a dignidade da diferença
26 de Março de 2017

 

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«Embora nenhum conceito importante esteja para além do seu debate, a discussão acerca do populismo diz respeito não apenas ao que este é, mas até se este sequer existe. É, verdadeiramente, um conceito contestado quanto à sua essência. (…) Parte da confusão deriva do facto de o populismo ser um rótulo raras vezes usado pelas próprias pessoas ou organizações. Ao invés, é aplicado por terceiros, a maioria das vezes com uma conotação negativa. (…) Como o populismo não pode reivindicar um texto fundador ou um caso paradigmático, os académicos e os jornalistas usam o termo para referir fenómenos muito diferentes. (…) A abordagem do populismo enquanto “acção popular” trata-o como significando um modo de vida democrático construído graças ao envolvimento popular na política (…) a abordagem da acção popular considera o populismo essencialmente como uma força positiva para a mobilização das pessoas (comuns) e para o desenvolvimento de um modelo comunitário de democracia. Contempla uma interpretação (…) mais ampla e mais restrita dos agentes populistas do que a maioria das outras abordagens, incluindo quase todos os movimentos de massas progressivos».

Cas Mudde e Cristóbal Rovira Kaltwasser, in Populism – A Very Short Introduction

16 de Março de 2017

 

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Empenhar-me-ei sempre em tentar contrariar essa perigosa e julgo que evidente tendência para o gosto dominante do público se infantilizar. A acomodação maioritária do público à sua zona de conforto, a resignação ao consumo banal de fórmulas pré-fabricadas, uma certa preguiça mental absorvida por uma uniformização do pensamento, o escapismo como critério exclusivo de escolha, justificarão, por exemplo, o sucesso de inanidades da estirpe da família Carreira ou de ficção (em todos os sentidos) onde predominam os lugares-comuns, a indigência literária e as personagens rasas, “cromos” sem qualquer espessura dramática ou densidade psicológica. Se essa opção por algum facilitismo, simplismo e sentimentalismo deve ser combatida, também me parece, contudo, que a responsabilidade pelo crescente afastamento entre crítica e público deve ser partilhada. Com efeito, uma certa arrogância intelectual, algum pedantismo e pretensiosismo que vêm contaminando uma parte significativa da crítica “especializada” - que exibe sem pudor a sua admiração por certas provocações gratuitas (como aquela célebre do Tarkovski que cito de cor “faço planos longuíssimos para afastar os idiotas”) e trata um pouco o público como débil mental - são perfeitamente desnecessários. Um bom exemplo para ilustrar essa aparente necessidade de dificultar o acesso a tais luminárias é exibido na crítica publicada no Ípsilon à recente edição de um livro que reúne uma série de textos de Serge Daney, traduzidos para português. Num texto elaborado em tons francamente elogiosos – conferidos pelas quatro estrelas atribuídas à obra – sobressai esta descrição do (re) conhecido crítico dos Cahiers do Cinéma (que terá os seus méritos): “os textos deste período (representados no capítulo mais longo do livro) assumem uma densidade e complexidade tais que se tornam quase impenetráveis. Curiosamente, sendo um autor que a Academia demorou a acolher (…) aproximam-se de uma certa prosa académica, tanto na forma (rebuscada, quase complicativa) como no conteúdo (a oposição entre “visual” e “imagem” encontrará eco na obra de Marie-José Mondzain). Por vezes parecia estar a tentar dar expressão ao inefável ou a algo difícil de definir (não de uma forma apaixonada, como os críticos da geração anterior, antes analítica, de médico legista).” O tipo de crítica que vem significativamente invadindo as páginas do Ípsilon, tão inteligente que praticamente ninguém a compreende. Uma espécie de falso elitismo.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:32 link do post
24 de Fevereiro de 2017

 

Autor Flamengo Desconhecido Vista da Rua Nova dos

Autor Flamengo Desconhecido, Vista da Rua Nova dos Mercadores

 

