a dignidade da diferença
26 de Agosto de 2015

 

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 O Julgamento de Giordano Bruno pela Inquisição Romana. Relevo em bronze por Ettore Ferrari.

 

Para o comum dos mortais, com um mínimo de conhecimento da lei processual penal, seria muito difícil compreender, antes da última reforma do processo penal português, como se justificava que um arguido que confessa o seu crime em fase anterior à audiência de julgamento, diante do juiz de instrução, fosse absolvido quando, na ausência de outras provas, se remetia ao silêncio em audiência ou nem sequer participava nela. Nesse sentido, a alteração legislativa que permitiu a valoração em audiência das declarações anteriormente prestadas pelo arguido terá sido aparentemente uma das medidas mais meritórias tomadas no âmbito da referida reforma. Na verdade, como esclarece o texto apresentado no 9.º Congresso dos Juízes Portugueses, da autoria de um grupo de trabalho constituído por juízes – no âmbito do Gabinete de Estudos e Observatório dos Tribunais da Associação Sindical dos Juízes Portugueses - e publicado em Janeiro de 2012 (o livro intitula-se Mudar a Justiça Penal, Linhas de Reforma do Processo Penal Português), «sendo o processo penal um repositório dos valores de uma comunidade num determinado período histórico e sendo constante o dilema entre uma adequada compatibilização entre o direito das vítimas, do Estado e da comunidade em perseguir e punir o agente do crime e por outro lado a necessidade de acautelar a dignidade e todas as garantias de defesa do arguido, não poderá deixar de ser igualmente um elemento de reflexão quando os cidadãos não compreendem determinadas proibições legais, como é o caso, pois aos seus olhos declarações confessórias prestadas perante um juiz, deverão conduzir, em regra, a uma punição criminal». Fica, no entanto, uma dúvida: admitindo que a confissão do arguido durante o inquérito ou a instrução terá possibilitado, nalguns casos, a obtenção de outros meios de prova através de investigação feita a partir dos dados obtidos nessa confissão, que terão conduzido à condenação daquele ainda que se remetesse ao silêncio em audiência ou nem participasse nela, não irá, nesse sentido, a valoração em audiência das declarações anteriormente prestadas pelo arguido remetê-lo definitivamente ao silêncio, sobretudo porque será advertido que as declarações proferidas (obrigatoriamente na presença do seu advogado) poderão incriminá-lo na fase de julgamento, com evidente prejuízo em sede de investigação? Se no plano das ideias e dos princípios é difícil não concordar com a adopção desta medida, só o tempo poderá demonstrar a sua eficácia prática.

 

18 de Agosto de 2015

 

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«A long with Randy Newman, Van Dyke Parks, Harry Nilsson and some others, David Ackles helped widen the definition of contemporary singer-songwriters in the late 1960s. This was a group of performers open to incorporation of many non-rock pop and theatrical influences into their work, and not based in folk-rock, like so many of the other early singer-songwriters were. Nor were they conventional rock or pop singers. Somehow, nonetheless, they recorded albums that were marketed to the rock audience. Of all the names mentioned above, David Ackles is certainly the most obscure, even if his quartet of albums won him a cult audience that included Elton John and Elvis Costello. David Ackles, his self-titled 1968 Elektra debut, was an unusual effort even by the label’s own high standards for introducing original talents. Ackles’ dark, brooding songs and low croon-rumble of a voice delivered cerebral lyrics painting the everyday adventures of misfits and their struggles to find meaning and spirituality. What could have been overblown in other hands was given a stately dignity by the stoicism, vacillating between determination and resignation, of Ackles’ vocals and observations. Far more than any of his subsequent albums, the record’s arrangements were tailored for rock ears, with ethereal psychedelic-tinged guitar and organ that weren’t too unlike those heard on other Elektra LPs of the time, such as Tim Buckley’s early releases.»

