a dignidade da diferença
23 de Agosto de 2016

 

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 Daniel J. Boorstin, ilustre historiador norte-americano, nascido a 01 de Outubro de 1914 e falecido a 28 de Fevereiro de 2004, doutorado em História e Direito, revelou ao mundo, em 1983, este admirável The Discoverers (Os Descobridores, na edição portuguesa). A obra, que a Gradiva, cerca de uma década depois, assumiu a responsabilidade de publicar e difundir no mercado nacional, aborda a história da humanidade sob um prisma distinto do habitual. Com efeito, ao seu autor não interessa divulgar as questões políticas, os conflitos sociais ou as lutas imperiais. Daniel J. Boorstin prefere sobretudo encarar a história como uma fábula sobre as descobertas e as ideias, a busca permanente do conhecimento e como ultrapassar os obstáculos que se vão semeando no nosso caminho. A obra consiste então num imaginativo, fascinante e singular testemunho da tentativa do Homem compreender o mundo que o rodeia. No seu aperfeiçoamento narrativo, o leitor vai apreendendo a mutação do tempo, a evolução da sociedade ou o ressurgimento de notáveis figuras maioritariamente esquecidas, acompanhando uma escrita matizada e apaixonada, enriquecida por preciosos detalhes e elaborada com um sopro e um humor tantas vezes desconcertantes. A aventura do Homem, simultaneamente épica e dramática, passa diante dos nossos olhos de forma quase sempre deslumbrante. Em suma, eis um livro com uma capacidade rara para cativar os curiosos, por força do seu encantamento, sem abdicar do necessário rigor histórico e de um louvável carácter educativo, convertendo cada um dos seus viciados leitores num novo descobridor…

16 de Agosto de 2016

 

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«A maior parte dos alunos da escola secundária e da universidade detestam Física porque por norma ela é ensinada como um complicado conjunto de fórmulas matemáticas, Não é essa a minha abordagem no MIT, e não é essa a abordagem deste livro. Apresento a física como uma forma de ver o nosso mundo, revelando territórios que de outra forma permaneceriam escondidos – das minúsculas partículas subatómicas à imensidão do universo. A física permite-nos ver as forças invisíveis em jogo a toda a nossa volta, da gravidade ao electromagnetismo, e estar alerta não só aos sítios mas também às ocasiões em que encontramos arco-íris, halos, arcos de nevoeiro e auréolas, e talvez até arcos de vidro. Todos os físicos pioneiros alteraram o modo como vemos o mundo. (…) É por isso que vejo uma relação fascinante entre a física e a arte. A arte pioneira também é um novo modo de ver, uma nova forma de olhar o mundo. (…) Se olharmos em retrospectiva a arte do Renascimento até aos dias de hoje, identificamos uma tendência clara. Os artistas foram eliminando os constrangimentos impostos pelas tradições dominantes: de tema, forma, materiais, perspectiva, técnica e cor. No fim do século XIX abandonaram completamente a ideia de arte como representação do mundo natural. A verdade é que agora consideramos muitas destas obras pioneiras magníficas, mas a intenção dos artistas era outra, inteiramente diferente. Tencionavam introduzir uma nova forma de olhar o mundo. Muitos dos trabalhos que hoje consideramos criações icónicas e belíssimas (…) receberam críticas hostis no seu tempo. Os actualmente adorados impressionistas (…) enfrentaram igualmente comentários derisórios quando começaram a mostrar os seus quadros. (…) Uma nova forma de olhar o mundo nunca fica na nossa zona de conforto, é sempre um balde água fria. Considero essa água revigorante, estimulante, libertadora. E encaro o trabalho pioneiro em física da mesma forma. Sempre que é dado pela física mais um dos seus maravilhosos passos reveladores de territórios anteriormente invisíveis ou obscuros, passamos a ver o mundo de outra forma.»

