a dignidade da diferença
28 de Fevereiro de 2008

Sinais de vida num corpo moribundo

Eu sei que passaram cerca de duas semanas - a cerimónia realizou-se no último dia 10 de Fevereiro -, mas não queria deixar de chamar a atenção para aquilo a que, e vamos ser generosos, se pode chamar  pequenos sinais de mudança.  Então não é que a indústria discográfica, em mais uma gala dos Grammy Awards, para além de premiar os habituais músicos bolorentos, bafientos e esteticamente desclassificados, decidiu consagrar cinco vezes o imenso talento  de Amy Winehouse (e, por acréscimo, a música soul), atribuir 2 prémios ao extraordinário e negríssimo último álbum de Bruce Springsteen e eleger como disco do ano «River: The Joni letters» de Herbie Hancock, nome essencial na história do jazz (apesar da mais recente gravação não ser particularmente recomendável)?

Como não me parece que seja coisa para continuar, que isto de agitar cabeças e pô-las a pensar não convém mesmo nada, há que aproveitar a generosidade e dar os parabéns aos eleitos, que para o ano devemos voltar ao habitual mínimo denominador comum.

Claro que - faltava a alfinetada -, apesar de Amy Winehouse, quem merecia ganhar o prémio de melhor intérprete de «soul music» era, sem concorrente à altura, a assombrosa Nicole Willis e a sua banda «Soul Investigators». Mas estes, quem conhece?

 

27 de Fevereiro de 2008

Li no «correio da manhã», de hoje, que a FHM vai ter, pela primeira vez, um homem na capa. E logo o Sá Pinto!

Não tenho dúvidas: o macho latino começa a ser uma espécie em vias de extinção...

Que falta de respeito! Os gajos compram a revista por causa das fotos de miúdas giras (não me querem convencer que é para ver o que elas sabem de história e pensam sobre literatura, cinema, diversas formas de expressão artística , política, etc, pois não?), e aparece-lhes isto...

Só falta organizarem um concurso na revista, para os leitores votarem se o Sá Pinto deve aparecer com roupa ou despido!

 

 

Por exemplo, este aqui a desenvolver o intelecto, está tão jeitoso. Para já safa-se, porque é na Maxmen. Agora, se a revista seguir o caminho da FHM, vai passar a ler o quê? A «Nature»? O «Jornal de Letras»?

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:15 link do post
25 de Fevereiro de 2008

Dirty - Sonic Youth (1992)

 

 

Com a mesma atitude dos Velvet Underground e dos Television, e muitos anos depois da anunciada morte do rock, chega um portentoso e viciante delírio sónico que concede mais uns anos de vida à velha carcaça. Sobressai a aparente contradição entre primitivismo e sedução melódica, cuja equação é sabiamente resolvida por uma inimaginável potência sonora convertida, onde menos se espera, a um surpreendente e arrebatador lirismo. Depois dos marcantes «evol» e «sister», os Sonic Youth aventuram-se definitivamente (no seu disco, aparentemente, mais «mainstream») por um maior arrojo formal, superiormente conduzido por quatro músicos convertidos a uma visão predominantemente arquitectónica (confirmar em «shoot»), lapidando um diamante em bruto mas de brilho intenso, que se insinua por entre acelerações e saltos no abismo («purr» será o deslumbramento maior), visões espectrais do paraíso ou do inferno, e pelo contacto directo com o ritmo cardíaco de um condenado à cadeira eléctrica. Um álbum majestoso que, por onde passa, não deixa pedra sobre pedra.

 

                  purr

 

 

                  shoot

publicado por adignidadedadiferenca às 23:51 link do post
20 de Fevereiro de 2008

Aleksandr Sokurov - Mãe e filho (1997)

 

Como muito bem refere Inês Pedrosa na sua última crónica no jornal «O expresso»,  poupa-se às crianças (e, digo eu, aos adultos), cada vez mais, o contacto com qualquer coisa que se assemelhe a uma realidade difícil, seja ela Os Lusíadas ou a morte de alguém, fazendo com que os meninos de hoje cresçam num mundo virtual, em que tudo tem de ser jogo e animação e festa.

Para contrariar esse descaminho, nada melhor do que este filme que conta uma história feita de coisas simples e duras. Aqui, mostra-se apenas(?) o carinho com que um filho trata a sua mãe durante os (últimos) dias em que esta sente a proximidade da morte. Ou seja, precisamente o contrário do que as pessoas desejam, hoje, ver e partilhar.

A recompensa está, porém, para quem, nele, souber ver a força esmagadora da natureza e uma profunda emoção e beleza estética.

Aqui mora, como se de um sopro divino se tratasse, a mais perfeita relação entre a pintura e as imagens em movimento, vivida nos anos 90 do século passado.

 

Um estilo único e admirável que se serve entre muitas outras coisas, dos interiores e dos castanhos de Rembrandt,

 

 

das paisagens de Harpignies,

 

 

do esplendor de luz e cor de Turner,

 

 

 

 

do génio da pintura moderna de Cézanne e da sua relação com a montanha,

 

 

 

 

e do impressionismo de Renoir

 

 

 

 

Mas o melhor, mesmo, é ver o filme. 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:39 link do post
14 de Fevereiro de 2008

Tenente Blueberry, de Giraud e Jean-Michel Charlier

 

 

Mais uma demonstração eloquente da relação directa entre BD e cinema, neste caso, com a criação de uma das mais consistentes e duradouras aventuras passadas no oeste americano.