Richie Unterberger

 

 

12 de Agosto de 2015

A propósito da posição dos credores e do comportamento do clube dos virtuosos nas operações de resgate das dívidas soberanas dos países do sul da Europa, bem como da sua superioridade moral na imposição de condições na zona euro previsivelmente irrealizáveis, assente sobretudo nas críticas apontadas à conduta dos países devedores, ou ainda o modo elaborado sobre como se ganha com o financiamento das dívidas públicas e com as crises dos outros, vale a pena recordar, no plano moral, este significativo episódio retirado do magnífico A Família Golovliov, do escritor russo Saltykov-Shchedrin, clássico absoluto da literatura do século XIX que - na opinião do crítico James Wood - se vai tornando, pelas suas estranheza e rugosidade, cada vez mais moderno com o decorrer do tempo. E depois venham-me cá dizer que não está tudo na literatura…

 

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«”Então, meu amigo, que tens tu a dizer-me?”, começou Porfírio Vladímiritch. “Olhe, senhor, queria um pouco de centeio…” “Como? Já comeste o teu todo? Ai, ai, que pecado! Se bebesses menos vodka e trabalhasses mais, e rezasses mais a Deus, a terra havia de sentir! Onde hoje colhes um grão, podias colher dois ou três! E não tinhas precisão de pedir emprestado!” Foka sorria irresolutamente em vez de responder. “Julgas que Deus está longe e não vê?”, continuou Porfírio Vladímiritch a moralizar. “Ah, mas Deus está aqui mesmo! Ele vê tudo, ouve tudo, só parece que não. Deixa os homens viver por si a ver se se lembram d’Ele. E nós aproveitamo-nos, e em vez de pouparmos para uma candeia… é para a taberna, para a taberna! É por isso que Deus não lhes dá centeio. Não é bem assim, amigo?” “Já se sabe! É bem verdade!” “Já vês, agora compreendes. E porque compreendes tu? Porque Deus te retirou a graça. Se Deus te tivesse dado uma boa colheita, andarias por aí cheio de vento, mas assim Deus…” “È verdade, e se nós…” (…) “Agora como vens pedir-me centeio, é certo que estás todo amável e respeitoso, mas no ano passado, lembras-te, quando eu precisava de ceifeiros e fui pedir um favor aos teus mujiques: (…) Disseram que tinha a vossa própria ceifa! Hoje, disseram, não é como dantes em que tínhamos de trabalhar para o senhor, hoje somo livres!” “São livres mas não têm centeio!” Porfírio Vladímiritch olhou professoralmente para Foka, mas aquele não se mexeu, como entorpecido. (…) “Então dizes que querias centeio?” “Sim, se…” “Queres comprar?” “Comprar? Queria um empréstimo até à ceifa…” “Ai, ai, ai! Hoje em dia o centeio está muito caro. Não sei o que devo fazer contigo…” (…) “Gostava de te ajudar, mas o centeio está muito caro…” “Está bem, meu amigo, está bem, dou-te algum centeio de empréstimo”, disse ele (…) “Hoje tenho fartura, toma, leva de empréstimo. Queres quatro sacas – leva quatro. Precisas de oito – carrega-as.” (…) “Que quantidade queres tu de centeio?” “Quatro sacas, já que é tão bondoso.” “Está bem, quatro sacas, mas aviso-te desde já: o centeio está muito caro hoje em dia, meu amigo, caríssimo. De maneira que fazemos assim: eu dou-te quatro sacas e dentro de oito meses tu devolves-me seis – assim as contas ficarão certas! Não te levo juros, mas só centeio…” (…) “Não será de mais, senhor?”, perguntou, por fim, visivelmente tímido. “Se é de mais, vai pedir a outro. Eu não te obrigo, meu caro. Ofereço do coração. Não te mandar chamar, foste tu próprio que vieste ter comigo. Fizeste-me um pedido, eu acedi.” (…) “Pois claro, mas não é pagar muito?” “Ai, ai, ai! E eu a pensar que eras um mujique sério e honrado! Então diz-me cá, de que é que esperas que eu viva? Como vou eu cobrir as minhas despesas?” Em resumo, apesar das voltas de Foka, o assunto resolveu-se como queria Porfírio Vladímiritch.»

04 de Agosto de 2015

Verdade ou não, será, pelo menos, um belo naco de poesia – retirado de Número Zero, a mais recente obra de ficção do seu autor, Umberto Eco, recomendável também por outras razões, sobretudo por se tratar de uma certeira, amarga e lúcida abordagem ao mundo do jornalismo contemporâneo, escrita numa linguagem concisa, afiada e elegante - «Os perdedores, como os autodidactas, têm sempre conhecimentos mais vastos do que os vencedores: se queres vencer, tens de saber uma coisa só e não perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quantas mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deveriam».

 

Descoberto inicialmente aqui.