Walter Lewin, For the Love of Physics

 

08 de Agosto de 2016

 

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Urso de Ouro, em 1977, no Festival de Berlim, Ascensão, da cineasta Larisa Shepitko - casada com Elem Klimov, uma das mais distintas figuras do cinema soviético, viria a falecer com 41 anos num acidente de viação - foi talvez o mais expressivo e assombroso filme sobre a invasão de leste pelos nazis, durante a Segunda Guerra Mundial, que tive oportunidade de ver. Da mesma autora foi ainda possível conhecer outros trabalhos, tais como Asas e Tu e Eu, no Grande Ciclo de Cinema Russo – Do Mudo À Perestroika. Quanto a Ascensão, longos e admiráveis planos-sequência, a par de um conjunto imenso de grandes planos com a capacidade única de revelar a alma dos protagonistas através do seu rosto, bem como o notável aproveitamento dramático da paisagem e do clima impiedoso, testemunham uma desesperada luta pela sobrevivência de um grupo de soviéticos capturado pelos nazis, na qual, entre os mais diversos e justificados comportamentos, sobressaem os daqueles que estão de acordo com a sua consciência. Culpa, traição, angústia, coragem e procura de uma verdade interior, manifestam-se ao longo do clima de tensão cunhado pelo formidável e sólido desempenho dos actores e pela prodigiosa direcção artística da cineasta Larisa Shepitko. Filme terrível e que implode numa violência surda quase insuportável? Sem sombra de dúvida. Mas tão magnífico e com uma impressionante força dramática.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:28 link do post
31 de Julho de 2016

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«A filosofia é de todos os que ousam pensar por si próprios. Por isso, quem entra na filosofia corre o risco de se tornar um dissidente. Dissidente na sua própria terra, dissidente do poder instituído, da opinião comumente aceite, dos êxitos mundanos, do mundo dos negócios, do prestígio social. Dissidente da vida vulgar, do senso comum, da moda, das banalidades e das brutalidades da vida quotidiana. Dissidente do pensamento único, de tudo o que é aceite passivamente, da norma, do politicamente correcto, do instituído, do consensual, do tradicional. Dissidente do poder e do snobismo das criaturas de sucesso que procuram as luzes da ribalta para expor as suas vaidades. Dissidente da passividade dos media, do comodismo fácil das opiniões aceites, da normalidade superficial dos dias, das vozes cómodas, pacificas e conformistas. (…) Na filosofia, o passeio tranquilo dá lugar a uma imersão no abismo da argumentação. Temos de reconstruir o pensamento à medida que este emerge no sentido de cada palavra. Temos de tomar decisões, Temos de reconhecer. Podar e arrancar.»

Mendes Henriques e Nazaré Barros in Olá, Consciência! Uma viagem pela filosofia

publicado por adignidadedadiferenca às 19:09 link do post
14 de Julho de 2016

 

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Se ao longo da sua carreia se revelaram absolutamente incapazes de gravar um mau disco, a verdade é que o motor criativo dos Tindersticks parecia há muito ter arrefecido. Tratou-se, percebêmo-lo agora, de pura ilusão, pois a natureza profunda da sua pop orquestral, aprimorada pela experiência acumulada durante praticamente três décadas e umas sentidas pinceladas de soul, acaba de regressar não só intacta como inesperadamente renovada pelo vigor rítmico de Tony Allen e a subtileza de alguns (des) arranjos jazzísticos de Julian Siegel, no magnífico The Waiting Room. Em 2016, a música dos Tindersticks - cinemática, sombria q.b., discreta, estranha e melancólica -, na qual o padrão rítmico assume um papel no mínimo tão importante como aquele que é proporcionado pelos encadeamentos melódicos e harmónicos, ganha um novo fôlego criativo numa gravação que aponta em múltiplas e admiráveis direcções. Para conferir nos diversos concertos da banda liderada por Stuart Staples que irão ocorrer no nosso país este ano.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:29 link do post
01 de Junho de 2016

 

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«Existe um leque cada vez mais variado de terapias alternativas que pretendem ser alternativas à medicina racional, a medicina que se ensina nas Faculdades, que se baseia em provas fundadas no método científico. Em geral, essas terapias agarram-se a verdades avulsas, mais próximas de uma crença religiosa do que do conhecimento científico. São amálgamas entre aquilo que os terapeutas alternativos consideram ser a medicina tradicional (que tem o seu valor cultural e nalguns casos alguma eficácia terapêutica) e ideias recentes, bem pouco sólidas, acerca de associações entre doenças e estilos de vida. Estas terapias alternativas caracterizam-se por recusarem toda a metodologia científica que valida um tratamento convencional e por, simultaneamente, escolherem a dedo certas ideias que apresentam como cientificamente comprovadas (por exemplo, que determinada raiz de uma planta tem uma acção anticancerígena). O melhor de dois mundos, à la carte, conforme servir a ocasião ou o público-alvo. (…) Uma farmácia também já não é um lugar seguro. Podemos encontrar nas prateleiras das farmácias todo o género de charlatanices, desde cosméticos caríssimos contendo nanopartículas que oferecem vantagens duvidosas em relação a alternativas muito baratas a suplementos vitamínicos de utilidade inexplicável e mesmo, nalguns casos, a aldrabices descaradas, como remédios homeopáticos. Há também um exército de delegados de propaganda médica que todos os dias, nos hospitais e consultórios, procura convencer os médicos de algumas coisas que são verdadeiros absurdos.»