Segundo as organizadoras – da exposição “A Cidade Global. Lisboa no Renascimento”, no Museu Nacional de Arte Antiga – são cinco as razões que justificam conceptualizar a Lisboa quinhentista como uma cidade global: o facto de ter estado no centro da circulação de produtos comerciais; ter concentrado em si uma população misturada, de indígenas (entenda-se, lisboetas ou portugueses), outros europeus e de povos de todo o globo; ter tido uma “consciência global”; ter sido reconhecida por outras cidades como detentora dessa capacidade; e, por último, a de ter estado na vanguarda de novas formas de conhecimento, de tecnologia e de comunicação. Muito haveria a dizer acerca desta perspectiva de Lisboa, de Portugal, do seu império e dos gloriosos tempos manuelinos. Longe de ser original, ela forma uma espécie de lengalenga que se instalou, sob a forma de impensado, em teses, livros e exposições. Corresponde, em geral, a uma versão eufemística do glorioso passado português, agora recoberto de um vocabulário importado das ciências sociais, onde a noção de rede, a viagem dos objectos, a escala global e as relações entre conhecimento, informação e poder são alvo de conceptualizações superficiais. Mais: trata-se de uma perspectiva que tende a constituir-se numa espécie de cartilha neo-luso-tropicalista, que não deixa de se actualizar, incluindo uma referência aos aspectos económicos e comerciais, nem tão-pouco deixa de aludir a populações mistas, as quais sugerem uma espécie de carácter híbrido new age. Vinho novo em odres velhos (…) também agora, a propósito de Lisboa, como cidade global, volta a estar presente a cartilha luso-tropical. (…) Existem outras interpretações e outra historiografia – mais analítica, mais crítica, menos patrioteira e avessa à utilização celebrativa da história – que talvez pudesse interrogar Lisboa numa perspectiva global. Estabelecendo comparações, percebendo diferenças e desigualdades, procurando captar os diferentes modos de discriminação étnica ou racial que a cidade gerou, fruto de diferentes medos e preconceitos, historicamente situados. (…) Uma historiografia, com certeza mais pautada pelas lógicas de controlo dos poderes da coroa, do município, das diferentes confrarias e irmandades que se vão organizando e que se articulam com a Igreja renovada por Trento.

Diogo Ramada Curto, Historiador, in A Revista E, 18 de Fevereiro

publicado por adignidadedadiferenca às 18:14 link do post
20 de Fevereiro de 2017

 

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A Comissária, filme realizado em 1967 por Aleksandr Askoldov, um autor praticamente desconhecido, foi proibido na União Soviética pelas autoridades durante mais de vinte anos, revelando-se apenas em 1988, ano em que percorreu o circuito mundial de festivais de cinema e conquistou o Prémio Especial do Júri no Festival de Berlim. Situado cronologicamente durante o período da guerra civil (1918-1922), após a revolução bolchevique, a obra de Askoldov descreve a história de uma mulher, comissária do exército, fervorosamente patriótica e partidária, que, para continuar a combater, pretendia abortar o seu feto (e Askoldov explora sem concessões a crueldade dessa escolha). Tendo, contudo, deixado descuidadamente decorrer o tempo útil para o poder fazer, acabou por dar à luz um filho indesejado. Esses derradeiros dias da gravidez são vividos conjuntamente com uma família judaica que suporta a crueza e as agruras do dia-a-dia. Sustentado por uma magnífica mise-en-scène, na qual evolui com destreza um verdadeiro tratado sobre relações humanas – entre vizinhos, amigos, cônjuges, crianças, pais e filhos – o cineasta consegue convencer-nos da autenticidade da mudança que ocorre no espírito da comissária, provocada pela convivência com a dor e a visão onírica do casal de judeus, a sua desarmante simplicidade e o cuidado com os filhos, vencendo o conflito interior entre o desejo de combater ao lado dos seus camaradas e a condição maternal, demonstrando uma crescente afeição pelo rebento. O retrato dessa extrema experiência de vida, dos dramas familiares, bem como as inusitadas alusões ao holocausto ou ao regime totalitário de Estaline – ilustradas, por exemplo, numa soberba, inquietante e tensa sequência protagonizada pelas crianças, filhos do casal de judeus – sobressai num filme matizado pela magnífica fotografia a preto-e-branco, pela elaborada composição dos planos (elegantes, violentos, tranquilos ou doloridos, em tudo similares à existência que vão exibindo) e pelas profundidade, solidez e expressividade dos actores, características que contribuem necessariamente para a excelência de um filme único (em todos os sentidos) que recomendo vivamente.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:43 link do post
09 de Fevereiro de 2017

 

