a dignidade da diferença
16 de Setembro de 2014

 

Baco, de Velázquez, 1628/29

 

«Velázquez apanha nos seus modelos o que lhe parece importante ou digno de ser estudado. […] No entanto, com uma espantosa segurança, Velázquez transforma sempre essas influências num incomparável estilo pessoal. A delicadeza pictórica crescente exibida pelo artista, a mestria com que sonda as profundezas do conteúdo, a sua superioridade na arte da composição permitem reconhecer o génio sob a superfície do que ainda está a aprender. […] O “Baco”, pintado em 1928/29 por ordem do rei, ilustra um pouco melhor as razões artísticas de uma carreira exemplar. Sobre um fundo campestre, Baco, deus do vinho e das orgias, seminu e com o dorso roliço brilhante e de uma brancura quase doentia, coloca uma coroa de hera sobre a cabeça de um camponês ajoelhado diante de si. Homens de rostos bronzeados seguem a paródia de coroação com expressões aparentemente divertidas ou receosas, rodeando o deus como se ele fosse um dos seus companheiros.

 

Baco, de Caravaggio, c. 1598

 

Neste quadro, os camponeses não são os labregos que servem para fazer sobressair um nobre universo ideal, como acontecia tantas vezes na literatura e na pintura da época. Pelo contrário, são precisamente eles que criam pelo seu duro trabalho a base da prosperidade social; como agradecimento, o deus concede-lhes as alegrias do vinho e a liberdade de um dia de repouso. Certos pormenores deste quadro mantêm-se fiéis à tradição do “bodegón” e a influência de Caravaggio é ainda claramente sentida – tanto na utilização directa dos motivos como pela obliquidade dos modelos de tipos do caravagista espanhol Josep de Ribera (1591-1952). Mas o próprio Ribera, que criou as suas principais obras para o vice-rei de Nápoles, é a prova de que o caravagismo, considerado demasiado plebeu, não podia durar muito nas cortes reais. E Velázquez teria ele também de mudar de estilo e de se dirigir para outros modelos.»

Wolf, Norbert. Velázquez. Tradução de Maria Eugénia Ribeiro da Fonseca, Taschen, 2004.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:29 link do post
09 de Setembro de 2014

 

Portugal, Hoje O Medo de Existir, de José Gil, é uma radiografia impressiva da nossa mentalidade e dos nossos comportamentos enquanto indivíduos e comunidade. Nas palavras do autor: «nada acontece, nada se inscreve na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico.» José Gil aponta o dedo a uma sociedade fechada interiormente, a um país praticamente resignado e impotente em que o espaço público é fechado e sem debate político, a crítica: «descamba maioritariamente no insulto pessoal ou no elogio sobrevalorizante», e o mundo artístico se alimenta do queixume e do ressentimento. Os males detectados são públicos: Desconhecimento das regras básicas de funcionamento da democracia, resignação perante os dissabores, medo de agir e conformismo geral. O seu conjunto terá necessariamente que conduzir um país à passividade, à inércia e ao imobilismo, ou, no limite, ao seu possível desaparecimento. Não se debruçando voluntariamente sobre o que Portugal terá de bom, escrevendo apenas a respeito das causas que durante a sua evolução impedem «a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade», José Gil elaborou um livro fundamental para compreendermos determinados sinais que obstam ao nosso desenvolvimento colectivo, não obstante nos deixar excessivamente deprimidos e preocupados.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:47 link do post
05 de Setembro de 2014

 

 

«Maurizio Pollini plays all 18 of these nocturnes (as well as the posthumously published Nocturne op. post. 72 no. 1) in the present record, a decision inspired not only by his wish to offer as complete as possible an account of one particular type of work from the Polish composer’s pen but also, and above all, to demonstrate Chopin’s development within these character pieces and to draw attention to the differences that exist between them: “All of them are of course lyrical in tone, but there are also vast differences between them. This is itself makes a cyclical recording sufficiently interesting – simply because enough contrasts can be heard in them.” Pollini has, of course, been drawn to Chopin’s music ever since winning the prestigious Chopin Piano Competition in Warsaw in 1960: “Once I’d won the Warsaw Chopin Competition, Chopin’s music became a part of my life.” It goes without saying that Pollini is interested not only in bringing out the sense of dramatic development within these pieces but also in the element of bel canto, which in his eyes plays a major role here. But in stressing the importance of this element, he also views it in a broader context.»

