a dignidade da diferença
25 de Abril de 2011

 

 

«James Mason nunca fez de Heathcliff. Nunca ouvimos a voz dele perguntar pelo cheiro das urzes ou amaldiçoar a selvagem e meiga Cathy. Mas quase todos os seus grandes papéis são variações sobre essa personagem e ninguém o descreveu melhor do que Emily Brontë na célebre passagem em que Heathcliff regressa a Trushcross Grange, quando era Setembro e era lua e a ferocidade do olhar dele dizia do desejo de enforcar todos os seres, excepto um. Era daí que vinha a alquimia da sua voz, a viagem à pátria das sombras e dos turbilhões, a danação do arco-íris, a doce e mortal dentada da felicidade. Com ele, como com Rimbaud, que estou a traduzir livremente, essa felicidade só podia ser fatalidade, remorso e verme. Com a voz, também ele escreveu silêncios e noites e todas as coisas que, no escuro, se podem passar entre um homem e uma mulher. Com a voz, também, ele gravou o inexprimível e fixou vertigens. Foi, sozinho, uma ópera fabulosa. Adamante e Senhor do Navio.»

 

João Bénard da Costa, Muito Lá de Casa, Assírio & Alvim

 

 

Ninguém melhor do que Bénard da Costa para descrever o extraordinário actor que foi James Mason. Dos imensos papéis que fez, guardamos memória sobretudo dos personagens que fez nos anos 50 e 60 do século passado. Foi, entre outros, o ambíguo e venenoso Cícero (Five Fingers, de Mankiewicz), o odioso Rommel (The Deserts Rats, de Hathaway), e participou, com Judy Garland, no sublime A Star is Born, de Cukor. O apogeu, porém, só o atingiu no assombroso Bigger Than Life, de Nicholas Ray, conhecido em Portugal como Atrás do Espelho, onde inventa literalmente Ed Avery, o protagonista que por causa da dependência de um remédio, passa sucessivamente da inquietação ao desespero, atingindo este último e incontrolável estado no celebérrimo e assustador plano em que pretende matar o filho, julgando-se acima de Deus e procurando «corrigir-lhe» o erro. Um patamar de excelência que voltou a atingir no genial North by Northwest, de Hitchcock, onde interpreta o terrível e fascinante vilão Philip Vandamm, ou ainda nesse espantoso Humbert que vive numa vertiginosa sofreguidão pela Lolita de Kubrick, que Adrian Lyne transformou anos mais tarde numa indesculpável versão para adolescentes imberbes, copinhos de leite e parolos.

publicado por adignidadedadiferenca às 01:18 link do post
concordo em absoluto. sempre adorei este actor, tão intenso na sua quietude.
sem-se-ver a 1 de Maio de 2011 às 11:25
Sem dúvida. Um dos mais expressivos e um dos meus preferidos. :-)
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