 

 

 

Blueberry, um herói individualista e um militar rebelde, juntamente com Red Neck, McClure e Chihuahua Pearl, formam, com os índios e mais uns quantos seres solitários, um conjunto de excêntricas e raras personagens - a quem é atribuída uma dignidade fora do comum, como se pode ver, por exemplo, nas pranchas onde aquelas se destacam num fundo branco (ou ausência de cenário) -, apoiadas, quase sempre, num argumento fabuloso, nada habitual nas «histórias aos quadradinhos».

 

 

 

O talento dos autores cria uma obra com a dimensão da mitologia do western americano, seja nos textos e nos diálogos soberbos de Charlier, num estilo que lembra, por vezes, a secura e a crueza do film noir, seja no realismo e rigor gráfico de Giraud, clara e profundamente cinematográfico, caracterizado, como se pode constatar, pela influência do espaço Fordiano (o Monument Valley), pelas paisagens desertas e agrestes do território mexicano, pelo esplendor do cinemascope

 

 

 

e pela violência própria do western-spaghetti.

 

 

 

Com muitos e muitos volumes publicados, uma obra admirável para ser lida e apreciada lentamente, arrumando-se, por fim, junto aos verdadeiros clássicos (do cinema ou da literatura).

publicado por adignidadedadiferenca às 20:40 link do post
14 de Fevereiro de 2008

«O tocador de alaúde» (1661) de Hendrick Martensz Sorgh e «Interior holandês I» (1928) de Joan Miró

 

Miró visita Amesterdão e os seus museus. Os postais que leva consigo, aproveita-os para recriar a sua paixão pela pintura do século XVII, como neste exemplo. Se, aparentemente, nada parece ligar os quadros, observa-se, com uma leitura mais atenta, que os motivos da pintura do artista catalão correspondem , um a um, aos da tela original.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:37 link do post
14 de Fevereiro de 2008

The blue moods of spain (1995)

A banda de Josh Haden, filho de Charlie Haden, célebre contrabaixista de jazz, cria uma música vagamente country, embaciada por uma atmosfera nocturna, despida de tudo o que não é essencial. Música de um rigor impressionante, construída à base de movimentos lentíssimos semelhantes, na atitude, à  leitura que Celibidache fez da matéria-prima de Bruckner e Debussy. Nota a nota, passo a passo, as canções parecem hesitar no caminho a seguir, imobilizando-se de forma dolorosa e quase insustentável, mas, ao mesmo tempo, luminosa e profundamente elegante. Ouve-se o eco de Chet Baker, o silêncio dos Cowboy Junkies, algum jazz da idade do gelo e muito «blue mood». Essencial.

publicado por adignidadedadiferenca às 20:32 link do post
13 de Fevereiro de 2008

Jeff Buckley (músico)

 

Um músico e uma voz excepcional (tão sublime como a do pai, Tim) que deixou dois álbuns para a posteridade:

«Grace» de 1994 e «Live al'Olympia» de 2001 (edição póstuma).

 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:45 link do post
13 de Fevereiro de 2008

O voo do corvo - Gibrat

 

 

 

Eis um retrato histórico dos anos da ocupação alemã, contado, como no cinema, sob o efeito poderoso das imagens.

 

 

 

Uma história irónica, tocante, vivida por personagens complexas e cheia de peripécias empolgantes nos telhados de Paris, com a resistência como força mobilizadora. Uma lição de vida, aprendizagem e liberdade perfeitamente à altura de um desenho realista e minucioso, de cores exuberantes e sumptuosas, requinte supremo de uma sinfonia em technicolor.

 

 

 

E no seguimento da leitura, a admiração constante pelos grandes planos, planos de pormenor, plongées e contre-plongées, pelos diálogos apaixonantes, pela riqueza gráfica e perfeição do desenho.

 

 

Admirável.

publicado por adignidadedadiferenca às 00:02 link do post
12 de Fevereiro de 2008

Bibi Anderson (actriz)

 

Mais uma fotos que não mereciam ficar no esquecimento...

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:51 link do post
12 de Fevereiro de 2008

Bibi Anderson (actriz)

Fica na memória por ser uma das musas de Ingmar Bergman e ter participado, principalmente, em:

«Morangos silvestres», «O rosto» e «A máscara», todos filmes de Ingmar Bergman.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:31 link do post
12 de Fevereiro de 2008

 

Pietà (1499) - Miguel Ângelo e A deposição no túmulo (1613-1615) - Caravaggio

 

 

Tanto Miguel Ângelo como Caravaggio recusam a figura trágica de Cristo, que aqui adopta uma postura menos perturbada acompanhada por uma certa prostração física. Na Pietà de Miguel Ângelo, fica-se, até, com a sensação de que está a ser acarinhado pela Virgem Santa.

publicado por adignidadedadiferenca às 01:14 link do post
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