Carsten Dürer

 

30 de Agosto de 2014

 

 

Não será fácil recriar a música de um génio da estirpe de Miles Davis. Porém, paradoxalmente, talvez por causa da excelência do seu universo musical, a tentação tem sido grande. Nos melhores exemplos, a reinterpretação cumpre o seu papel; contudo, não obstante o seu brio, nunca consegue suplantar uma música inventada previamente. Mas com Joe Henderson, em 1993, o resultado foi diferente. Observando detalhadamente a anatomia musical de Miles Davis, Henderson assimila integralmente o espírito do mestre, explora as suas formas e substância musicais até ao osso, os seus estímulos, inquietações ou contradições, e tempera-os com uma dose equilibrada e vibrante de lirismo, acuidade rítmica, improvisação, sentido arquitectónico e intensidade melódica. Recorrendo a um quarteto - formado por si, John Scoffield, Dave Holland e All Foster -, Joe Henderson introduz novas e inesperadas gradações na estrutura musical dos standards de Miles - aqui e ali pontuados por uma assinalável contenção sonora, onde nada é supérfluo -, conquista uma liberdade estética que outros não conseguiram, conduzindo-os amiúde até ao mais absoluto silêncio. Decorridas duas décadas, So Near, So Far não ganhou uma única ruga e é, ainda hoje, um álbum rigorosamente essencial.

 

24 de Agosto de 2014


«Existirá algum modo de conferir sentido aos tempos que vivemos, repletos de guerra e destruição?» A reflexão de Hannah Arendt sobre a violência e as suas motivações, num ensaio político escrito em 1969, fornece aos seus leitores as ferramentas necessárias para analisar e pensar o mundo de ontem e o actual (bem mais conturbado). Opondo-se à banalização da violência, a autora expõe as suas preocupações e recomendações. As primeiras consistem essencialmente num exame contextualizado à «relação entre guerra, política, violência e poder» e à inquietante descontinuidade entre passado e futuro; por sua vez, para combater a disseminação e a multiplicação descontrolada de sucessivos focos de violência, esta não deve escapar ao poder e à autoridade. Poder e violência são incompatíveis. Quando, como refere Hannah Arendt, alguém (governantes ou governados) detém o poder e sente que este lhe escapou das mãos, dificilmente resiste ao desejo ou à vontade de o trocar pela violência. Dito de outra forma, «toda a diminuição de poder é um convite aberto à violência». Construído e evoluindo numa linguagem elegante e francamente acessível, Sobre a Violência mantém, em suma, uma importância assinalável para tentar compreender os crescentes conflitos das sociedades hodiernas - nacionalismos, fundamentalismos, guerras e revoluções - e combater a sua erosão moral, revelando toda a actualidade e pertinência do pensamento político da sua autora.
publicado por adignidadedadiferenca às 20:27 link do post
17 de Agosto de 2014

«O que eu também defendo é que existe uma diferença entre o conhecimento de outros povos e de outros tempos que é produto do entendimento, da compaixão, do estudo cuidadoso e da análise séria, e, por outro lado, o conhecimento (…) que faz parte de uma abrangente campanha de auto-afirmação, beligerância e guerra directa. Existe, afinal de contas, uma profunda diferença entre a vontade compreender por razões de co-existência e de alargamento de horizontes humanísticos, e a vontade de dominar por razões de controlo e domínio externo. É com certeza uma das catástrofes intelectuais da história que uma guerra imperialista, confeccionada por um pequeno grupo de oficiais norte-americanos não-eleitos (…) tenha sido lançada contra uma ditadura do Terceiro Mundo (já devastada) por razões unicamente ideológicas, que se prendem com o domínio do mundo, o controlo da segurança e a escassez de reservas, mas cujas verdadeiras intenções foram mascaradas, apressadas e justificadas por orientalistas que traíram a sua vocação de eruditos.»

