a dignidade da diferença
27 de Abril de 2008

 

Sansho Dayu (O intendente Sansho) - Kenji Mizoguchi (1954)

 

Refiro-me à cena do suicídio de Anju, que, certeiramente,  João Bénard da Costa considera ser o momento mais sublime da arte modulatória do cineasta, cuja luz irreal que vemos no campo de flores, o conhecido crítico apenas encontra comparação com a do quadro de Tiziano «A apresentação de Maria ao templo».

 

 

 

 

 

Inesquecível, de resto, todo o filme mais a prodigiosa música que Fumio Hayasaka para ele compôs e cuja BSO, suponho, não deverá existir em suporte digital.

 

 

 

E, já agora, quando terá o DVD edição portuguesa?

publicado por adignidadedadiferenca às 21:03 link do post
27 de Abril de 2008

Run to ruin - Nina Nastasia (2003)

 

 

 

Depois de «Dogs» e «The blackened air», a arte de Nina Nastasia surge refinada em todos os seus pormenores. Um canto fúnebre, falsamente doce e impossivelmente tenso, encaixado em melodias que de tão sinuosas e transviadas que são, parecem sobreviver fragmentadas e, aparentemente, à deriva, e que tem para nos oferecer uma quase oração cujas palavras têm o peso mais profundo que uma alma negra e esquizofrénica pode habitar. Prejudica um pouco a empatia com as canções, quando julgamos ser todo o suporte instrumental exageradamente rude, cru e desarrumado, até nos apercebermos que, afinal, os sons artesanais criam uma ambiência folk  irresistível e venenosamente melódica onde, afinal, tudo está no sítio certo. Desde o ruído das serras eléctricas, aos gemidos de um doente em estado terminal, sem esquece a dissonância, as explosões e os sussurros até aos cortes brutais a golpes de machado. Neste universo, convive-se, sem perigo, com pedaços de tango, sublimes arranjos de cordas, espasmos e murmúrios de violinos, atingindo os seus pontos altos na intensidade dramática de «You her and me» e nessa prodigiosa música de câmara que é «Superstar». Não haveria Nina Nastasia se não tivessem aparecido P. J. Harvey, Aimee Mann, Suzanne Vega, Laura Nyro e, talvez, Carla Bozulich, mas criou um universo tão pessoal, que já não precisa delas para coisa nenhuma. 

 

 

26 de Abril de 2008

 

COMO É QUE SE ESQUECE UM ÁLBUM PERFEITO?

 

 

Eu sei que o genial «Astral Weeks» ofusca a carreira de qualquer compositor, mesmo a de um autor inadjectivável como Van Morrison. Mas nunca consegui compreender a razão porque «Veedon Fleece» nunca fez parte das listas de preferências que, habitualmente, costumam ser publicadas sobre os melhores ou mais marcantes discos de sempre.

Se reconheço a «Astral Weeks» o estatuto de álbum-charneira de Van Morrison e o considero um dos discos da minha vida, confesso que ouço muito mais vezes a obra de 1974, e é esta que, quase sempre, primeiro guardo no meu estojo dos afectos e recordações.

Quem, escutadas uma vez, consegue esquecer canções como Fair play, Streets of arklow, Bulbs, Cul de sac, Comfort you e, na verdade, todas as outras?

Astral Weeks foi quem deu o verdadeiro impulso e fez história, mas, se calhar, foi em 1974 que, de forma absolutamente sublime e harmoniosa, o desenvolvimento interior de uma melodia, a voz soul do cantor, a sua força mística e o peso da tradição celta mais livremente voaram sobre os nossos sentidos.

Algum dia se irá reparar a injustiça? 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:33 link do post
25 de Abril de 2008

 

 

 

 

 

Na música portuguesa, a revolução fez-se em 1971 com «Cantigas do Maio» de José Afonso, «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» de José Mário Branco e «Os sobreviventes» de Sérgio Godinho. Foi aqui que nasceram outras ferramentas para o som. Mais uma vez, a música à frente do país... 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:04 link do post
24 de Abril de 2008

 

Le baiser modiano - Vincent Delerm

Não me preocupo em saber se noutra altura ainda penso assim, mais tarde se verá, mas, hoje, para mim, esta é a canção pop perfeita. Amor à primeira vista e uma dependência que não me larga há quatro anos. Faz parte do magnífico «Kensington Square» publicado em 2004 (é só fazer as contas), e não quero conhecer quem teve a ousadia de nunca ouvir. Poema solitário e apaixonado, preenche todos os dias vazios.

publicado por adignidadedadiferenca às 19:08 link do post
19 de Abril de 2008

Francis Bacon (1909-1992)

 

Hoje não serão, objectivamente, caminhos paralelos que se propõem, mas antes o reflexo e a influência que a pintura clássica (no caso presente, a de Diego Velázquez) exerce num dos maiores criadores contemporâneos, Francis Bacon.

