a dignidade da diferença
20 de Novembro de 2007

Hoje venho falar sobre o último filme de David Cronenberg «Uma história de violência».

A história conta-se em pouco mais de duas linhas. Na vida de um casal aparentemente normal, depois de várias peripécias, descobre-se que o marido é um indivíduo com dupla personalidade, que procura esconder do resto da família um tenebroso passado de assassino, do qual só se vem a saber quando algumas das personagens que fizeram parte desse passado se intrometem e rompem com a harmonia e com a pacatez em que o casal vive.

Daí para a frente, tudo é sublime no filme. As noções mais básicas que aprendemos acerca da vida e daquilo que julgamos conhecer nas pessoas são, literalmente, postas em causa, plano após plano, ao percebermos que a mulher que ama aquele homem e que julga saber tudo sobre ele, nunca suspeitou que grande parte do que o marido lhe contava se baseava em mentiras e cuja existência era levada no fio da navalha. Arrasadora é a cena em que o filho mata um dos assassinos que tenta acabar com a vida do pai, o qual não sabe, naquele instante, se deve condenar o filho por se ter tornado, também ele, um assassino, ou se deve ficar eternamente grato por lhe ter salvo a vida.

Inesquecível é, depois, toda a sequência que descreve, com uma precisão clínica e quase maníaca, a desagregação física e psicológica que aquela família sofre e a desconfiança e rejeição a que todos votam o nosso herói a quem, a partir dali, só lhe resta uma solução: enterrar e acabar definitivamente com o passado e com a trupe de malfeitores que o enegrecem.

 

Mas absolutamente inclassificável é a cena final que nos mostra um dos mais belos e devastadores regressos a casa de que há memória. Após o ajuste de contas, o marido (que é uma mistura radical de anti-herói moderno com o clássico herói americano na melhor tradição de Hawks e de Nick Ray) volta para a família na esperança de reconstruir o seu lar. Mas o que ele tem para encarar são três rostos gélidos e terrivelmente acusadores a que ele responde com o olhar mais pungente e avassalador que, num grande plano, mostra, no mesmo instante, um profundo arrependimento e culpa, deixa escapar uma enorme sensação de vazio pela dor causada - e pela solidão a que chegou - e implora por uma nova oportunidade para tentar, desta vez, fazer tudo certo.

Depois da emoção mal contida, porque não estava preparado para este filme, ainda me sinto arrepiado. Para mim, foi mais do que um choque frontal. É para isto que serve o cinema.

Se Cronenberg já fez, talvez, melhor em «dead ringers» e foi mais complexo em «crash», nunca foi tão belo como aqui.

Filme do ano. De 2006, obviamente, porque eu já o vi atrasado.

publicado por adignidadedadiferenca às 00:06 link do post
15 de Novembro de 2007

Por entre histórias que ninguém deseja ouvir, como explicar tamanho fascínio? Incrédulo, sob o efeito sonâmbulo de uma música agridoce feita de devastadoras catedrais de violinos em desafio constante com abissais glaciares sonoros derretidos sob a lava incandescente de um coração a bater (ou a gemer?), assisto ao desenrolar contínuo de prosas roubadas a seres desfigurados pela mais dura experiência humana. Histórias de luz e de trevas, paixões em florestas negras, fugas e correrias desenhadas em busca de estranhos seres amados, adolescentes que se fazem homens nas mãos e nos jogos de mulheres mais experientes, dor e sofrimento à beira do abismo, mas sempre com a percepção de que, felizmente, mais cedo ou mais tarde, coisas mais importantes nos irão ajudar. E o mais incrível e espantoso desta autêntica descida ao inferno é que reside precisamente na música que a conta a nossa salvação. Se é a música mais desesperada de todas as que recordo, é, também, a mais sedutora.

Seja na orquestra saída de um sonho dos Divine Comedy em «the siren songs», seja na leve brisa sonora que nos afaga, docemente, a face, sobre uma construção dramática em registo Tindersticks (mas estes gajos estão em todo o lado?) na belíssima «Dinah and the beautiful blue», até se perceber que é ainda melhor que Tindersticks. Ou em quase tudo o que acontece no que resta. Desde a voz quente e profunda de Tim Buckley à majestosa arquitectura sonora que, muitas vezes no mais sublime e absoluto silêncio, ocupa de forma mais que perfeita o tempo e o espaço de uma canção, passando por gritos, sussurros, paragens e acelerações cardíacas por entre a assombrosa urgência do refrão de «where's the high?» e o espanto total de «all that numbs you». De menos memorável, e não há bela sem senão, encontro apenas duas músicas mais facilmente esquecíveis: «postcard» e «mesmerene».

E depois há «Betty Caine». Sim, Deus parece existir. Pelo menos durante aqueles três minutos e meio. «Betty Caine» é a mais espantosa, dilacerante, sedutora e ultra-romântica das canções. Explode no nosso coração entre dois versos e, por mais de uma vez, quase nos faz tocar o céu. Abandona-nos, sem rede, nas teclas solitárias de um piano rumo a uma estratosférica secção de cordas para, literalmente, nos deixar comover por não estarmos preparados para aceitar o deslumbramento da (des)harmonia quase sobrenatural que esta música nos oferece.
E se pretendo oferecê-la ao meu melhor amigo, a verdade é que, bem no meu íntimo, não desejo partilhá-la com mais ninguém. Genial.

publicado por adignidadedadiferenca às 19:36 link do post
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