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A história significa as acções e as criações dos nossos antepassados, que nos trouxeram até ao ponto a partir do qual nós prosseguimos inexoravelmente. Desde tempos imemoráveis que os homens conhecem a sua história através de mitos e lendas; desde a invenção da escrita, pelo registo das suas experiências e actuações, que tinha como fim furtá-las ao esquecimento. A história como ciência é diferente. Nesse caso, queremos saber o que realmente aconteceu. Por isso nos atemos às realidades ainda presentes, às chamadas fontes, aos documentos, aos relatos de testemunhas, às edificações e às prestações técnicas, às criações literárias e artísticas. Todas elas são perceptíveis, mas contanto que se compreenda o sentido que nelas se exprime. A ciência chega até ao ponto em que nós entendemos correctamente aquilo que nos é realmente transmitido e em que podemos comprovar que são correctas as declarações de testemunhas. Para ser puro, o conteúdo da ciência separa-se do teor dos mitos e do teor das histórias sagradas. Os testemunhos das histórias sagradas não atestam factos, são antes declarações do género: «nós acreditamos que…». Aquilo que os crentes nos dão prova é algo que nós, mesmo que então tivéssemos estado presentes, não poderíamos, sem a crença, atestar como facto. Tal como todas as ciências, também a ciência história se debate com limites. A enorme ampliação do nosso saber, penetrando no passado e em domínios antes desconhecidos, gerou a expectativa de se poderem ultrapassar os limites. Ou seja, chegaremos até ao início da história. Mas a ciência ensina-nos a modéstia perante o segredo. Não é possível prever, na verdade, a abertura dos espaços de tempo em que ainda não penetrámos e que somente se denunciam por poucos indícios. Mas cada início, mesmo o começo de algo novo no âmbito da história, coloca-nos perante um mistério, no qual a origem permanece fechada ao saber.

Karl Jaspers, in «Pequena Escola do Pensamento Filosófico»

28 de Janeiro de 2017

 

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Se António Costa, prometendo um acordo de concertação social que não podia cumprir, ficou bastante mal na fotografia, o que dizer de Pedro Passos Coelho? Adoptando uma estratégia – perfeitamente legítima, note-se – segundo a qual este governo PS apenas pode contar com os seus “parceiros” de bancada parlamentar para viabilizar qualquer medida da sua autoria, o antigo primeiro-ministro, decidindo circunstancialmente rejeitar uma proposta de redução da TSU que o seu partido já defendeu anteriormente (e também como contrapartida do aumento do SMN), cola a si uma indesejável imagem de político azedo e ressabiado que lhe trará brevemente muito mais prejuízos que benefícios.

publicado por adignidadedadiferenca às 13:23 link do post
25 de Janeiro de 2017

 

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Com a notícia da morte do avô de Jake os seus pais resolvem mudar-se para um apartamento em Brooklyn que receberam da herança, sendo aí recebidos pelos futuros vizinhos, Tony e sua mãe (que explora a loja arrendada pelo falecido). A história rapidamente evolui para uma situação de conflito crescente entre os pais de Jake e a mãe de Tony, o qual proveio dos problemas financeiros que afectam o mundo dos adultos e vai condicionar a progressiva cumplicidade entre os miúdos, até colocar um ponto final nessa bela relação de amizade. Adoptando um registo contido e realista em que sobressai uma intencional ausência de estilo, a câmara tem uma presenta discreta e minimalista. Esta atitude do cineasta não significa, contudo, qualquer desinteresse pela matéria de que se ocupa, pois o olhar que prevalece sobre os gestos mais banais do quotidiano e esses momentos em que se diz definitivamente adeus à inocência, provavelmente assimilado na escrita de um Raymond Carver ou na visão de Moonfleet (genial filme de Fritz Lang), é, não obstante a subtileza e a economia narrativa, bem sentido e penetrante. Sucessor do magnífico Love is Strange, Little Men é uma belíssima e agridoce composição sobre o ciclo de uma amizade, cuja sensibilidade para encenar as angústias do crescimento soa como sublime música de câmara.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:06 link do post
31 de Dezembro de 2016

David Bowie e Leonard Cohen ofereceram-nos duas magníficas despedidas. Blackstar é o melhor trabalho de Bowie desde 1.Outside (1995) e Cohen não gravava nada tão bom desde o sublime Songs of Love and Hate (1971). Mas a terceira idade não ficou por aqui: também Paul Simon deixou a sua marca este ano com o extraordinário e ousado Stranger to Stranger e Iggy Pop com o inesperadamente óptimo Post Pop Depression. Se adiantarmos que PJ Harvey (autora do fabuloso The Hope Six Demolition Project) e os Tindersticks (que exploraram novos caminhos, ampliando a sua paleta sonora em The Waiting Room) já andam nestas andanças há três décadas, será caso para afirmar que em 2017 impôs-se a veterania. Numa lista tão curta ficou de fora algo injustamente o regresso de Shirley Collins, após um longuíssimo interregno, bem como as óptimas gravações de Charlie Hilton, Christy Moore, Fred Hersch e Gisela João, o prodígio de improvisação do último álbum do saxofonista Henry Threadgill, a voz extraordinária de Anna Netrebko (oiçam-na em Verismo), La Mascarade, de Rolf Lislevand, e ainda as clássicas interpretações de Harnoncourt (quarta e quinta sinfonias de Beethoven) e Daniil Trifonov.