David Marçal e Carlos Fiolhais, in Pipocas Com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência

23 de Maio de 2016

 

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Como avisa o seu autor - o reputado neurologista Alexandre Castro Caldas -, as páginas deste livro não ambicionam dar uma resposta às perguntas que tantas vezes se colocam (quem somos, o que é o cérebro ou quais as suas funções?), pois pretendem apenas abrir as portas para a reflexão. Com efeito, o convite à reflexão proposto por Uma Visita Politicamente Incorrecta ao Cérebro Humano infere-se da sua abordagem a uma sequência de assuntos entre os quais sobressai a forma como acreditamos nas coisas, a relação das ideias com os sonhos, a interacção do cérebro com a informação adquirida, a falta de memória provocada pelas doenças do cérebro, a vontade e o livre-arbítrio, os desafios do cruzamento entre o natural e o artificial ou as interpretações transcendentes. Possuidor de uma rara aptidão para clarificar assuntos complexos sem perder a necessária capacidade analítica, Alexandre Castro Caldas, perfilhando o modelo da evolução das espécies, propõe aos seus leitores uma curiosa e por vezes fascinante expedição às origens do cérebro humano, suas características e limitações. Explica o seu funcionamento, aprecia o dinamismo dos instrumentos sensoriais ou cognitivos e divulga uma série de experiências e ideias que transmitam aos curiosos um maior conhecimento sobre a actividade mental ou, empregando as palavras do investigador científico, sobre o que temos «dentro da nossa caixa craniana».

10 de Maio de 2016

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Nevertheless, what remains of Pentangle as an entity – six fearlessly inventive albums and, for the truly devoted, a string of lovingly curated youtube clips posted up your fans – bears shining testament to their colossal achievement. The music gathered on The Time Has Come doesn’t sound as good as it did back in the day – it sounds better. In a world where music fans no longer stick to what they know – where you iPod serves to show the world just how eclectic you are – Pentangle sound like they were built for these times. It was a point underscored when the group reconvened to receive a lifetime achievement gong at the BBC Radio 2 Folk Awards in February 2007. Hearing their music in that context – as vibrant, as forward-looking, as alive with possibilities as that made by award-winners half their age – was little short of revelatory. But then, if you know Pentangle, if you’ve lived with Pentangle, you’ll know this anyway. And if you haven’t - if this is your point of entry - then welcome aboard. Everything you’ve ever loved about music is contained here.

Pete Paphides, Chief Rock Critic, The Times

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:20 link do post
03 de Maio de 2016

 

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Dinis Machado escreveu uma peculiar série de crónicas e críticas sobre cinema, a sua história e correspondentes afinidades, agora reunidas n' O Lugar das Fitas. De filmes, estilos, cineastas, actores, enredos e memórias fala o saudoso autor num registo singular, elegante, justo e sedutor, deixando, sem forçar, bem vincadas as suas impressões digitais, que, não obstante a algo desorganizada edição post mortem da ainda assim preclara Quetzal (à beira de misturar alhos com bugalhos, com a inclusão de alguns textos fora do contexto), tem a capacidade de cativar o leitor pelo poder de observação e original ângulo de visão, como bem ilustra este belo naco de prosa «O universo de Bergman é ilimitado. Começa por merecer respeito a maneira como este cineasta sai das tendências, hábitos e escolas de toda a espécie de cinema menor. (…) E se nada mais houvesse que esperar deste notável cineasta, bastaria o tom elevado e múltiplo que o caracteriza para que fosse de novo aguardado, urgentemente. É o tipo de artista que será eternamente interessante, porque se compraz em descobrir seja o que for, calibrando a comunicação através de uma rigorosa capacidade objectiva.»

publicado por adignidadedadiferenca às 20:27 link do post
27 de Abril de 2016

 