 

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«A doctor smiled at him from somewhere across the room/Son we saved your life but you’ll never look the same/And when he heard that Harry had to laugh (…)/Although it hurt Harry had to laugh/The final disappointment»

Lou Reed, Harry’s Circumcision

16 de Julho de 2015

 

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«As personagens de Tchékov esquecem-se que são personagens de Tchékov. Vemos isso de forma maravilhosa num dos seus primeiros contos, “O Beijo”, escrito quando tinha vinte e sete anos. Um soldado virgem beija uma mulher pela primeira vez na vida. Ele guarda essa memória e está ansioso por contar a experiência aos seus companheiros. Porém ao contar-lhes a história fica desiludido por só ter demorado um minuto a conta-la quando imaginava “que fosse durar a noite toda”. É frequente as personagens de Tchékov ficarem desiludidas com as histórias que contam e com inveja das histórias das outras pessoas. Mas ficar desiludida com a sua própria história é uma liberdade extraordinariamente subtil em literatura, porque implica a liberdade da personagem de se desiludir não só com a sua própria história mas, por extensão, com a história que Tchékov lhe atribuiu. Desta forma a personagem liberta-se da história de Tchékov para a interminável liberdade da desilusão. Está sempre a tentar fazer a sua própria história a partir da história que Tchékov lhe atribuiu, mas mesmo esta liberdade da desilusão será uma desilusão. (…) E no entanto, é uma liberdade. Vemo-lo perfeitamente em “O Beijo”. O soldado esquece-se que faz parte da história de Tchékov porque está completamente imerso na sua própria história. A sua história é interminável, e ele espera que dure a noite toda. No entanto, a história de Tchékov “conta-se num minuto”. No mundo de Tchékov, as nossas vidas interiores têm uma velocidade própria. São calendarizadas sem rigor. Regem-se por um almanaque ameno, e nos seus contos a vida interior choca com a vida exterior como dois sistemas cronológicos diferentes, como o calendário juliano em oposição ao gregoriano. Era isto que Tchékov queria dizer com “vida”. Foi esta a sua revolução.»

James Wood, The Broken Estate

11 de Julho de 2015

A propósito do próximo concerto de Caetano Veloso e Gilberto Gil no festival EDP Cool Jazz (31 de Julho), em Oeiras, na comemoração dos seus 50 anos de carreira, aproveito para vos recordar o que Caetano escreveu na edição do álbum Tropicália 2 (a pretexto da celebração dos 25 anos do movimento). Trata-se de uma bela síntese do espírito do tropicalismo e do seu magnífico canibalismo sonoro, que ambos, com o contributo e o testemunho de outros intervenientes, idealizaram e concretizaram. Uma música sem idade nem fronteiras, que devorou géneros, gerações e territórios, cujos alicerces estéticos assentaram na aplicação prática da velha máxima: act local, think global. Praticamente tudo o que vinha de fora era aceite e digerido. Dessa recolha renascia um soberbo e revitalizado corpo musical após uma cuidadosa e devidamente dissecada matéria musical, filtrada por uma singular perspectiva regional.

 

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«Milton Nascimento’s falsetto is one of the most beautiful sounds produced by the human species today on this earth. In Carlinhos Brown the dry wilderness goes seaside and the sea laps at the wilderness. Assis Valente didn’t deserve that spiritualist couple of biographers who insisted on treating his sexual life in the same obscurantist climate of dissimulation and subterfuge the was the rule in the time in which he lived and probably contributed to his being driven to suicide. 1955, avantgardes: in the National Park, the Villas Boas brothers; in the National Library, the Campos brothers; in National Radio, Angela Maria and Cauby Peixoto. Roberto Silva was the shadow of the bridge that leads from Orlando Silva and Ciro Monteiro to João Gilberto – an evolutionary line not present in the mind of the other great ones of the period, who only saw the American side of modernization: the Alfs and Alves and Farneys, the Cariocas… The Tao is an invention of man from the Orient. The baião is an invention of men from the dry wilderness. The Tao of the baião will always be a musical path trough universal history. (…) Caruso, Celestino, Lanza, Pavarotti, Domingo – they sound like rooster to me, fine for crowing but though to cook. You need a little Sumac or Callas to soften then up. When I saw Prince for the first time on American TV I thought: Miles Davis like this. (…) Amália Rodrigues, Ray Charles, Cameron de la Isla: lessons of inevitable singing. Everything in Michael Jackson is made of pop material: his great music, his great dancing, his minimal life. In our times only he carries the same weight of popism as Marylin or Elvis or Elizabeth Taylor. (…) Everything that wasn’t American in Raul Seixas was too baiano, too much from Bahia.»

