente no meu concerto seja bem melhor do que este tipo que me apareceu hoje.

E depois queixam-se do seu mau feitio!

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:01 link do post
19 de Julho de 2008

 

 

 

A propósito do que um dia escrevi aqui, e que passo a transcrever em relação ao que disse sobre esta canção:

 

«E depois há Betty Caine. Sim, Deus parece existir. Pelo menos durante aqueles três minutos e meio. «Betty Caine» é a mais espantosa, dilacerante, sedutora e ultra-romântica das canções. Explode no nosso coração entre dois versos e, por mais de uma vez, quase nos faz tocar o céu.

Abandona-nos, sem rede, nas teclas solitárias de um piano rumo a uma estratos-férica secção de cordas para, literalmente, nos deixar comover por não estarmos preparados para aceitar o deslumbramento da (des)harmonia quase sobrenatural

que esta música nos oferece.»

publicado por adignidadedadiferenca às 00:51 link do post
18 de Julho de 2008

Homenagem mais do que merecida pelos 90 anos de Nelson Mandela, o homem que nos fez acreditar que a tolerância e a liberdade em África são possíveis.

 

 

«Nelson Mandela é um dos grandes líderes morais e políticos do nosso tempo cuja vida exemplar inteiramente consagrada à afirmação da dignidade do homem e à luta contra a opressão racial na África do Sul lhe valeu o prémio Nobel da Paz e a presidência do seus país. Desde a sua libertação triunfal em 1990, após mais de um quarto de século de prisão, Mandela passou a estar no centro do drama político mais fascinante e inspirador do mundo. Como presidente do Congresso Nacional Africano e chefe do movimento anti-apartheid da África do Sul, desempenhou um papel fulcral na passagem do seu país para um governo multi-racial e da maioria. É mundialmente admirado como uma força vital na luta pelos direitos humanos e pela igualdade racial.

Longo Caminho para a Liberdade é a sua comovente e estimulante autobiografia, um livro que merece um lugar ao lado das memórias mais prestigiadas das grandes figuras da História. Pela primeira vez, Nelson Rolihlahla Mandela conta a história extraordinária da sua vida – uma narrativa épica de luta, contrariedades, esperança renovada e triunfo final que era, até este momento, praticamente desconhecida.

Para milhões de pessoas em todo o mundo, Nelson Mandela representa, como nenhuma outra personalidade viva, o triunfo da dignidade e da esperança sobre o desespero e o ódio.

Longo Caminho para a Liberdade condensa esse espírito num livro para sempre.»

 

De Longo Caminho para a Liberdade, editado no nosso país pela Campo das Letras, em 1995

 

Um texto com 13 anos, mas que se mantém perfeitamente actual.

 

16 de Julho de 2008

                                     

                                   June Tabor

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:05 link do post
16 de Julho de 2008

TRANSE

 

Se o tropicalismo se deveu em alguma medida a meus atos e minhas idéias, temos então de considerar como deflagrador do movimento o impacto que teve sobre mim o filme Terra em transe, de Glauber Rocha, em minha temporada carioca de 66-7. Meu coração disparou na cena de abertura, quando, ao som do mesmo cântico de candomblé que já estava na trilha sonora de Barravento – o primeiro longa-metragem de Glauber -, se vê, numa tomada aérea do mar, aproximar-se a costa brasileira. E, à medida que o filme seguia em frente, as imagens de grande força que se sucediam confirmavam a impressão de que aspectos insconscientes de nossa realidade estavam à beira de se revelar.

Glauber Rocha, o jovem diretor baiano, tinha se tornado, a essa altura, um verdadeiro líder cultural. Depois de rodar Barravento quando ainda morava na Bahia, ele impressionou diretores e críticos europeus com Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme cheio de uma selvagem beleza que nos excitou a todos com a possibilidade de um grande cinema nacional. Não se tratava de uma conquista de padrão de qualidade: essa tinha sido a meta da Vera Cruz, produtora criada pelo empresário paulista Franco Zampari, que construiu um estúdio bem estruturado onde se produziam, até metade dos anos 50, filmes de bom acabamento. Para dirigir o empreendimento, Zampari convidou Alberto Cavalcanti, o cineasta brasileiro que atuara com sucesso na Inglaterra e na França e voltava ao Brasil atendendo a esse convite da elite brasileira para instituir uma indústria cinematográfica de alto nível entre nós. Era uma tentativa de superar o estágio primitivo do cinema comercial brasileiro, representado pelas comédias carnavalescas cariocas conhecidas como «chanchadas», uma fórmula inaugurada com sucesso nos anos 30. O movimento do cinema novo, na primeira metade dos anos 60, opôs-se tanto ao academicismo das produções respeitáveis da Vera Cruz quanto ao primarismo das chanchadas. A vitória de prestígio do movimento sobre essas duas tendências não foi atingida sem dificuldade, e não se pode dizer que a desatenção – quase hostilidade – a produções como O cangaceiro (Vera Cruz) ou O homem do Sputnik (chanchada) não pareçam hoje francamente injustas.

Glauber liderou prática e teoricamente o movimento do Cinema Novo. Seu livro Revisão crítica do cinema brasileiro argumenta em favor de um cinema superior nascido da miséria brasileira como o neo-realismo nascera da indigência das cidades italianas no imediato pós-guerra. Ali ele conclamava os jovens intelectuais de esquerda que se sentissem atraídos pelo cinema a inspirarem-se no Nelson Pereira dos Santos de Rio, 40 graus, e naturalmente isso significava desprezar tanto os sensatos que apenas tentavam encenar diante da câmera histórias razoavelmente roteirizadas, quanto os malandros que produziam diversão para um público semi-analfabeto.

O filme-emblema é Deus e o Diabo na Terra do Sol. (...) ousava livremente acima e além da submissão aos esquemas industriais e da reverência ao já estabelecido artisticamente. Abordando a temática do fanatismo religioso no Nordeste brasileiro – com evidentes ecos de Os sertões, o grande livro de Euclides da Cunha -, e retomando o imaginário do banditismo rural daquela região – a marca forte de O cangaceiro – Glauber, sem temer a mão às vezes pesada, às vezes canhestra com que exibia ensinamentos estéticos de Eisenstein, Rossellini, Buñuel ou Brecht (mais nouvelle vague e alguns cacoetes aprendidos no então para nós emergente cinema japonês), e lições ideológicas de marxistas, apresentava um painel exuberante e algo disforme (na Europa como no Brasil, chamou-se, creio que com acerto, «barroco») das forças épicas embutidas em nossa cultura popular. Na verdade, o resultado final desse filme o aproxima mais do genial Pasolini de O evangelho segundo s. Mateus do que de qualquer outro diretor: a fotografia sem contraluz, o delírio construído com matéria crua, a imposição de um mundo mental às imagens – tudo isso é compartilhado por esses dois filmes realizados no mesmo ano. Mas Deus e o Diabo na Terra do Sol não se apoiava em algo como a poderosa singeleza dos Evangelhos: ele tinha que dar conta de todo um imaginário e de toda uma problemática particulares do Brasil. Via-se na tela o próprio desejo dos brasileiros de fazer cinema.

 

Excerto do livro «Verdade Tropical» de Caetano Veloso

 

Deus e o Diabo na Terra do Sol

O Evangelho segundo S. Mateus

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