 

 

 

 

 

Sem esquecer, designadamente, o «Estudo para um retrato de Van Gogh I» de 1956, para o qual ainda não tive a arte e o saber necessários para aqui o ilustrar, o exemplo mais conseguido de Bacon como intérprete excepcional de obras do passado verifica-se em «Estudo segundo Velázquez» de 1950

 

 

 

e «Estudo sobre o retrato do Papa Inocêncio X de Velázquez» de 1953.

 

 

 

Em ambos os quadros, o pintor dilacera radicalmente a obra-prima do artista espanhol através da sua visão violentamente trágica da condição humana, numa demonstração inequívoca (e demencial?) do seu génio poético.

 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 17:10 link do post
09 de Abril de 2008

Paixão Segundo São Mateus - J.S.Bach/Rudolf Mauersberger (1970)

 

 

 

Uma das mais inspiradas e dramáticas obras de toda a história da música vocal, feita com base em esplendorosas fantasias corais de uma espessura e grandeza épica ímpares em qualquer género.

A minha preferência por este registo resulta da harmonia existente entre o que Bach desejou - um conjunto magistral de estilos, que vão desde o recitativo, percorrendo inúmeras árias e coros, até atingir incomparáveis efeitos expressivos - e o que Mauersberger conseguiu: destaque quase exclusivo para a importância primordial das palavras, acertando com a entoação adequada ao fraseado, oferecendo-nos a inspiração vocal de todos os solistas, que brilha em conjunto e de forma quase telepática com a contenção e intensidade expressiva da orquestra.

Um acto de criação de uma dimensão que vai para lá do imaginável e uma interpretação vocal e orquestral que, por vezes, se reduz ao rigorosamente essencial, mas também é capaz de nos surpreender com verdadeiras peças de relojoaria e requinte interpretativo.

publicado por adignidadedadiferenca às 00:31 link do post
07 de Abril de 2008

Dummy - Portishead (1994)

 

Tudo o que se disse sobre este disco não fugiu muito disto:

Minimalismo radical dos Young Marble Giants transposto para os anos 90, assimilando (quase) toda a música de feição electrónica criada desde então. Pop negríssima impossivelmente perfeita. Cruzamento de dados da folk, com os ficheiros de Neneh Cherry e dos Soul II Soul. Descida dos Blue Nile à terra, interrompendo os seus habituais álbuns bissextos. Hip-hop em desaceleração para almas brancas e sensíveis. Trip-hop em absoluto estado estado de graça.  Dizer mais o quê?

Só foi preciso o «clic» dado pelos Massive Attack (autores do mítico Blue Lines), a visão sombria de Bristol e uma voz desamparada pronta a despedir-se do mundo para nos dar o clássico absoluto da década (com «Motion» da Cinematic Orchestra).

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:16 link do post
07 de Abril de 2008

Felt mountain - Goldfrapp (2000)

Música nocturna e profundamente cinemática, onde Nino Rota e o Morricone mais clássico se tornam contemporâneos de Badalamenti e, sob a inspiração dos clássicos alemães da viragem do séc. XIX para o séc. XX, inventam e escrevem a banda sonora ideal para o que falta fazer de «Twin Peaks».

David Lynch entrega o guião nas mãos de Will Gregory que lhe acrescenta um ambiente electrónico e contemporâneo, mantendo o essencial dos orgãos vitais.

E, no meio de tamanho crepúsculo, para que tudo fosse perfeito, só faltava Alison Goldfrapp ressuscitar, literalmente, dos restos mortais de Julie London e de Billie Holiday  e trazer consigo uma imensa voz assombrada e desenhada em ecrã panorâmico.

Música viciante e sem fuga possível.

 

05 de Abril de 2008

TRICAMPEÕES!!!

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:53 link do post
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05 de Abril de 2008

Bjork, Bjork, Bjork

Hoje o dia é para Bjork, pela coragem que teve em defender a independência do Tibete em plena China (Xangai), desfazendo, com uma atitude, simultâneamente, singela e ousada, toda a cobardia, hipocrisia e interesses políticos e, principalmente, económicos, de quase todo o mundo ocidental.

E olhem que nem sequer tenho particular simpatia pela causa do Tibete, não só porque me considero ateu, mas também porque equiparo, até certo ponto, a relação existente entre os monges e o resto da população ao feudalismo.

Autora, ainda por cima, de uma obra excepcional, que umas vezes é mais experimentalista (ponto mais alto: Medúlla), outras mais pop (obra máxima: Post) Bjork consegue, salvo raríssimas excepções (Vespertine), manter um extraordinário e riquíssimo ponto de equilíbrio entre melodias pop e uma invulgar visão contemporânea e multicultural que persegue o caminho, cada vez mais solitário, que tem seguido ultimamente, tornando-a, inexplicavelmente, menos apreciada por boa parte da crítica musical. Mas, compreende-se porque, infelizmente, sempre houve quem gostasse da papinha toda feita...

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:15 link do post
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