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:39 link do post
02 de Julho de 2015

 

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Constituído por Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, este grupo carrega consigo o peso excessivo que a denominação PIIGS lhe confere porque se trata de um conjunto de países caracterizado pela posição extremamente precária em que se encontra dentro da Zona Euro, por força de uma deficiente estratégia no que respeita aos gastos públicos, certificada por um endividamento excessivo e progressivamente descontrolado. Embora corra o risco de generalizar, até porque as suas crises têm natureza distinta, estes países possuem presentemente um elevado rácio dívida pública/PIB (produto interno bruto), bem como um défice orçamental excessivo tendo em consideração a capacidade da sua economia. Os recursos, por sua vez, são cada vez mais limitados. Da conjugação de todos estes factores resulta um agravamento da sua situação económico-financeira, penalizada pela crescente desconfiança dos potenciais investidores financeiros. Os problemas dos países da Zona Euro são bastante profundos. São problemas estruturais os que afligem as economias destes países: os gastos são superiores ao rendimento obtido, as contas correntes sucessivamente deficitárias circunscreveram a sua população a um regime de austeridade para a qual não encontram saída, agravado, desde a crise do subprime, pela tomada de medidas precipitadas - impostas por tecnocratas de instituições europeias muito pouco democráticas - com vista à sua resolução, aumentando o défice dos Estados. Para a referida crise das dívidas soberanas contribuiu significativamente a posição dos Estados Membros excessivamente dependente das instituições da União Europeia. Dependência económica e política que começou a emergir com a perda de uma fatia considerável da sua soberania desde que estes países aderiram à união económica e monetária, abdicando de um dos símbolos mais estreitamente ligados à soberania nacional: substituir as moedas nacionais pela moeda única (o euro). Será que a curva deficitária terá colocado os PIIGS num beco sem saída? Para estes países, de facto, não se augura nada de bom no futuro. Dependem excessivamente da ajuda financeira externa e estão integrados numa organização regional constituída por países cuja maioria (como maior peso decisório) hesita em prestar o auxílio necessário. O que, infelizmente, nem surpreende: têm passados diferentes, alianças diferentes, interesses e objectivos diferentes, revelam-se incapazes de criar um espaço comum homogéneo e solidário, transformando a União Europeia num projecto artificial agravado pela precipitada construção da última fase de integração. A adesão da maioria dos Estados Membros a uma moeda única quando as respectivas economias se encontravam (e ainda encontram) em diferentes estádios de desenvolvimento haveria, mais cedo ou mais tarde, de os conduzir a uma situação de ruptura e desentendimento que se agravou com a acelerada perda de soberania, ilustrada pela transferência dos poderes nacionais para as instituições da União Europeia. Confiscada essa soberania (para o bem e para o mal), as crises mais apertadas e os problemas mais urgentes deixaram de poder ser resolvidos autonomamente, dependendo no contexto actual de vontades políticas e económicas contraditórias e exteriores. Em suma, se os países do sul da Europa (mais a Irlanda) sinalizam, em certa medida, a decadência de uma talhada significativa das democracias ocidentais – neste caso, europeias -, com uma série de debilidades estruturais que, não obstante a sua natureza distinta, colocam imensas dúvidas no plano da sua sobrevivência política, social e económica, esses sinais agravam-se por sucessivos resgates financeiros – com diferentes patamares de (in) cumprimento, é certo (a Irlanda já aparece com um pé de fora...) – que não têm dado a resposta necessária por falta de unidade e solidariedade, de uma visão política e económica amadurecida e homogénea, e pela miopia ideológica das sucessivas troikas, aplicando sucessivamente a mesma receita em doenças de natureza distinta, por mais comprovada que esteja a sua ineficácia.

publicado por adignidadedadiferenca às 20:31 link do post
24 de Junho de 2015

 

