a dignidade da diferença
27 de Dezembro de 2010

 

 

O genial cineasta Sergei Eisenstein, natural de Riga, onde nasceu a 23 de Janeiro de 1898, explica como, nas mãos certas, a forma é, pelo menos, tão importante como o conteúdo. A sua importância cresce consoante a finalidade que lhe é atribuída. Uns trabalham-na como estéreis exercícios de estilo, como meras imagens de retórica. Mas há quem a faça agir directamente sobre o conteúdo, isto é, quem a utilize, por exemplo, para densificar, temperar, dramatizar ou dar espessura a um discurso, uma mensagem que se pretende fazer passar. Nessas mãos - as certas -, aquilo que seria o objecto formal transforma-se, milagrosamente, no objecto material. A forma torna-se a substância, o conteúdo. Poucos o souberam explicar tão bem como Eisenstein num texto magnífico intitulado Sobre a questão de uma aproximação materialista da forma, em 1925. Deixo-vos aqui um excerto.

 

 

«Com “A Greve”, ao contrário, temos o primeiro exemplo de arte revolucionária onde a forma se mostra mais revolucionária que o conteúdo. E, a novidade revolucionária de “A Greve” não resulta em absoluto de que o seu conteúdo – o movimento revolucionário – tenha sido historicamente um fenómeno de massas, e não individual – é tudo isto, dizem, a ausência de intriga, de protagonista, etc., que caracteriza “A Greve”, como “o primeiro filme proletário” – mas ao contrário, de que o filme proponha um “processo” formal bem determinado para enfrentar a descoberta de uma imensa quantidade de material histórico-revolucionário no seu conjunto. O material (…) foi examinado pela primeira vez, sob um ângulo visual correcto: os seus momentos característicos foram examinados como outras tantas fases de um processo único do ponto de vista da sua natureza “produtiva”. (…) A forma de elaboração do conteúdo em função do assunto – no nosso caso o processo, aplicado pela primeira vez, de montagem do argumento (…) e a própria escolha justa do ângulo visual em relação ao material – revelaram-se ser, no nosso caso, uma consequência da compreensão formal fundamental do material proposto, que dizer, do “artifício” fundamental, formalmente inovador, que a encenação traz à construção do filme, artifício que foi determinado (historicamente) em primeiro lugar. (…) Falando da forma de “A Greve”, só pessoas muito ignorantes podem comentar as “contradições entre as exigências ideológicas e os desvios formais do realizador”; é tempo que certas pessoas compreendam que a forma é determinada a um nível muito profundo e não através de algum pequeno “truque” superficial mais ou menos feliz.»

In Ramos, Jorge Leitão, Sergei Eisenstein, 1981, Livros Horizonte, Lisboa.

publicado por adignidadedadiferenca às 00:50 link do post
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