Edward W. Said, Orientalismo

 

 

Segundo o autor, o Orientalismo consiste genericamente num estilo de pensamento que distingue Ocidente e Oriente – diferença ontológica e epistemológica – como ponto de partida para produzir teorias políticas e sociais, romances ou epopeias a respeito do oriente, da sua gente, cultura, dos seus costumes, desígnios e mentalidade. Essa distinção foi aceite por uma assinalável quantidade de académicos, romancistas, filósofos, poetas, políticos, economistas ou administradores imperiais. Material e historicamente, para Edward Said, o Orientalismo pode significar ainda um estilo ocidental desenvolvido para dominar, reestruturar e exercer influência sobre o Oriente.

publicado por adignidadedadiferenca às 18:44 link do post
14 de Agosto de 2014

  

 

Ricardo Rocha queixa-se de uma série de obstáculos técnicos da guitarra portuguesa, por ser «um instrumento extremamente limitado e cheio de falhas do ponto de vista técnico e dos sons que supostamente se querem ouvir mas que na prática não se conseguem ouvir porque não se conseguem fazer» (Público, de 20 de Julho). Não obstante, socorrendo-se da figura da heteronímia, cara a Fernando Pessoa, cria com notável engenho virtuosístico um quarteto de guitarras imaginário – segundo o autor, de impossível concretização prática imediata – que lhe permite aliviar as suas frustrações e superar as dificuldades levantadas pela execução do instrumento. Recuperando um conjunto de peças que tinha atirado para o fundo de uma gaveta, Ricardo Rocha contraria os seus justificados receios e grava Resplandecente, uma obra muito conseguida, de uma unidade espantosa, conciliando uma diversidade de estilos e idiomas musicais, atravessando os territórios do impressionismo, do romantismo e do minimalismo, onde sobressai o silêncio como elemento preponderante ou ponte de ligação entre sobreposições de escala e de padrões rítmicos e harmónicos, repetições à Steve Reich, escorreitos e tensos exercícios de convergência de «sonhos, cores, imagens e sensações» e minuciosas miniaturas de inegável valor expressivo.

publicado por adignidadedadiferenca às 20:48 link do post
05 de Agosto de 2014

 

 

«- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual, dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos, do Amor ou da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as noites, durante semanas ou meses ou anos?»

publicado por adignidadedadiferenca às 14:42 link do post
30 de Julho de 2014

 

 

Para o escritor russo Vladimir Nabokov, o exílio forçado pela Revolução Bolchevique de Outubro de 1917 nunca significou um ajuste de contas com o regime comunista, o passado e os acontecimentos que a ele se encontram ligados. Como bem o demonstra este pequeno excerto de Fala, Memória (Speak, Memory, na língua original), a magnífica autobiografia revisitada: «Esta passagem não é dirigida ao leitor vulgar, mas ao idiota muito especial que me compreende, julga ele, por ter perdido a fortuna num desastre. O meu velho desentendimento com a ditadura soviética (desde 1917) nada tem que ver com problemas de propriedade. Sinto o maior desrespeito pelo émigré que “odeia os vermelhos” porque lhe “roubaram” dinheiro e terras. A nostalgia que tenho alimentado todos estes anos é sensação hipertrofiada de uma infância perdida, sem nada de lamento pelas contas bancárias que perdi.»

25 de Julho de 2014

 

 