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Lágrimas e Suspiros (1973), um dos filmes centrais do cinema moderno, é uma das obras mais complexas do sueco Ingmar Bergman, bem como um dos seus êxitos mais inesperados. François Truffaut citava-o como sumo exemplo do filme que, embora apresentasse todas as características do filme maldito, alcançou um êxito mundial. Na sua génese está a lenta agonia de Agnes, uma mulher moribunda, torturada por um cancro, que, ajudada pelas suas irmãs, Karin e Maria, convive num ambiente mesquinho de ciúme, manipulação e egoísmo. Ou seja, tudo aquilo que o público geralmente recusa ver. O crítico e cineasta francês – como acaba de certificar a recente reedição do clássico Os Filmes da Minha Vida - entendia que, no caso de Lágrimas e Suspiros, «a perfeição formal do filme, e sobretudo a utilização da cor vermelha no cenário da casa, constituíram o elemento exaltante, ouso até dizer o elemento de prazer, graças ao qual o público sentiu imediatamente que estava perante uma obra-prima, decidindo vê-la com uma cumplicidade artística e uma admiração que equilibraram e compensaram o efeito traumático das lágrimas e dos suspiros da agonia de Harriet Andersson». A observação de Truffaut sobre este filme que possui uma capacidade rara para filmar o interior da alma parece-me ainda hoje uma óptima explicação para quem procura no cinema algo mais do que puro entretenimento.

17 de Junho de 2015

 

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Fury (1936), alinhado, juntamente com You Only Live Once e You and Me, na trilogia social de Fritz Lang, produzida nos thirties, descreve a história do linchamento de Joe, injustamente acusado de um rapto. Conseguindo sobreviver ao incêndio da prisão onde se encontrava detido, Joe, obstinado pela sede de vingança, esconde de todos que escapou com vida, organizando em segredo um método para acusar de tentativa de linchamento, e à consequente condenação, os cidadãos responsáveis pelo sucedido. Poder-se-á afirmar que se trata, em suma, do testemunho da democracia no conflito da lei com a força colectiva. Samuel Fuller, experiente cineasta nesta matéria, não gostava muito do filme de Lang. Comparando-o com outro filme (notável) sobre vítimas de linchamento popular - Ox-Bow Incident (1941), de William Wellman, que narra a história do enforcamento de três homens inocentes -, considerava que Fury perdia para o filme de Wellman por não mostrar relações honestas e humanas. Fuller não compreendia que um grupo de pessoas que julgaram ter morto um culpado pudessem chorar, justificar-se e ter medo quando se apercebem que a vítima está viva. Em Ox-Bow Incident, pelo contrário, as relações são bem mais verdadeiras (os carrascos bebem e esquecem os inocentes enforcados). A película de Wellman seria o exemplo de um filme adulto, Fury o filme hollywoodiano por excelência. O segundo canal da RTP exibiu a fita no último sábado, oferecendo uma boa oportunidade de reavaliação. Estarei por conseguinte em condições de afirmar que não consigo concordar com Samuel Fuller e advogo ainda hoje que Fury será um dos mais poderosos e vertiginosos trabalhos sobre o modo como pacíficos e disciplinados cidadãos se transfiguram numa odiosa multidão, detentora de uma obstinada sede de justiça. Esta ideia sai reforçada por essa admirável mise-en-scène que vai deixando sinais bem ilustrativos de uma profunda insanidade, atestada na vertigem dos destinos individuais e colectivos, onde se perde a lucidez e se desafiam os valores morais. Também terá escapado a Fuller que Fury será uma das obras mais sombrias e atormentadas de Lang, pois não existe nada que distinga a vingança cruel de Joe da irracionalidade e da fúria justiceira dos seus linchadores. Apesar de terem sobrevivido à tempestade, Joe e a sua mulher Katherine são, no final da história, pessoas completamente diferentes. Perderam a capacidade de acreditar nos outros. Nesse delírio e nesse destino devastadores, foi-se destruindo a sua fé na justiça das sociedades humanas. Fury, um filme hollywoodiano?

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:23 link do post
07 de Junho de 2015

 

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«Não é preciso uma grande arte, uma eloquência muito rebuscada, para demonstrar que os cristãos se devem tolerar mutuamente. Vou mais longe: digo-vos que é preciso encarar todos os homens como nossos irmãos. O quê! Meu irmão, o turco? Meu irmão, o chinês? O judeu? O siamês? Sim, sem hesitação; não somos todos nós filhos do mesmo pai, e criaturas do mesmo Deus? Mas esses povos desprezam-nos; consideram-nos idólatras! Pois bem! Dir-lhes-ei que estão muitíssimo enganados. Tenho a impressão de que seria capaz de espantar a orgulhosa teimosa de um imã ou de um monge budista, se eu lhes falasse mais ou menos neste tom: “Este pequeno globo, que não é mais do que um ponto, rola no espaço, assim como todos os outros globos; nós andamos perdidos nessa imensidade. O homem, medindo à volta de cinco pés, pesa seguramente pouco na criação. Um desses seres minúsculos, algures na Arábia ou na Cafraria, diz a algum dos seus vizinhos: Prestem-me atenção, porque o Deus de todos os mundos me iluminou; vivem sobre esta terra, novecentos milhões de formiguinhas como nós, mas o meu formigueiro é o único de que Deus gosta; por todos os outros ele só sente nojo, por toda a eternidade; só o meu formigueiro será feliz, e todos os restantes conhecerão para sempre o infortúnio”. Eles interromper-me-iam e perguntar-me-iam quem foi o louco que afirma uma asneira dessas. Eu seria obrigado a responder-lhes: “Fostes vós próprios.”

