a dignidade da diferença
19 de Outubro de 2014

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Sequência natural do anterior e igualmente meritório «Os Privilegiados», do jornalista Gustavo Sampaio, «Os Facilitadores», publicado no mês passado, prossegue o magnífico trabalho de investigação daquele. Se «Os Privilegiados» já nos oferecia uma notável visão panorâmica da promiscuidade entre o mundo da política e as actividades económico-financeiras, e entre as funções públicas e os interesses privados, na qual sobressai o tráfico de influências ou a rede de interesses convergentes entre a classe política, as empresas públicas e os negócios privados, o mais recente trabalho de Gustavo Sampaio investiga o sistema de correspondência entre o poder político, as sociedades de advogados e os interesses empresariais. O jornalista em regime «freelancer» mantém o seu «modus operandi»: sistematiza e revela as listas de clientes das maiores sociedades de advogados, a sua participação na produção legislativa ou na regulação, e a conexão político-empresarial – desde o recrutamento de políticos até à acumulação de cargos de administração nas grandes empresas. Colocando sucessivamente a questão sobre a causalidade ou a intenção nesta abundância de «padrões, coincidências e interligações», Gustavo Sampaio evita as ideias pré-concebidas e os juízos de valor, tratando o leitor com o respeito que este merece, permitindo-lhe tirar as suas próprias conclusões. Uma obra notável que evidencia a marca indelével de um sistema viciado e a sua viscosa realidade, onde as principais sociedades de advogados tanto representam o interesse público como o sector privado. Em ocasiões distintas ou em simultâneo, entre pontenciais e previsíveis conflitos de interesses.

12 de Outubro de 2014

 

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O estabelecimento e desenvolvimento de relações de cumplicidade com os Estados do Golfo - alguns deles aliados de hoje mas previsíveis inimigos de amanhã -, o fornecimento de armas e o financiamento de organizações terroristas que foram sucessivamente piorando, e o desequilíbrio da realpolitik que advém do desconhecimento da História, dos erros de avaliação e de estratégia, permitiram o crescimento de uma organização de assassinos perigosos, dementes ideológicos a coberto de uma interpretação fanatizada do Corão. Com este grupo assassino de islamo-fascistas que procura instalar pelo terror um Estado governado pela sharia, regressa a barbárie. Degolando pessoas enquanto o diabo esfrega o olho e violando mulheres a eito, estas bestas odeiam e abatem todos aqueles que discordam da sua pureza interpretativa da sharia. Neste momento, por uma questão de sobrevivência, apesar de outras ameaças, a prioridade é combater militarmente o avanço do terror do Estado Islâmico (EI). Cinicamente abandonados à sua sorte pela falência moral do Ocidente, o valente povo curdo de Kobane, na Síria, junto à fronteira com a Turquia, desde que foi assaltado pelo horror do ISIS, não tem feito outra coisa. Por eles e por nós.

publicado por adignidadedadiferenca às 19:58 link do post
05 de Outubro de 2014

 

A Igreja Católica tem sido muito justamente acusada de não acompanhar a evolução da sociedade e as mudanças do seu modelo familiar. No seu discurso oficial sobre a homossexualidade, por exemplo, a instituição religiosa dá sinais preocupantes de incompreensão e condenação moral. A propósito de uma reportagem do semanário Expresso desta semana sobre o primeiro congresso mundial de homossexuais católicos em Portimão, percebe-se que hoje em dia, felizmente, existe uma minoria católica que vem contestando esta visão reaccionária da sociedade. Um dos exemplos mais notáveis é o de Frei Bento Domingues. O frade dominicano nem sempre está de acordo com o discurso oficial da Igreja, afastando-se amiúde das suas incoerências e imposições absurdas. Como agora, ao alertar para a necessidade de renovação do pensamento sobre esta matéria. A sua voz é a de alguém que pensa pela sua cabeça, própria de um espírito livre, incómodo e aberto à mudança. Escutem o que ele disse na referida reportagem: «Como é que se vai exigir a pessoas que não escolheram ser homossexuais e que têm impulsos, desejos e afectos que não o sejam? O importante é que as pessoas sejam “eticamente honestas” nas suas relações. Nem aos homossexuais vale tudo, nem aos heterossexuais vale tudo. O casamento entre homossexuais é um problema que tem de ser debatido na Igreja, não por ser pecado ou não mas porque havia um modelo de família e agora aparece outro (…) que nunca foi estudo nem reflectido. É um bom momento para ter essa discussão.» Uma lufada de ar fresco no discurso maioritariamente bafiento da Igreja Católica.