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Samuel Asch, estudante universitário, desiste, após ser abandonado pela namorada, da sua pesquisa universitária – uma tese sobre a evolução da figura de Jesus na perspectiva dos judeus. Sem casa nem emprego, o protagonista do romance aceita o convite para cuidar de Gershom Wald, um septuagenário inválido, numa casa partilhada com Atalia Abravanel, uma mulher ambígua e estranha, mas plena de sensualidade. O interesse de Asch por Atalia e a companhia do velho Gershom Wald são o pretexto para a introdução de uma série de querelas filosóficas e religiosas ou revelações históricas sobre o processo de formação e transformação de Israel: a sua evolução, os conflitos, a violência e o reflexo das cicatrizes do passado; culminando numa interpretação muito peculiar que subverte a imagem do Judas que conhecemos da Bíblia, apresentando-o como o mais leal dos discípulos. Movimentando-se com desenvoltura entre o romance e o ensaio, num ritmo seco e cadenciado, a prosa áspera do escritor israelita, feita sobretudo de observação e pensamento, aperfeiçoada por uma escrita simultaneamente fina e descarnada que a sua vasta experiência lhe confere (texto depurado, quase só osso), desagua numa magnífica, erudita - pois também se aprende neste livro sobre história, política ou religião - e provocante obra sobre a condição humana, especialmente sobre a condição de ser judeu.

publicado por adignidadedadiferenca às 22:34 link do post
24 de Abril de 2016

 

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«No cinema, afirmou-se como estrela em Hollywood nos anos 70, construindo uma personagem grosso modo definida como a de um ícone de presença forte, lacónico em palavras e que, tanto na paisagem do western como na paisagem urbana das histórias policiai, se caracterizou por se colocar sempre não no interior do sistema, não ao seu lado, mas contra ele. Ou, pelo menos, numa posição de desafio sempre que o sentido de justiça lho exigia. Mesmo se logo no início desses anos 70, perseguiu projectos que, como actor, estendessem o seu campo de acção e destruíssem o estereótipo (…) e ainda que fosse quase sempre isso mesmo que tentou nos seus filmes no duplo papel de actor e realizador, o rasto da sua personagem cinematográfica manteve-se durante largo tempo mais poderoso do que os próprios projectos e a própria natureza do trabalho que neles desenvolveu. Se houve, e houve, quem fosse reconhecendo a assinatura de um estilo nos seus filmes como realizador, a consistência da sua abordagem, ainda nessa década, também é certo que lhe foram exigidas provas sobre provas nesse capítulo. (…) Sendo algo de profundamente enraizado na prática cinematográfica de Eastwood, a tradição do cinema clássico nunca é um modelo nos seus filmes. Ele não é o último dos clássicos muito embora a designação seja mais do que apregoada, tentadora. É alguém directamente vindo do cinema clássico, formado no cinema clássico, alguém cujo cinema tem e guarda o lastro do cinema clássico, mas que tem um olhar moderno. Como no princípio, continua a falar do cinema como um meio de contar histórias e é para contar histórias, diz ele ainda, que continua a filmar.»

Maria João Madeira, in Clint Eastwood, Um Homem Com Passado

 

13 de Abril de 2016

 

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Se há razões para recear que o jazz se converta brevemente numa língua musical morta, também se descobrem paradoxalmente vestígios de grande vitalidade. Com efeito, Michael Formanek, uma das vozes mais originais e estimulantes do jazz contemporâneo, autor de um curto mas valioso percurso musical, juntou-se desta feita ao Ensemble Kolossus para renovar de forma simultaneamente equilibrada, rigorosa e exuberante o conceito e a escrita das grandes orquestras de jazz, ampliando o percurso estético percorrido pela meritória Maria Schneider Orchestra. Recolhendo o melhor da tradição e contextualizando-a no mundo do jazz contemporâneo, a exímia formação liderada pelo contrabaixista, configurando em The Distance uma formidável gestão do tempo e do espaço, reinventa e desenvolve um ambiente de grande unidade e diversidade harmónica, rítmica e melódica, no qual convivem naturalmente peças de sublime e tocante melancolia, em contraponto com outras de puro divertimento, hipnóticas ou alucinadas, mas sempre enérgicas, inventivas e arrebatadoras.

 

 

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Pelo tema, enquadra-se nela sem grande esforço...
Fausto n e da tetralogia. Mas dolce. Q trata do du...
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