Voltaire, Tratado Sobre a Tolerância – Por Ocasião da Morte de Jean Calais 

01 de Junho de 2015

 

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Para Camané, como o próprio afirmou há dias à Blitz, o fado (ou a canção) é uma coisa séria. Daqui se retira que o seu espaço musical não é, positivamente, povoado de cantiguinhas. Conduzindo a máxima depuração sonora à máxima expressividade, o rigor interpretativo de Camané assimilou progressivamente a composição teatral de José Mário Branco - um dos maiores estetas da música portuguesa contemporânea – entrelaçando textos e melodias, numa escrita simultaneamente fina e austera, ampliando a riqueza e o significado das palavras de alguns dos maiores poetas e escritores de língua portuguesa. Não obstante a dificuldade em destacar temas num disco que prima pela sua unidade e pelo princípio de que «todo o cuidado é pouco», sobressai, ainda assim, o quase-murmúrio de Triste Sorte, o notável e delicioso swing de Ai Miriam, a gravidade de Chega-se a Este Ponto, a sedução de Quatro Facas ou a tocante solidão de Aqui Está-se Sossegado. A voz de Camané, como muito bem ilustra o documentário que acompanha o disco, vem «de dentro» e renova-se a cada instante, serena, vibrante. Não abdicando da acuidade melódica da viola de Carlos Manuel Proença, do fraseado e do inacreditável som da guitarra portuguesa de José Manuel Neto, ou da presença tão discreta quanto essencial de Carlos Bica - sublime trio de instrumentistas que o acompanha meticulosamente -, Camané atingiu, no seu mais recente álbum de originais, Infinito Presente, o cume da sua arte da contenção, configurando-se como brilhante contraponto aos excessivos malabarismos vocais que por aí habitam.

 

 

24 de Maio de 2015

 

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«As possibilidades científicas modernas alteraram profundamente o curso da vida humana. As pessoas vivem mais e melhor do que em qualquer outro período da História. Mas os avanços científicos transformaram os processos de envelhecer e morrer em experiências médicas, questões a serem geridas por profissionais de saúde. E nós, no meio médico, demos assustadoramente provas de não estarmos preparados para isso. Esta realidade tem estado, em grande parte, escondida, uma vez que as fases finais da vida são cada vez menos familiares para as pessoas. (…) A morte, como é óbvio, não é um fracasso. A morte é normal. A morte pode ser o inimigo, mas é também a ordem natural das coisas. (…) Não é preciso passar muito tempo com pessoas idosas ou doentes em fase terminal para ter a noção da quantidade de vezes que a Medicina não consegue socorrer as pessoas que supostamente deveria ajudar. Os derradeiros dias da nossa vida são ocupados com tratamentos que nos baralham o cérebro e sugam o nosso corpo até ao tutano, em busca de uma ínfima hipótese de obter um resultado benéfico. São passados em instituições – casas de repouso e unidades de Cuidados Intensivos -, onde rotinas rígidas e impessoais nos afastam de todas as coisas que são importantes para nós na vida. A nossa relutância em analisar honestamente a experiência do envelhecimento e morte agravou o mal que infligimos às pessoas e negou-lhes os confortos básicos de que mais necessitam. (…) Há quem ficará assustado com a ideia de um médico escrever sobre a inevitabilidade do declínio e morte. Para muitas pessoas, este tipo de conversa, por mais cuidado que se tenha a enquadrá-la, evoca o espectro de uma sociedade a preparar-se para sacrificar os seus doentes e velhos. Mas, e se (…) já estiverem a ser sacrificados, já forem vítimas da nossa recusa em aceitar a inexorabilidade do ciclo da vida?»

Atul Gawande, Introdução a Being Mortal.

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