29 de Setembro de 2014

 

 

«Tim Buckley possessed a golden voice that spanned the range from baritone to tenor. More importantly, he knew what to do with it. Sometimes he used it simply as a vehicle to carry the lyrics. Other times he used it as an extraordinary musical instrument in its own right. Standing on stage beside him, playing guitar, listening to the compassion, hope, tenderness, anguish, wistfulness, love and power surging through his voice, I often felt my spine shiver with goosebumps. Between 1966 and 1975, Buckley released nine albums. Throughout that time, he sang like nobody else I’ve ever heard.»

Lee Underwood

 

 

22 de Setembro de 2014

 

 

O programa «Prós e Contras» desta noite, sobre a reforma do mapa judiciário, veio confirmar, uma vez mais, aquilo que há muito tempo se passa nos debates públicos a partir de determinado momento da discussão. Começando num tom pausado e em ritmo de cruzeiro, a discussão torna-se, com a evolução do debate, quase ensurdecedora. Se, no início, é possível escutar os convidados, um pouco mais adiante já não conseguimos ouvir ninguém. Claro que a mediação da apresentadora Fátima Campos Ferreira não ajudou a elevar o nível da contenda: as suas desnecessárias e incontinentes intervenções, interrompendo constantemente o raciocínio dos intervenientes – governantes, advogados, funcionários judiciais, sindicalistas, procuradores e simples cidadãos -, conduziram o programa a um lamentável estado de decomposição. Cada pessoa começou a falar isoladamente ao mesmo tempo que as outras; amiúde, alguns esganiçam-se diante dos outros. Já não importa ser escutado e compreendido. A assistência cede perante os argumentos de quem eleva o tom de voz, fala em último lugar e não se preocupa sequer com a opinião dos restantes interlocutores. Com raras e meritórias excepções, o que sobressai nos sucessivos «Prós e Contras» é a incapacidade de falarmos com o outro, de o escutar, e isso, como avisou acertadamente José Gil, tem consequências no pensamento e conduz à falta de atenção e de concentração. A dispersão das palavras, por sua vez, impede a análise. Por isso, citando novamente José Gil: «pensamos tão pouco, e de forma rotineira, geral e superficial.»

16 de Setembro de 2014

 

Baco, de Velázquez, 1628/29

 

«Velázquez apanha nos seus modelos o que lhe parece importante ou digno de ser estudado. […] No entanto, com uma espantosa segurança, Velázquez transforma sempre essas influências num incomparável estilo pessoal. A delicadeza pictórica crescente exibida pelo artista, a mestria com que sonda as profundezas do conteúdo, a sua superioridade na arte da composição permitem reconhecer o génio sob a superfície do que ainda está a aprender. […] O “Baco”, pintado em 1928/29 por ordem do rei, ilustra um pouco melhor as razões artísticas de uma carreira exemplar. Sobre um fundo campestre, Baco, deus do vinho e das orgias, seminu e com o dorso roliço brilhante e de uma brancura quase doentia, coloca uma coroa de hera sobre a cabeça de um camponês ajoelhado diante de si. Homens de rostos bronzeados seguem a paródia de coroação com expressões aparentemente divertidas ou receosas, rodeando o deus como se ele fosse um dos seus companheiros.

 

Baco, de Caravaggio, c. 1598

 

Neste quadro, os camponeses não são os labregos que servem para fazer sobressair um nobre universo ideal, como acontecia tantas vezes na literatura e na pintura da época. Pelo contrário, são precisamente eles que criam pelo seu duro trabalho a base da prosperidade social; como agradecimento, o deus concede-lhes as alegrias do vinho e a liberdade de um dia de repouso. Certos pormenores deste quadro mantêm-se fiéis à tradição do “bodegón” e a influência de Caravaggio é ainda claramente sentida – tanto na utilização directa dos motivos como pela obliquidade dos modelos de tipos do caravagista espanhol Josep de Ribera (1591-1952). Mas o próprio Ribera, que criou as suas principais obras para o vice-rei de Nápoles, é a prova de que o caravagismo, considerado demasiado plebeu, não podia durar muito nas cortes reais. E Velázquez teria ele também de mudar de estilo e de se dirigir para outros modelos.»