 

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PJ Harvey, "The Hope Six Demolition Project"

 

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Michael Formanek/Ensemble Kolossus, "The Distance"

 

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BADBADNOTGOOD IV 

 

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Ensemble Céladon/Paulin Bündgen, "The Love Songs of Jehan de Lescurel"

 

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Paul Simon, "Stranger to Stranger"

 

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William S. Burroughs, "Let Me Hang You"

 

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Alisa Weilerstein/Pablo Heras-Casado, "Shostakovich: Cello Concertos 1, 2"

 

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Anna Meredith, "Varmints"

 

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Tindersticks, "The Waiting Room"

 

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Sampladélicos, "Não Nos Dexeis Cair em Tradição"

 

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Mark Dresser Seven, "Sedimental You"

 

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Lucia Cadotsch, "Speak Low"

publicado por adignidadedadiferenca às 21:12 link do post
26 de Dezembro de 2016

 

Entre o que de mais relevante passou pelas salas de cinema portuguesas, o destaque vai para os inconformistas e desafiantes Apichatpong Weerasethakul e Paul Verhoeven (com o inquietante e moralmente ambíguo Elle), os promissores e desconcertantes László Nemes (autor de um soberbo filme sobre os campos de extermínio nazis) e Corneliu Porumboiu, o sublime classicismo de Ira Sachs, o belo regresso de Pedro Almodóvar ao melodrama ou a descoberta dos prodigiosos Boris Barnet (o mudo A Casa na Praça Trúbnaia) e Larissa Shepitko (com Asas e, sobretudo, Ascensão) na recente e marcante exibição do Ciclo de Cinema Russo no Cinema Nimas. O último e magnífico filme de Hou Hsiao-Hsien, A Assassina, fica de fora por já ter feito parte das escolhas de 2015. Uma última palavra para Well Or High Water (Custe o Que Custar!), cujo autor, David Mackenzie, foi capaz de trabalhar e renovar a herança de Sam Peckinpah e para Os Oito Odiados, um Quentin Tarantino peculiar, que só não integra a lista porque apenas reservei lugar para dez escolhas, que também poderiam incluir os óptimos A Academia das Musas, de José Luis Guerín, e Eu, Daniel Blake, de Ken Loach...

 

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Experimenter, de Michael Almereyda

 

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Julieta, de Pedro Almodóvar

 

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A Casa na Praça Trúbnaia, de Boris Barnet

 

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Hell Or High Water, de David Mackenzie

 

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O Filho de Saul, de László Nemes

 

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Tesouro, de Corneliu Porumboiu

 

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O Amor é Uma Coisa Estranha, de Ira Sachs

 

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Ascensão, de Larissa Shepitko

 

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Ela, de Paul Verhoeven

 

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Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul

publicado por adignidadedadiferenca às 19:56 link do post
23 de Dezembro de 2016

 

Escutamos com frequência o velho discurso com cheiro a mofo sobre a falta de valores. Diz-se, então, que o mundo está perdido e que vivemos na era do vazio e da ausência de valores. A ladainha repete-se em vários registos: No meu tempo havia valores que agora já não existem, dizem os mais velhos de espírito. Na minha época o respeito era uma coisa muito bonita. Hoje, os jovens estão perdidos e não têm valores; os pais não educam os filhos, os filhos não respeitam os pais, os estudantes não respeitam os professores, ninguém respeita a autoridade nem os mais velhos. É o discurso de quem já se esqueceu que foi jovem, que já ouviu em tempos essas palavras da boca de alguém mais velho e, agora, se esqueceu de que não gostou. (…) Este discurso fácil e que deixa transparecer algum azedume pouco acrescenta à nossa reflexão. A ideia de que não existem valores, de que o mundo está perdido e os jovens desorientados, de que impera a lei do mais forte, de que tudo é uma selva sem referências é, segundo Hegel, o manifesto da consciência infeliz. Na realidade, nunca há crise de valores. O que há são discursos pouco entusiastas que afirmam a falta de valores. Há azedumes que ficam como calcário agarrado e incrustado nos canos velhos. Temos solução para os canos. Também haverá solução para o azedume. (…) Nunca existiram tantos valores como hoje. Talvez tudo se tenha tornado mais confuso ou complexo, apenas isso. Deus, pátria e família deixou de ser um menu exclusivo. Hoje temos uma multiplicidade de escolhas.

