a dignidade da diferença
08 de Dezembro de 2012

 

 

«Glauber Rocha, o jovem diretor baiano, tinha se tornado, a essa altura, um verdadeiro líder cultural. Depois de rodar Barravento quando ainda morava na Bahia, ele impressionou diretores e críticos europeus com Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme cheio de uma selvagem beleza que nos excitou a todos com a possibilidade de um grande cinema nacional. (…) Era uma tentativa de superar o estágio primitivo do cinema comercial brasileiro, representado pelas comédias carnavalescas cariocas conhecidas como “chanchadas”, uma fórmula inaugurada com sucesso nos anos 30. (…) Glauber liderou prática e teoricamente o movimento do Cinema Novo. Seu livro Revisão crítica do cinema brasileiro argumenta em favor da criação de um cinema superior nascido da miséria brasileira como o neorrealismo nascera da indigência das cidades italianas no imediato pós-guerra.

 

 

O filme-emblema é Deus e o Diabo na Terra do Sol. Bons filmes do Cinema Novo, como Os Fuzis, de Ruy Guerra, ou mesmo Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, (…) tinham, entre outras, a virtude de nos aproximar de um nível de feitura almejável, embora por caminhos bem diversos daqueles percorridos pela Vera Cruz, Anselmo Duarte ou (o solitário autor de filmes bergmanianos) Walter Hugo Khoury. Deus e o Diabo na Terra do Sol era bom (e mesmo melhor) por outras razões: ousava livremente acima e além da submissão aos esquemas industriais e da reverência ao já estabelecido artisticamente. Abordando a temática do fanatismo religioso no Nordeste brasileiro – com evidentes ecos de Os sertões, o grande livro de Euclides da Cunha -, e retomando o imaginário do banditismo rural daquela região – a marca forte de O cangaceiro -, Glauber (…) apresentava um painel exuberante e algo disforme (na Europa como no Brasil, chamou-se, creio que com acerto, “barroco”) das forças épicas embutidas em nossa cultura popular. Na verdade, o resultado final desse filme o aproxima mais do genial Pasolini de O Evangelho Segundo S. Mateus do que de qualquer outro diretor: a fotografia sem contraluz, o delírio construído com matéria crua, a imposição de um mundo mental às imagens – tudo isso é compartilhado por esses dois filmes realizados no mesmo ano.

 

 

 

Lembro que fui andando do solar até o cinema onde se exibia Terra em transe. O filme como um todo, no entanto, me pareceu desigual. E me agastava que ele não o fosse menos – era-o mesmo bem mais – do que Deus e o Diabo na Terra do Sol. As lamentações do seu principal personagem – um poeta de esquerda em conflito íntimo por ambicionar, muito além da justiça social, “o absoluto” – por vezes me soavam francamente subliterárias. (…) Mas, como já tinha sido o caso com os dois filmes anteriores de Glauber (e, ainda que em menor intensidade, com grande número de produções do Cinema Novo), incessantemente explodiam na tela as sugestões de uma outra visão da vida, do Brasil e do cinema que pareciam obsoletar esse tipo de exigência. E no caso de Terra em transe, o próprio poeta protagonista trazia, envolta em sua retórica, uma visão amarga e realista da política, que contrastava flagrantemente com a ingenuidade de seus companheiros de resistência à ditadura militar recém-instaurada (o filme é o momento do golpe de Estado reconstituído como um pesadelo pela mente do poeta ao morrer).»

Verdade Tropical, de Caetano Veloso

  

 

Comprei no sábado a caixa dele: 25 euros. :)
Francisco Rocha a 10 de Dezembro de 2012 às 07:56
Apesar dos desequilíbrios formais, trata-se ainda hoje de uma obra preciosa. Vale bem os 25 euros. :-)
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