Wolf, Norbert. Velázquez. Tradução de Maria Eugénia Ribeiro da Fonseca, Taschen, 2004.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:29 link do post
09 de Setembro de 2014

 

Portugal, Hoje O Medo de Existir, de José Gil, é uma radiografia impressiva da nossa mentalidade e dos nossos comportamentos enquanto indivíduos e comunidade. Nas palavras do autor: «nada acontece, nada se inscreve na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico.» José Gil aponta o dedo a uma sociedade fechada interiormente, a um país praticamente resignado e impotente em que o espaço público é fechado e sem debate político, a crítica: «descamba maioritariamente no insulto pessoal ou no elogio sobrevalorizante», e o mundo artístico se alimenta do queixume e do ressentimento. Os males detectados são públicos: Desconhecimento das regras básicas de funcionamento da democracia, resignação perante os dissabores, medo de agir e conformismo geral. O seu conjunto terá necessariamente que conduzir um país à passividade, à inércia e ao imobilismo, ou, no limite, ao seu possível desaparecimento. Não se debruçando voluntariamente sobre o que Portugal terá de bom, escrevendo apenas a respeito das causas que durante a sua evolução impedem «a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade», José Gil elaborou um livro fundamental para compreendermos determinados sinais que obstam ao nosso desenvolvimento colectivo, não obstante nos deixar excessivamente deprimidos e preocupados.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:47 link do post
05 de Setembro de 2014

 

 

«Maurizio Pollini plays all 18 of these nocturnes (as well as the posthumously published Nocturne op. post. 72 no. 1) in the present record, a decision inspired not only by his wish to offer as complete as possible an account of one particular type of work from the Polish composer’s pen but also, and above all, to demonstrate Chopin’s development within these character pieces and to draw attention to the differences that exist between them: “All of them are of course lyrical in tone, but there are also vast differences between them. This is itself makes a cyclical recording sufficiently interesting – simply because enough contrasts can be heard in them.” Pollini has, of course, been drawn to Chopin’s music ever since winning the prestigious Chopin Piano Competition in Warsaw in 1960: “Once I’d won the Warsaw Chopin Competition, Chopin’s music became a part of my life.” It goes without saying that Pollini is interested not only in bringing out the sense of dramatic development within these pieces but also in the element of bel canto, which in his eyes plays a major role here. But in stressing the importance of this element, he also views it in a broader context.»

Carsten Dürer

 

30 de Agosto de 2014

 

 

Não será fácil recriar a música de um génio da estirpe de Miles Davis. Porém, paradoxalmente, talvez por causa da excelência do seu universo musical, a tentação tem sido grande. Nos melhores exemplos, a reinterpretação cumpre o seu papel; contudo, não obstante o seu brio, nunca consegue suplantar uma música inventada previamente. Mas com Joe Henderson, em 1993, o resultado foi diferente. Observando detalhadamente a anatomia musical de Miles Davis, Henderson assimila integralmente o espírito do mestre, explora as suas formas e substância musicais até ao osso, os seus estímulos, inquietações ou contradições, e tempera-os com uma dose equilibrada e vibrante de lirismo, acuidade rítmica, improvisação, sentido arquitectónico e intensidade melódica. Recorrendo a um quarteto - formado por si, John Scoffield, Dave Holland e All Foster -, Joe Henderson introduz novas e inesperadas gradações na estrutura musical dos standards de Miles - aqui e ali pontuados por uma assinalável contenção sonora, onde nada é supérfluo -, conquista uma liberdade estética que outros não conseguiram, conduzindo-os amiúde até ao mais absoluto silêncio. Decorridas duas décadas, So Near, So Far não ganhou uma única ruga e é, ainda hoje, um álbum rigorosamente essencial.