 

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O mundo está repleto de valores e de causas (…) Ecologia, ambiente, sustentabilidade, energias renováveis, acessibilidades, direitos dos animais, defesa da terra, defesa das minorias, defesa das vozes diferentes, defesa das mulheres, das crianças, dos velhos, defesa dos deficientes, dos direitos humanos, do património, da qualidade de vida, dos pobres, dos emigrantes, dos excluídos, da equidade, contra o tráfico de pessoas, protecção às vítimas, protecção aos dissidentes e aos refugiados. Contra a ganância de banqueiros, a sociedade criou bancos alimentares, bancos de ajuda, bancos de horas e bancas de voluntários prestes a ajudar. Existem dias de tudo e mais alguma coisa. Cidadania. Associações locais, culturais, desportivas e recreativas. Talvez nunca, como no século XXI, tenha havido tantas associações cívicas, tantas movimentações, tanta consciência de direitos e deveres. Para uns, mais consciência de direitos do que deveres, mas sempre apelos à sociedade civil. (…) O mundo tornou-se mais complexo (…) A perplexidade surge quando descobrimos incoerências e contradições ou quando somos confrontados com um problema ao qual podem ser aplicados princípios conflituantes. (…) O problema não é geracional. Já não é preocupante se os filhos afirmam valores diferentes dos pais. No mesmo espaço, no mesmo tempo, na mesma geração, coexistem visões distintas, causas diversas.

Mendo Henriques e Nazaré Barros in Olá, Consciência! Uma Viagem Pela Filosofia

14 de Dezembro de 2016

Entre edições e reedições de uma série de obras de ficção, poesia, história, política, cinema, religião, ensaio, divulgação científica e filosofia, estes terão sido os livros que mais gostei de ler durante o corrente ano. De fora ficaram os óptimos e potencialmente elegíveis Sangue Azul Gelado, do russo Iúri Buida, retrato desencantado e original de uma actriz que procura ambientar-se num clima hostil, e O Antigo Egipto, de Donald P. Ryan, onde é sugerida uma fascinante viagem a lugares míticos do Egipto. Doze livros para doze meses, correspondendo cada um deles a um dos meses do ano, dispostos por ordem alfabética. Injusto seria não realçar que também poderiam estar aqui o Ricardo Araújo Pereira, com as suas singulares considerações sobre o humor, enunciadas no recente A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar, bem como a reedição das labaredas do intenso Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar, prémio Camões 2016...

 

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Poemas Escolhidos, de T. S. Eliot

 

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Pequena Escola do Pensamento Filosófico, de Karl Jaspers

 

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Bisonte, de Daniel Jonas

 

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A Paixão da Física, de Walter Lewin e Warren Goldstein

 

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Uma Causa Improcedente, de Claudio Magris

 

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O Islão e o Ocidente, A Grande Discórdia, de Jaime Nogueira Pinto

 

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Judas, de Amos Oz

 

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Eugénio Onéguin, de Aleksandr Púchkin

 

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A Descrição da Infelicidade, de W. G. Sebald

 

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O Caso do Camarada Tulaev, de Victor Serge

 

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Como Ver Um Filme, de David Thomson

 

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Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes

publicado por adignidadedadiferenca às 17:52 link do post
12 de Dezembro de 2016

 

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Hell Or High Water (Custe o que Custar), de David Mackenzie, vale pela destreza de uma história bem contada, acerca de dois irmãos que se tornam assaltantes de bancos para salvar um rancho da família hipotecado e de um xerife (interpretado por Jeff Bridges) à beira da reforma que os persegue, sustentada pela solidez e inspiração de um argumento engenhoso (escrito pelo promissor Taylor Sheridan), e serve de pretexto para uma visão desencantada do mundo, em que sobressai a agilidade e a secura de uma câmara que se apega com naturalidade a personagens de carne e osso, bem como à paisagem deserta que os envolve, movimentando-se com desembaraço num clima de progressiva tensão, compondo um determinado tipo de cinema que recebe a herança marcante de Sam Peckinpah, reinventando um método capaz de dosear de forma equilibrada mas apaixonada, sangue, drama, violência e acção, com banda sonora a condizer. Eis uma das boas surpresas do ano.

 

 

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