Alfabetos - Alfabeti - Saggi de letteratura, no original - reúne um conjunto notabilíssimo de ensaios sobre literatura, da autoria de Claudio Magris. Aparentemente dispersos, estes textos possuem, no entanto, uma consistência que advém da existência de um fio condutor, agrupando e organizando as preocupações e as reflexões do escritor e ensaísta italiano, entre as quais se destacam, por estarem bem presentes, as múltiplas contradições entre a substância literária e as feridas no comportamento dos seus autores, o significado da linguagem neoclássica ou de vanguarda, os compromissos ético e político da literatura, a natureza variável das convenções sociais, as transformações culturais ou a poesia, o sentido e o valor da vida. E neles sobressai ainda a imensa cultura, o humor, a paixão pelos livros e a escrita lúcida e linear do seu autor; nenhuma ideia é inútil ou superficial. Deixo aqui um exemplo admirável da feliz conexão entre prosa e pensamento: «Hoje indubitavelmente as transformações dos costumes e as possibilidades oferecidas pela bioengenharia corroem de forma radical o modelo de família (…) Esse somatório de coisas desconcerta também quem contesta a família tradicional: não por acaso, muitas vezes inconscientemente, o casal tenta reconstruí-la, mesmo quando crê desmantelá-la. Por exemplo, os unidos de facto que mesmo podendo casar-se não o fazem, baseando-se na ideia de que o seu relacionamento nada tem a ver com o Estado, algo em si legítimo, pretendem, contraditoriamente, um reconhecimento por parte deste último, não conseguindo, é claro, libertar-se do modelo da família como base da unidade social; até os casais homossexuais negam a família e, ao mesmo tempo, reclamam o direito de constituí-la. Quem considera que a família não é o único nem o melhor ambiente em que pode crescer uma criança deveria ter – mas não tem – a coragem, nas adopções, de propor que a adopção de uma criança não seja necessariamente por duas pessoas ligadas por um relacionamento sexual, mas também possa ser efectuada por um grupo de amigo ou uma comunidade, desde que formada por pessoas que dêem todas as garantias de que sabem tratar de uma criança».

publicado por adignidadedadiferenca às 22:20 link do post
23 de Julho de 2014

 

 

Notícia de hoje do jornal i: «Dívida portuguesa continua a distanciar-se da média da Europa. Em 2013, a dívida pública portuguesa correspondia a 127% do PIB. Em 2014, a dívida atinge os 132% do PIB». Chegou porventura a altura de reconhecer o fracasso desta política de austeridade. Por mais radiografias e electrocardiogramas que façam, os nossos governantes não conseguem encontrar uma solução nem um ponto de equilíbrio que permita ao Estado ser menos gastador e, simultaneamente, o crescimento económico. Infelizmente, como vimos pelos exemplos passados, a dívida pública tem crescido sempre, haja ou não austeridade. Não obstante se tratar de um inquestionável lugar-comum, não será cada vez mais urgente renegociar/reestruturar responsavelmente a dívida pública com os credores? Mas isto apenas para começar. Porque depois falta resolver alguns dos problemas mais inquietantes que atingem a sociedade contemporânea. Como aumentar, por exemplo, o emprego num sector laboral que, por força da evolução tecnológica, prescinde sucessivamente de um número crescente de trabalhadores? Ou como tornar a economia competitiva, sem empobrecer os cidadãos, quando esta tem de concorrer num mundo globalizado no qual a mão-de-obra maioritária é contratada em condições muito próximas do limiar da escravidão? Já sem falar noutras questões, sobretudo as culturais e educacionais. Os seus resultados serão menos imediatos, mas continuam a ter uma importância vital para lutar contra o subdesenvolvimento num futuro mais longínquo. É que o abismo é já ali…

publicado por adignidadedadiferenca às 16:32 link do post
20 de Julho de 2014

 

 

Estreia esta semana The Immigrant - retrato de uma imigrante polaca que desembarca na Nova Iorque dos anos 20 do século XX, consumida por uma realidade bem longe do sonho americano que nos quiseram impingir -, o último e extraordinário filme do mais fascinante cineasta norte-americano da actualidade, James Gray. O filme revela as características já conhecidas do universo do autor - as personagens perturbadas, atormentadas e desesperadas, a exploração de um conceito muito peculiar de família - devidamente enquadradas por uma visão poética e emocional que, neste filme, atinge o cume do dramatismo, da culpa e da redenção. Uma visão comovente, mais contida, porventura, cujos protagonistas caminham, progressiva e paradoxalmente, à beira da explosão. Porém, não é apenas o filme que quero destacar. James Gray, na entrevista concedida ao semanário Expresso - conduzida por Francisco Ferreira -, deixou aos seus leitores ampla matéria para reflexão. Como esta ideia, por exemplo: «Eu sempre digo isto: temos que dar ao espectador o que ele precisa, não o que ele quer, porque dar-lhe o que ele quer é ser demagógico e assinar a maior das cobardias.» Um aviso que bem podia atingir, entre outros, os ideólogos da nossa televisão pública.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:58 link do post
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