a dignidade da diferença
19 de Janeiro de 2011

 

 

Uma vez entendida uma solução como uma de muitas soluções igualmente boas para o mesmo problema, podemos apreciá-la como «apenas nossa» e deixamos de ter tendência para moralizar contra os outros. As línguas diferentes têm palavras diferentes para designar coisas diferentes e gramáticas diferentes e diferente colocação das palavras na frase, mas todas servem igualmente bem o propósito de possibilitar a comunicação. Os diferentes costumes, ritos, regras e convenções sociais podem ser vistos como diferentes soluções para os problemas de expressão, coordenação e comunicação públicas. Não temos de os classificar. Em Roma sê romano. Mas suponha que uma sociedade resolve os seus problemas de uma forma que interfere com as nossas preocupações. Suponha que, como fazem os taliban no Afeganistão dos nossos dias, se nega o ensino às mulheres. Ou que o tempo nos tinha legado um sistema de castas que negava a existência de igualdade de tratamento perante a doença, o ensino e mesmo os meios de subsistência a toda uma classe de pessoas, segundo o seu nascimento. Ou mesmo que o tempo nos tinha legado um sistema no qual algumas pessoas pertenciam de corpo e alma a outras. Estes sistemas constituem um tipo de solução para os problemas que se põem sobre como viver. Mas não temos de os ver como igualmente bons («apenas diferentes») ou sequer toleráveis. Podemos considerar com justeza que violam limites que são importantes para nós. Transgridem as fronteiras de preocupação e respeito que pensamos ser imprescindível proteger. Nestas circunstâncias, é natural apelar à linguagem dos «direitos», significando isso não apenas que é bom ou simpático as pessoas manifestarem preocupação ou respeito, mas também que, se não o fizerem, as partes prejudicadas têm direito a sentir-se lesadas e a apelar ao mundo no sentido de rectificar o seu estado.

 

Blackburn, Simon, Think: A Compelling Introduction to Philosophy, traduzido, para a Gradiva, por António Infante, António Paulo da Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Fátima St. Aubyn, Francisco Azevedo e Paulo Ruas 

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