 

24 de Agosto de 2014


«Existirá algum modo de conferir sentido aos tempos que vivemos, repletos de guerra e destruição?» A reflexão de Hannah Arendt sobre a violência e as suas motivações, num ensaio político escrito em 1969, fornece aos seus leitores as ferramentas necessárias para analisar e pensar o mundo de ontem e o actual (bem mais conturbado). Opondo-se à banalização da violência, a autora expõe as suas preocupações e recomendações. As primeiras consistem essencialmente num exame contextualizado à «relação entre guerra, política, violência e poder» e à inquietante descontinuidade entre passado e futuro; por sua vez, para combater a disseminação e a multiplicação descontrolada de sucessivos focos de violência, esta não deve escapar ao poder e à autoridade. Poder e violência são incompatíveis. Quando, como refere Hannah Arendt, alguém (governantes ou governados) detém o poder e sente que este lhe escapou das mãos, dificilmente resiste ao desejo ou à vontade de o trocar pela violência. Dito de outra forma, «toda a diminuição de poder é um convite aberto à violência». Construído e evoluindo numa linguagem elegante e francamente acessível, Sobre a Violência mantém, em suma, uma importância assinalável para tentar compreender os crescentes conflitos das sociedades hodiernas - nacionalismos, fundamentalismos, guerras e revoluções - e combater a sua erosão moral, revelando toda a actualidade e pertinência do pensamento político da sua autora.
publicado por adignidadedadiferenca às 20:27 link do post
17 de Agosto de 2014

«O que eu também defendo é que existe uma diferença entre o conhecimento de outros povos e de outros tempos que é produto do entendimento, da compaixão, do estudo cuidadoso e da análise séria, e, por outro lado, o conhecimento (…) que faz parte de uma abrangente campanha de auto-afirmação, beligerância e guerra directa. Existe, afinal de contas, uma profunda diferença entre a vontade compreender por razões de co-existência e de alargamento de horizontes humanísticos, e a vontade de dominar por razões de controlo e domínio externo. É com certeza uma das catástrofes intelectuais da história que uma guerra imperialista, confeccionada por um pequeno grupo de oficiais norte-americanos não-eleitos (…) tenha sido lançada contra uma ditadura do Terceiro Mundo (já devastada) por razões unicamente ideológicas, que se prendem com o domínio do mundo, o controlo da segurança e a escassez de reservas, mas cujas verdadeiras intenções foram mascaradas, apressadas e justificadas por orientalistas que traíram a sua vocação de eruditos.»

Edward W. Said, Orientalismo

 

 

Segundo o autor, o Orientalismo consiste genericamente num estilo de pensamento que distingue Ocidente e Oriente – diferença ontológica e epistemológica – como ponto de partida para produzir teorias políticas e sociais, romances ou epopeias a respeito do oriente, da sua gente, cultura, dos seus costumes, desígnios e mentalidade. Essa distinção foi aceite por uma assinalável quantidade de académicos, romancistas, filósofos, poetas, políticos, economistas ou administradores imperiais. Material e historicamente, para Edward Said, o Orientalismo pode significar ainda um estilo ocidental desenvolvido para dominar, reestruturar e exercer influência sobre o Oriente.

publicado por adignidadedadiferenca às 18:44 link do post
14 de Agosto de 2014

  

 

Ricardo Rocha queixa-se de uma série de obstáculos técnicos da guitarra portuguesa, por ser «um instrumento extremamente limitado e cheio de falhas do ponto de vista técnico e dos sons que supostamente se querem ouvir mas que na prática não se conseguem ouvir porque não se conseguem fazer» (Público, de 20 de Julho). Não obstante, socorrendo-se da figura da heteronímia, cara a Fernando Pessoa, cria com notável engenho virtuosístico um quarteto de guitarras imaginário – segundo o autor, de impossível concretização prática imediata – que lhe permite aliviar as suas frustrações e superar as dificuldades levantadas pela execução do instrumento. Recuperando um conjunto de peças que tinha atirado para o fundo de uma gaveta, Ricardo Rocha contraria os seus justificados receios e grava Resplandecente, uma obra muito conseguida, de uma unidade espantosa, conciliando uma diversidade de estilos e idiomas musicais, atravessando os territórios do impressionismo, do romantismo e do minimalismo, onde sobressai o silêncio como elemento preponderante ou ponte de ligação entre sobreposições de escala e de padrões rítmicos e harmónicos, repetições à Steve Reich, escorreitos e tensos exercícios de convergência de «sonhos, cores, imagens e sensações» e minuciosas miniaturas de inegável valor expressivo.

publicado por adignidadedadiferenca às 20:48 link do post
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